Sim, é democrático escolher. Mas às vezes também é democrático não escolher. 

Esta eleição virou um teste prático para verificar quem tinha e quem não tinha convicções democráticas.

Quem tinha não vergou sua espinha em nome da realpolitik (que é sempre autocrática). Quem não tinha ficou tentado a escolher o “menos pior” (segundo seu ponto de vista que, coincidentemente, não é bem o da democracia). Ademais, não se pode saber, de antemão, qual seria o “menos pior”. No médio e longo prazos (tendo em vista sua estratégia de conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido para nunca mais sair do governo e seu enraizamento estatal e social) o PT parece ser um perigo maior à democracia. No curto prazo, entretanto, Bolsonaro pode ser um perigo ainda maior, pela instabilidade que causará, pela falta de base política, pelas suas ideias simples e erradas, além de autoritárias e pela imensa desilusão que causará, inclusive nos seus próprios seguidores e eleitores, quando não conseguir fazer praticamente nada do que prometeu:

Não acabará com os corruptos e bandidos (no Brasil existem leis e instituições que as aplicam: e não é a presidência da República que poderá alterá-las: por acaso Bolsonaro vai substituir nossos 18 mil juízes?)

Não dará um choque no sistema político: para tanto seria necessário uma ampla e profunda reforma política que, alterando a Constituição, cortasse os privilégios da chamada “classe política” e ele não tem maioria para fazer tal reforma: um presidente não pode cassar os mandatos dos parlamentares e governadores fisiológicos ou corruptos (antigos ou novos) que serão eleitos junto com ele.

Não resolverá de vez o problema da segurança na medida em que não fará o milagre de transformar, em um ou dois mandatos, a sociedade brasileira em uma sociedade como a da Nova Zelândia ou da Noruega (única maneira de reduzir drasticamente a criminalidade na sociedade e na política: aumentando os níveis de nosso capital social).

Como já foi assinalado em outro artigo, “um eventual governo Bolsonaro será crise na certa: política, econômica e social. O PT, derrotado nas urnas, assumirá a hegemonia de uma oposição não-democrática na sociedade, nos parlamentos e nas demais instituições. Em menos de 100 dias começará a crescer um movimento Fora Bolsonaro (inclusive com a ajuda dos meios de comunicação, que não podem ser empastelados pelo governante). E os próprios bolsonaristas e demais eleitores de Bolsonaro o abandonarão quando ele (como é próprio do jogo democrático) começar a transigir e a negociar, a trocar cargos por votos na Câmara e no Senado, a minimizar suas propostas tresloucadas – como a de armar amplamente a população – para conseguir governar (a rigor, para aprovar qualquer lei, quanto mais para passar uma PEC) e até para se manter no cargo. Não podendo ser destruído no grito, não podendo ser extinto por medida provisória, nem por lei ordinária, o PT se fortalecerá e voltará mais forte do que nunca, nas próximas eleições – e, se bobear, até mesmo durante o mandato de Bolsonaro (por meio de impeachment ou da cassação da chapa). Tudo isso instalará uma guerra civil (ainda que fria, na melhor hipótese, mas mesmo assim guerra) no país. Ora, isso pode resultar, sim, no fim da nossa democracia (ou, pelo menos, na sua queda vertiginosa em todos os rankings internacionais). Viraremos um motivo de chacota no cenário mundial”.

E aí, todos perguntam, como ficamos? Democracia não é livre escolha? Quem devemos escolher?

Sim, é democrático escolher. Mas às vezes também é democrático não escolher.

Algum petista ou bolsonarista vai aparecer dizendo que se você não escolher, vão escolher por você. Ora, deveríamos retrucar: então escolha aí entre Fernandinho Beira-Mar e o chefe da milícia do Alemão. Você não quer escolher?

Sobretudo em disputas polarizadas, costuma prevalecer a vibe do torcedor. Então a pessoa não quer perder seu voto, não quer desperdiçá-lo com quem não tem chances. É o chamado voto útil. Mas, do ponto de vista da democracia, o voto útil pode ser inútil se as alternativas são igualmente ruins (ainda que cada qual a seu modo).

