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Fundações Ford, Soros, Gates… a serviço de quem?

A quem servem as mega fundações? A professora Joan Roelofs dá algumas pistas

George Soros doou mais de U$ 32 bi desde 1979, segundo sua própria fundação (Foto Divulgação georgesoros.com)

 

A resposta curta à pergunta do título, não atribuível à entrevistada, é: aos próprios bilionários.

Nos Estados Unidos, quem cria uma fundação pode deduzir do imposto de renda de 20 a 30% do valor que transferiu a ela, dependendo se for cash ou títulos.

Se você criar uma fundação e doar U$ 1 milhão a ela, pode deduzir ao menos U$ 200 mil do seu imposto a pagar.

Mas, tem mais: a lei obriga a fundação a aplicar apenas 5% de seus bens líquidos do ano anterior em grants, doações, no ano seguinte.

Ou seja, 95% você pode administrar como bem quiser, direta ou indiretamente. Desde que você não tire proveito do dinheiro pessoalmente, tudo bem.

O que permite a você construir duas fortunas, paralelas: uma, pessoal; outra, que você pode usar indiretamente para turbinar sua fortuna pessoal. Ou a de seus filhos, netos e bisnetos.

Como? Comprando poder.

Há milhares de beneficiários das doações, sem qualquer dúvida. Mas, será que é mudança na qual se pode acreditar?, para repetir o candidato que deixou tudo como estava?

Nos Estados Unidos, a maior de todas as fundações é a Bill & Melinda Gates. Uma das mais antigas e influentes é a dos irmãos Rockefeller. Grande e influente é a dos herdeiros de Henry Ford. Dentre as mais agressivas está a do megainvestidor George Soros. Até Leona Helmsley, que já foi presa por sonegar impostos, tem no nome dela e do marido uma fundação filantrópica, com bens superiores a U$ 5 bi.

A soma dos bens só das mais importantes supera os U$ 200 bilhões, mais que o PIB de muitos paises.

Nos Estados Unidos existe um debate incipiente sobre o papel das fundações. Incipiente por falta de conhecimento, de transparência e de interesse.

Fora de lá, houve alguma polêmica depois que o Fórum Social Mundial de Porto Alegre foi financiado em parte pela Fundação Ford. Deveria ser o alter ego da reunião dos capitalistas em Davos, na Suiça.

Depois de quatro edições em Porto Alegre, o financiamento da Fundação foi rejeitado quando o Fórum teve sua primeira edição fora do Brasil, em Mumbai, na Índia.

Numa “confissão involuntária”, a então diretora de governança e sociedade civil da Fundação Ford à época, Lisa Jordan, resumiu em entrevista: “Já podemos ver algumas diferenças em relação a foruns anteriores. Por exemplo, podemos ver maior colaboração de grupos da esquerda comunista da Índia no fórum de Mumbai — o que não era necessariamente uma parte importante do Fórum Social Mundial em sua manifestação brasileira”.

Sobre a rejeição do Fórum ao financiamento da Fundação Ford, ela acrescentou: “Não estamos apoiando o fórum deste ano porque o Comitê Organizador Indiano, que representa uma tentativa ampla de juntar uma grande parte da sociedade local, inclui alguns grupos que se opõem às atividades da [Fundação] Ford na Índia desde 1953 — especialmente o apoio à Revolução Verde nos anos 60 e 70. Eles acreditam que as contribuições feitas pela Fundação Ford evitaram que a Índia passasse por uma revolução comunista”.

Trata-se de uma generalização barata: as críticas à Revolução Verde são muito mais profundas e embasadas do que isso. Ou talvez a entrevistada tenha dito isso por acreditar que a tarefa da FF fosse mesmo evitar uma revolução na Índia. Não é o ponto.

O mais importante é que ela deu a entrevista a um site que se chama Open Democracy, free trinking for the world, ou Democracia aberta, pensamento livre para o mundo, cuja lista de doadores… inclui a própria Fundação Ford, para não falar das Open Society Foundations, do megainvestidor George Soros, que segundo sua própria fundação doou mais de U$ 32 bilhões desde 1979 para financiar “uma sociedade civil vibrante”.

Isso dá uma ideia de como é difícil desfazer este emaranhado de interesses cruzados.

Travar o debate está se tornando difícil, uma vez que as grandes fundações dos Estados Unidos estão investindo cada vez mais na mídia — inclusive a identificada com a esquerda — e especialmente nos veículos sem financiamento, que tendem a se tornar dependentes das doações — e da renovação das doações.

Um estudo do American Press Institute, relativo a 2015, mostrou que as fundações estão doando como nunca a veículos de comunicação.

O mesmo estudo capturou a dependência da mídia não comercial dos Estados Unidos em relação às fundações: quase 40% dos meios pesquisados tinham nos grants mais de 50 por cento de seu orçamento total!

