Um ato bastante sindicalista vindo de quem tem um projeto de lei que prevê quatro anos de cadeia a que… parar estradas. (Por sorte, como quase nenhum de seus projetos de lei, este também não foi aprovado.)

A novela teve ainda outra virada, com o candidato à Presidência se dizendo solidário aos grevistas mas pedindo que a greve acabasse.

Então ficamos assim em um espaço de tempo de poucos dias: condenou trancamento de estradas; prometeu revogar multas por trancamento de estradas; pediu que o trancamento de estradas acabasse.

É claro que Bolsie inicialmente apoiaria uma greve repleta de faixas em apoio à intervenção militar. Assim como também é claro que Bolsie cairia fora dessa mesma ideia quando ela se tornasse mais real do que apenas uma caricatura – as faixas e pedidos por intervenção se avolumaram mais do que o desejado pela propaganda.

O susto foi tão grande que Bolsie chegou a dizer que nunca apoiou intervenção, o que é mentira, mas também é verdade. Ele não desejaria uma ditadura agora, neste momento. Afinal, é líder nas pesquisas e tem a chance única – pelo ajuntamento caótico dos astros – de ter um poder que jamais teria caso alguns generais trapalhões decidissem dar um golpe de fato. Bolsonaro, em um distópico governo militar sem eleições, seria quando muito o mordomo do Palácio.

No Facebook, alguém me disse que aquilo tudo estava cheirando mal, como se Bolsie tivesse tomado um puxão de orelha de alguém acima na hierarquia. Afinal, por que se afastar dos intervencionistas que são, por natureza, seus eleitores? Pedir o fim da greve que lhe pareceu a onda perfeita pra culpar o atual governo e o PT ao mesmo tempo? A Piauí chegou a falar em infiltração militar nas manifestações, o que naturalmente preocuparia o establishment do Exército. Ninguém quer gente aloprada solta por aí. A tese faz sentido se formos confiar em arapongas brasileiros.

O que vocês acham que aconteceu? Peço que respondam a este texto com suas teorias da conspiração favoritas. Talvez elas façam mais sentido do que a própria realidade.

Texto publicado inicialmente na newsletter do The Intercept Brasil.