As pessoas não muito afeitas à democracia não gostam de ser minoria. Mas se os democratas tivessem medo de ser minoria na Atenas do século 5 a. C. ou no parlamento inglês do século 17, não teria havido democracia. Não conheceríamos o conceito. E nem a palavra existiria.

As pessoas, entretanto, não sabem que são livres. Diante de uma polarização, acham que são obrigadas a escolher. No caso do Brasil de hoje – 30 de setembro de 2018 – essa escolha, desgraçadamente,  recai (provavelmente) entre dois populismos (o neopopulismo lulopetista e o populismo-autoritário bolsonarista – que são, ambos, cada qual a seu modo, repita-se, adversários da democracia). Em tais circunstâncias não se pode escolher só para não ficar em minoria.

Estamos diante de uma situação particularíssima, que já foi chamada de tempestade perfeita, onde vários fatores se conjugam fortuitamente para criar uma configuração avessa à boa sorte ou para instalar o que chamei de cenário do horror.

A TEMPESTADE PERFEITA PARA A DEMOCRACIA

Quantas vezes avisamos – os democratas – que a polarização PT x Bolsonaro seria o cenário do horror? Pois é… já estamos no cenário do horror, onde não há saída boa, a catástrofe já aconteceu e a democracia já perdeu – seja qual for o resultado do pleito. Quanto mais se acirra a polarização, mais os candidatos do campo democrático caem e, a não ser que ocorra um fato extraordinário (nesta altura quase um milagre), nenhum deles poderá crescer nos últimos dias. Ou seja, aconteceu tudo que não podia acontecer: a tempestade perfeita para a democracia.

Bolsonaro, na pesquisa CNT-MDA de hoje (30/09) atingiu a inacreditável marca de 55,7% de rejeição. Com 28,2% da preferência do eleitorado, seguido por Haddad, que aparece com 25,2%, é muito difícil que ele vença no primeiro turno, como anuncia a propaganda bolsonarista (ainda que não impossível). Por outro lado, os cinco candidatos do campo democrático têm agora menos de dois dígitos. Até Ciro – Plano B da esquerda – cai abaixo de 10%. Os números de outros institutos não são muito diferentes. O cenário mais provável é a vitória de Haddad no segundo turno. Mas se, por alguma razão, der Bolsonaro, é tão ruim quanto (ou até pior, no curto prazo) para a democracia. Com Haddad ou Bolsonaro teremos instabilidade política e um período longo de guerra civil fria pela frente: este é o pior cenário possível para a democracia.

Depois de o PT ter sido derrotado nas mídias sociais, nas ruas, no parlamento, nas urnas de 2016 e nos tribunais (inclusive com a prisão de Lula), eis que o partido ressuscitou (ou foi ressuscitado) de repente. Não foi obra divina. Foi a instrumentalização política da Lava Jato e a demonização da política (ecoada irresponsavelmente pelos grandes meios de comunicação que aderiram ao Fora Temer) que ensejaram a configuração do atual cenário do horror. Sobreviveram apenas os populismos ditos de esquerda e de direita.

É simples, explica-se apenas com duas sentenças:

1) Se todos são corruptos, fiquemos com Lula que, pelo menos está do lado dos pobres. Como Lula está preso, fiquemos então com seu representante (Haddad). Isto é a vitória do neopopulismo lulopetista.

2) Se todos são corruptos, fiquemos com Bolsonaro, que pelo menos é honesto, corajoso, não tem nada a ver com “tudo isto que está aí” e tem autoridade para colocar ordem na casa. Isto é a afirmação do populismo-autoritário bolsonarista.

Se o país não tivesse sido vítima desse tenebroso processo de exaltação da antipolítica da pureza, de perversão da política pelo moralismo, não estaríamos neste cenário do horror. Os instrumentalizadores políticos da Lava Jato (não estou me referindo à Lava Jato – correta operação do Estado democrático de direito – mas aos que a usaram e abusaram em prol de benefícios eleitoreiros ou para implantar sua ideologia jacobina de terra arrasada) devem à sociedade brasileira respostas para duas questões básicas:

A – Como pode ter sido vitoriosa essa cruzada contra a corrupção se estamos a um passo de colocar de novo no governo (ou na liderança da oposição) o partido que montou o maior esquema criminoso de poder já visto na história universal?