Nossa série de reportagens a respeito começa com uma entrevista com a autora de um dos livros seminais sobre o assunto, publicado nos Estados Unidos, Fundações e Política Pública: Joan Roelofs.

Ela é professora de Ciência Política do Keene State College, de New Hampshire, e nos respondeu por e-mail. A tradução é nossa, assim como a edição, para facilitar a clareza.

Viomundo: Há muitas fundações hoje em dia, conservadoras e liberais, mesmo de esquerda. Por que a máscara do pluralismo no subtítulo do livro?

Joan Roelofs: Eu estava me referindo à teoria pluralista, segundo a qual diferentes grupos de interesse competem uns com os outros para definir as políticas públicas [um conceito utilizado nos Estados Unidos]. Argumento que todos os grandes grupos de interesse são financiados pelas fundações, o que falsifica a ideia de pluralismo e mascara a real competição. Há limites impostos pelo financiamento (e outros processos relacionados às fundações, como networkingworkshops, assistência técnica e a própria formulação do pedido de financiamento). Organizações financiadas não podem provocar grandes rupturas no poder e na riqueza, ou no capitalismo imperialista. Mesmo as ongs de esquerda, como o Institute for Policy Studies, e um dos grandes institutos trabalhistas, o Economic Policy Institute, são financiados pela fundações liberais, dentre as quais a Ford e a Open Society [de George Soros].

Viomundo: O financiamento amplifica a influência das fundações muito além da elite?

Joan: Meu livro é sobre isso. Elas se envolvem com o maior número possível de movimentos e organizações. Estes não podem sobreviver ou fazer o que querem, como levar casos à Suprema Corte, por exemplo, só com o dinheiro dos associados. Os institutos financiados pelas fundações fornecem os especialistas que falam na TV e material para artigos de opinião. As fundações têm grande influência nas faculdades e universidades. Elas cooptam liberais de classe média e gente talentosa entre os mais pobres para receberem doações a título de formação de lideranças. Está tudo no meu livro.

Viomundo: A senhora menciona ideias de alguém considerado um dos grandes estrategistas dos Estados Unidos, Zbigniew Brzezinski. O que ele dizia sobre espalhar a influência norte-americana?

Joan: Ele defendia o uso do soft power como forma de derrotar o comunismo. Faça a elite se envolver com as tecnologias da informação e torne as massas fascinadas pela cultura dos Estados Unidos. Operações clandestinas e abertas (com grande participação das fundações) foram utilizadas para levar adiante este plano.

Viomundo: A Fundação Rockefeller tem uma longa relação com o Brasil. Começou com doações ligadas à saúde pública e hoje o dinheiro continua chegando, por exemplo, no campo do chamado desenvolvimento sustentável. Por que eles investiriam dinheiro aqui?

Joan: Existe um ótimo livro sobre os Rockefellers e a América Latina, Thy Will Be Done, de Colby e Dennett. Se você quer explorar os recursos ou mesmo apenas fazer negócios, você não quer que seus trabalhadores locais ou seus gerentes norte-americanos fiquem doentes. Você precisa de água limpa. Você precisa que os recursos naturais sigam jorrando. Se o seu negócio é em turismo internacional, por exemplo, você quer que as pessoas se sintam limpas e seguras em suas férias no Exterior.

Viomundo: A Fundação Ford se define hoje, no Brasil, como defensora da justiça racial, para fazer avançar a democracia e a igualdade. “Nós apoiamos a emergência e o crescimento de poderosas novas vozes e narrativas, tanto no campo quanto na cidade, e trabalhamos para conectá-las com outros líderes da justiça, movimentos e instituições-chave”, diz um texto sobre objetivos da FF. Não é disso que precisamos no Brasil?

Joan: Sim, mas é que direitos civis, lideranças e networking não bastam. Pode ser que o sistema econômico esteja bloqueando o progresso real em todo o mundo (inclusive nas nações desenvolvidas). Escrevi um artigo recente sobre direitos humanos como substituto do socialismo. James Petras tem escrito muito sobre a cooptação da esquerda na América Latina. A NACLA (North American Congress on Latin America), que já foi radical, a certa altura recebeu dinheiro da Fundação Ford e mudou o discurso sobre as barreiras à justiça social na América Latina.

Viomundo: A Ford e a Open Society (Soros) dão muito dinheiro para organizações de mídia, inclusive da nova mídia, algumas das quais identificadas com a esquerda. Por que os bilionários se preocupariam com isso?

Joan: Essas organizações de mídia se dizem realmente independentes, em contraste com as antigas, “ruins”, financiadas por governos ou partidos políticos. Naturalmente, existe poder em ter dinheiro no que é supostamente “alternativo” e que é lido por gente de esquerda, dentre outros.

