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Gerardo Mello Mourão – Versos na tarde – 07/09/2017

Sibila
(Último oráculo)
Gerardo Mello Mourão ¹

Perdido nas veredas das palavras
tapa os ouvidos – canto sibilino
não escuta: olha apenas estes olhos
apaga teus sentidos – só nos olhos
acharás o caminho; sem meus olhos,
somente os meus – redondos neste rosto –
morrerás entre ínvios labirintos.

Sibila sou – Sibila, a Sâmia, a Délfica*
poetas e pontífices me seguem
olha meus olhos – não te perderás
olha meus olhos e estarás perdido
perdido neles morrerá de amor
e os que morrem de amor não morrem nunca
olha meus olhos – me verás inteira
em teus olhos de morto estarei viva
e minha vida espantará da tua
a morte para sempre – e para sempre
em tua vida há de viver a minha.

¹ Gerardo Melo Mourão
* Ipueiras, CE – 8 de Janeiro de 1917
+ Rio de Janeiro, RJ – 9 de Março de 2007

Gerardo é um dos mais conhecidos e respeitados autores brasileiros no exterior, havendo sido indicado ao Prêmio Nobel em 1979 e sido admirado por poetas da envergadura de um Octavio Paz, um Pablo Neruda, um Efrain Tomás Bó, um Michel Deguy e mesmo de um Ezra Pound, para quem o “poeta do País dos Mourões” teria escrito, no seu “poema espantoso”, tudo o que ele, o “Pã de Idaho”, teria tentado, debalde, escrever: a “epopéia da América”.

A vasta e variada obra de Gerardo Mello Mourão integra uma das mais elevadas contribuições para a literatura contemporâ-nea e consegue alcançar dimensões universais, como é de se esperar de toda alta escritura. Escreveu, com brilhantismo e erudição, em verso e em prosa (romances, contos, ensaios e biografias). Entre seus livros, destacam-se o romance O Valete de Espadas (1960), o livro de ensaios A Invenção do Saber (1983), a epopéia Invenção do Mar (1997) e a trilogia poética Os Peãs, composta pelos livros O País dos Mourões (1964), Peripécias de Gerardo (1972) e Rastro de Apolo (1977).
O Valete de Espadas, traduzido para vários idiomas, é um ro-mance que está na pauta do surrealismo, mas em quase nada se assemelha ao realismo mágico latino. Sua profundidade, seus abismos indecifráveis, aproximam Gerardo de autores centro-europeus, como Herman Hesse, de O Lobo da Estepe. O personagem principal, Gonçalo Falcão de Val-de-Cães, é um ser perplexo diante da irresidência do ser no mundo. Um dia, ao sair do hotel em que estava hospedado, percebe que está em uma cidade completamente desconhecida; no dia seguinte, acorda em um navio cujo rumo também desconhece. A epígrafe bíblica, logo no início do livro, adequa-se perfeitamente ao estado de coisas e às tensões da personagem: “Não conheço sequer o caminho”.
A Invenção do Saber, reunião de ensaios, é um convite ao pensamento. É também um libelo contra a idolatria tecnológica da atualidade e o seu culto da especialização – “o especialista é o individuo que sabe cada vez mais sobre cada vez menos”. E apresenta como contraposição uma cultura humanística, que, no momento, encontra-se desprestigiada, mesmo por aqueles a quem caberia defendê-la. Inclui, além de 30 artigos originariamente publicados na imprensa, palestras apresentadas em uni¬versidades brasileiras e estrangeiras, que abordam temas como a palavra, o poder e o saber.
A epopéia Invenção do Mar, Prêmio Jabuti de 1998, é conside-rada pelo crítico Wilson Martins como Os Lusíadas brasileiro, que o chama mesmo de “Os Brasíliadas”, em artigo publicado no jornal Gazeta de Curitiba.
 

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