B – Qual o serviço que prestaram à democracia os que transformaram (mais de 90% de) seus grupos e movimentos de combate à corrupção (de apoio à Lava Jato e ao juiz Moro, como a tal “República de Curitiba” e centenas de outros) em instrumentos de campanha de Bolsonaro, permitindo o florescimento do bolsonarismo como uma força política autoritária, reacionária, regressiva (e antidemocrática, que não aceita o resultado das eleições que não for a seu favor)?

Há quem duvide do efeito deletério do uso político do combate à corrupção sobre a democracia. Mas agora estão aparecendo pesquisas (como a do esquerdista Pablo Ortellado) para mostrar o que a observação e análise já haviam revelado. Mais de 90% das páginas dedicadas ao combate à corrupção passaram, em seguida, a instrumentalizar politicamente a Lava Jato e há tempos fazem a campanha de Bolsonaro. Não há como contestar essa evidência. Não há. Não precisamos acreditar em Ortellado. É um fato, é objetivo, pode ser constatado por qualquer um que as “Repúblicas de Curitiba” viraram comitês eleitorais de Bolsonaro.

É claro que isso não significa que a Lava Jato, como operação jurídico-policial do Estado de direito seja, em si, responsável pelo crescimento do bolsonarismo. Mas a sua instrumentalização política, o seu uso para fazer uma campanha de limpeza da política, uma espécie de revolução francesa sem povo e com duzentos anos de atraso, animada por um moralismo-jacobino, restauracionista, baseado na antipolítica robespierriana da pureza (o que é, inegavelmente, uma ação política e não jurídico-policial), a sua seletividade em escolher alvos de denúncias e investigações, o seu timing (inegavelmente arbitrário e tanto e assim que procuradores continuam oferecendo denúncias contra candidatos de certos partidos na boca da urna), para não falar de verdadeiras armações (como a de Janot) – tudo isso é político, é extra-legal.

Pois bem. Foi isso – e não a Lava Jato em si – que preparou, do ponto de vista operacional, as condições para a articulação e a expansão do bolsonarismo. É óbvio que, do ponto de vista político, as razões são outras, incluindo o longo ab uso do Estado feito pelo PT e a vacilação, a leniência e a conivência do PSDB (que durante mais de uma década se omitiu de fazer oposição para valer, deixando que crescesse um antipetismo reacionário e retrógrado, que foi então apropriado pela família de oportunistas-eleitoreiros Bolsonaro).

Uma não tão improvável vitória de Bolsonaro decorrerá diretamente do fato do PSDB não ter conseguido canalizar os votos dos descontentes com o PT. O antipetismo sem pai logo encontrou um patriota para representá-lo. A estes antipetistas radicais se deve somar o imenso contingente de revoltados com a velha política, com o fisiologismo e com a corrupção – estimulados, como vimos acima, pela instrumentalização política da Lava Jato. Por outra lado, uma provável vitória do PT também decorrerá diretamente do fato do partido ter sido poupado, durante 13 anos, pelos que deveriam lhe fazer oposição e não o fizeram para valer.

NÃO HÁ ESCOLHA DEMOCRÁTICA

Nas circunstâncias atuais, confirmado na última semana de campanha o descolamento das candidaturas Bolsonaro e Haddad dos demais competidores, não haverá escolha democrática no segundo turno. Claro que, no primeiro turno, os democratas devem votar num candidato do campo democrático. Mas todo voto útil será um voto não-democrático. O voto democrático – se tal cenário de horror se confirmar – é o não-voto no segundo turno. Mas a postura democrática não se esgota no voto. Os democratas continuaremos resistindo às forças políticas populistas que são adversárias da democracia, estejam elas no governo ou na oposição.