Viomundo: Hoje, as fundações investem até em parcerias com grandes veículos de mídia, nos Estados Unidos. É dito que sem qualquer tipo de controle. Se as fundações não controlam o conteúdo, por que não aceitar o dinheiro?

Joan: Por que quem aceita o dinheiro normalmente se autocensura. Não quer ofender o patrocinador.

Viomundo: A Open Society está preocupada, pelo menos aparentemente, em fazer avançar a democracia na América do Sul. Junto com a Fundação Ford e outras, traçou inclusive cenários da América Latina para os próximos 15 anos. Com gente de esquerda no meio. Como você vê essas iniciativas de George Soros?

Joan: As organizações dele, junto com as operações clandestinas, tem sido poderosas para provocar mudanças. Por exemplo, na Hungria, com a transformação das universidades e a criação do partido Fidesz, ou com a derrubada de Milosevic [na extinta Iugoslávia]. Roger Cohen escreveu a respeito. Está no meu livro. Alguém deveria escrever um livro sobre tudo o que aconteceu nas revoluções coloridas [no entorno da extinta União Soviética] e sobre quem estava envolvido nelas.

Viomundo: Por que quase não existe debate sobre as fundações? Por que elas parecem ser neutras?

Joan: Elas não gostam de críticas públicas e tem poder suficiente para marginalizá-las. Eu fui chamada de teórica da conspiração por tentar jogar luz nas fundações. A maioria dos acadêmicos e repórteres evita morder a mão que os alimenta. As fundações se dizem apartidárias, o que é verdade. Eles não favorecem a este ou aquele partido nos Estados Unidos. Mas isso não significa que sejam objetivas e neutras. São fachadas para o poder da elite. Sua origem, financiamento, investimentos e filosofias estão profundamente ligadas às corporações bilionárias. Alguns de seus empregados, inclusive presidentes, refletem “diversidade” e elas podem promover grandes mudanças sociais desde que sua riqueza, poder e domínio internacional não sejam afetados. As fundações foram importantes em acabar com o apartheid oficial nos Estados Unidos — e na África do Sul — mas nos dois casos o capitalismo não pode ser tocado.

Viomundo: As fundações distorcem a democracia?

Joan: A riqueza distorce a democracia e as fundações são apenas uma parte dela. O trabalho delas com intervenções internacionais clandestinas certamente não ajuda a democracia. Além disso, a parte a descoberto — apoio a grupos de interesse ou a ongs para representar as pessoas — não promove a democracia. O sistema das fundações apoia e reforça o sistema das ongs e algumas fundações inclusive criaram ongs. Essas organizações são de elite, se comparadas à cidadania em geral, desorganizada. As fundações não podem legalmente financiar partidos políticos ou movimentos políticos de massa. A democracia deveria requerer que todas as pessoas fossem integradas a algum braço de uma organização local, de uma entidade política poderosa. Talvez já nem seja possível nos dias de hoje, com as grandes populações, extremo individualismo e a cultura da celebridade; e muitos gadgetshobbies e jogos.

Viomundo: Então, as fundações podem ser uma força por mudança?

Joan: Alguma mudança, sim. Mas, elas previnem contra mudanças mais radicais, que poderiam ser mais eficazes na promoção da justiça e da paz?

Na Europa Oriental, nas repúblicas da extinta União Soviética, na Índia, dentre outros lugares, as fundações encorajam o nacionalismo e mesmo tradições religiosas locais, como forma de atacar o internacionalismo e as ideias do ‘trabalhadores do mundo, uni-vos’.

Nos Estados Unidos, trabalham contra o chamado ‘extremismo anticapitalista’. Elas não encorajam os grupos da supremacia branca ou fanáticos religiosos fundamentalistas, mas foram incapazes de evitá-los.

Um sistema baseado na disputa entre grupos de interesse, que foi estimulado pelas fundações, resulta em maior polarização do que ocorreria, se tivessemos movimentos políticos mais generalizados.

Reflito que os Estados Unidos tem o mais amplo e elaborado terceiro setor do mundo — fundações, entidades sem fins lucrativos, think tanks, mesmo organizações de base (reais, não de mentirinha). Ainda assim, o padrão de vida está em declínio, a infraestrutura cai aos pedaços, o meio ambiente está sendo devastado, os números da pobreza são enormes, a incidência de violência é sem precedentes (não apenas se comparada a países desenvolvidos). Todo mundo deveria ler o relatório How Effective Are International Human Rights Treaties? [Quão eficazes são os tratados de direitos humanos internacionais?] Enquanto isso, a agressão e a intervenção dos Estados Unidos em muitas nações não dá sinais de parar. E todas estas, aliás, não são questões que as fundações estão dispostas a descrever como “problemas”.

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