Literatura – O Eterno Shakespeare


 Literatura,Livros,Shakespeare,Blog do MesquitaSaiu mais uma biografia de Shakespeare, ela vem juntar-se as milhares de obras, livros e teses escritas sobre ele e seu teatro, todos os anos, em praticamente todos os idiomas e lugares da terra onde se lê e escreve.
 
Não sabemos precisar quantas biografias de Shakespeare já foram escritas, tantos são os que se dedicam a especular sobre como foi a vida do maior dos dramaturgos.
 
     Seus apaixonados leitores, quase devotos, mergulham no passado para tentar desvendar a época em que o Bardo viveu e, descobrir, como foi possível, alguém criar mais de mil e duzentos personagens, utilizar um vocabulário de mais de vinte e uma mil palavras – das quais, mais de duas mil são de sua inteira criação – e desafiar o tempo, “a evolução do mundo”, com suas peças, em cartaz em todos os teatros e cinemas do mundo.
 
     Entre as milhares de obras escritas sobre ele em 2011, não estou exagerando – em 2011 as três melhores que li, foram: “1599 Um Ano na Vida de William Shakespeare”, de James Shapiro: “As Guerras de Shakespeare”, por Ron Rosembaum, e uma biografia, por Stephen Greenblat.
 
     Shakespeare fez questão de apagar seus rastros, não deixando muitas pistas sobre sua vida pessoal. Mas, mesmo que saibamos pouco sobre ele, é ainda o mais documentado escritor entre seus contemporâneos. Isso acabou fazendo que alguns tolos e excêntricos duvidassem de sua existência. Mas esse grupo de pessoas é o mesmo que acredita que Hitler fugiu para a Argentina e que o homem não foi à lua.
     Desses três livros, talvez o melhor deles seja o de James Shapiro. Em sua obsessão por desvendar o gênio do Bardo, Shapiro fez uma trabalho de enorme fôlego. Ele passou dez anos lendo todos os livros publicados na Inglaterra em 1599, que chegaram até nós, com o objetivo de encontrar marcas de Shakespeare. Acrescentou muito pouco, mas se trata de um livro instigante. Já, Greemblat é “tão doente” que chegou ao ponto de reescrever uma peça perdida (Cardênio), sobre a qual nada sabemos.
     O livro “As Guerras de Shakespeare” não tem nada a ver com batalhas nem guerras. É sobre as brigas de egos entre os estudiosos do genial inglês espalhados pelo mundo. O livro envolve editores e pesquisadores, que discutem, até mesmo, uma única letra impressa erradamente por algum tipógrafo que imprimiu suas peças. Já o livro de Stephen Greenblat – o famoso criador da escola do “new historicism”, uma espécie de revolução na crítica literária – é uma biografia, que procura contar as lacunas na vida do Bardo a partir dos costumes e acontecimentos da época.
 
     Foi Sherlock Holmes – Conan Doyle, claro – que disse: “Eu passo a minha vida tentando escapar das coisas banais e corriqueiras”. Gosto dessa frase, acho que ela se encaixa com o pensamento inquieto do “homem de mil almas”. Shakespeare é o contraponto a mesmice, vulgaridade e a mediocridade. Sua profundidade nos faz orgulhosos de sermos seres humanos. Ele nos torna sublimes.
 
     Dentre os muitos elogios feitos a ele por gênios de várias áreas do conhecimento, em todas as épocas, cito a de Ralph Waldo Emerson, ensaísta americano: ”É possível para um homem muito inteligente se aninhar na cabeça de Platão e pensar de lá. Mas ninguém pode fazer o mesmo com Shakespeare”. Como se tivessem parodiando Emerson, muitos homens de gênio ao longo do tempo – assim fizeram Bismarck, Freud, Victor Hugo… – procuraram, e ainda procuram entrar em sua cabeça e descobrir como esse homem misterioso pensava. Como se conhecer sua mente lhes desse a capacidade de revelar os segredos da alma humana. Já que nenhum outro homem descreveu tão bem o ser humano quanto ele.
 
     No próximo ano acrescentarei – já escrevi A Paíxão Segundo Shakespeare em 2009 – mais um tijolo (meu livro Shakespeare Indignado), a esse enorme muro que é a biblioteca de Shakespeare. Esse muro é, para mim, uma espécie de consolo, de refúgio – como é a Bíblia, vilipendiada e distorcida por espertalhões, para muitos – contra as injustiças e as mentiras que somos obrigados a engolir todos os dias.
Shakespeare é meu antídoto contra a pobreza moral, intelectual e espiritual que rodeia todos nós.

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