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Miguel Torga – Versos na tarde – Poesia – 02/12/2017

Poema
Miguel Torga ¹

A jovem deusa passa
Com véus discretos sobre a virgindade;
Olha e não olha, como a mocidade;
E um jovem deus pressente aquela graça.
 
Depois, a vide do desejo enlaça
Numa só volta a dupla divindade;
E os jovens deuses abrem-se à verdade,
Sedentos de beber na mesma taça.
 
É um vinho amargo que lhes cresta a boca;
Um condão vago que os desperta e toca
De humana e dolorosa consciência.
 
E abraçam-se de novo, já sem asas.
Homens apenas. Vivos como brasas,
A queimar o que resta da inocência.
 
¹ Adolfo Correia da Rocha
* Saborosa, Portugal – 12 de agosto de 1907
+ Coimbra, Portugal – 17 de janeiro de 1995
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