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Neoliberalismo e a greve dos caminhoneiros

Em algum momento os neoliberais tupiniquins iriam se deparar com forças reais da sociedade, oponentes a eles, cuja existência ignoravam solenemente.

 
Isso não veio na forma de um movimento de categorias grevistas convencionais, de caráter principalmente ideológico, várias vezes fracassado desde o impeachment, mas por meio de uma rede humana de caminhoneiros sem identidade clara, juntando motoristas empregados, pequenos proprietários de caminhões, grandes empresas, pessoal de serviço etc.
 
Entretanto, como movimento político sem ser abertamente político, nada poderia ser mais pedagógico que a greve dos caminhoneiros. É uma greve contra o neoliberalismo, embora grande parte de seus participantes não saiba disso. É que a política de Pedro Parente na frente da Petrobrás chegou ao extremo máximo da cartilha neoliberal. Ele pretendeu curvar a empresa aos interesses dos acionistas e, de forma explícita, submeter a estes últimos, sobretudo americanos, o interesse nacional.
 
Com esse intuito Parente mudou os estatutos da empresa, por cima da lei, para alterar toda a estratégia da Petrobrás na direção privatista. Pior do que isso. Deliberadamente reduziu em 25% a produção de derivados de petróleo no Brasil com o fim espúrio de abrir mercado para as petrolíferas estrangeiras, sobretudo americanas. É evidente que o preço teria de subir já que, na sua composição, há mais quantidade de derivado importado de custo mais alto, inclusive cambial, que o derivado produzido em refinarias da Petrobrás.
 
O que Parente fez é, portanto, um crime de lesa pátria. Os procuradores da República deveriam compensar o estrago que fizeram com a economia nacional, ao destruir grandes empresas construtoras nos processos irresponsáveis da Lava Jato, apontando aos tribunais esse verdadeiro criminoso que se esconde sob o manto ideológico neoliberal. Contudo, como dizem os franceses, “para algumas coisas o mal é bom”: Parente emprestou uma cara ao neoliberalismo, dividindo-a com Temer e seus asseclas.
 
Sem a audácia neoliberal de Parente, jamais a sociedade brasileira teria oportunidade de saber que para exercer o poder de acionista majoritário da Petrobrás, estabelecendo uma política de preços, o Governo está obrigado a compensá-la financeiramente por supostas perdas. Isso indica claramente que o povo brasileiro perdeu a Petrobrás para o mercado. É uma infâmia que algo como isso aconteça nas barbas dos donos originais da empresa, o povo, assim como diante de categorias que foram importantes na construção nacional da Petrobrás, os trabalhadores e os militares.
 
Essa distorção neoliberal não pode prevalecer sobre uma análise coerente da situação dos preços dos derivados de petróleo. Não há solução para a redução e estabilização deles sem a retomada da produção plena das quatro refinarias brasileiras. Parente fez uma política que Felipe Coutinho, presidente da Aepet, chamou de “America first”. De fato, as grandes beneficiárias da política de importação forçada de derivados de Parente foram as petrolíferas estrangeiras, notadamente as norte-americanas. Imagine-se o tamanho da propina que está por baixo dessa decisão apresentada como de mercado.
 
Os caminhoneiros são heróis da defesa de uma política nacionalista do petróleo. Contudo, é importante que compreendam que, antes da desoneração dos impostos para baixar os preços, é importante baixar os preços, incluindo os impostos, pela retomada da produção das refinarias. Pis/Pasep é importante para o financiamento do salário-desemprego; ICM, para o financiamento de Estados quase falidos; e CIDE é praticamente o que resta para o financiamento da infra-estrutura logística do país, infelizmente roubada pelo Governo central para fazer superávit primário. De qualquer modo, aumentando-se a produção, os preços podem cair sem mexer nos impostos.
 
Ah, Parente disse que uma mudança na política de preços da Petrobrás implicaria sua saída. Que idiota. Acha que ele e sua política são insubstituíveis diante de uma greve que simplesmente pára o Brasil e ameaça a estabilidade do próprio Governo!
Por:JOSÉ CARLOS DE ASSIS
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