Após a falência da ditadura militar, não havia uma direita (a não ser vestigial, tipo TFP) no Brasil. Isso atrapalhava o esquema do PT. Para quem leu o 1984 de Orwell: era uma Oceânia sem Eurásia (ou sem Lestásia).

Ora, sem inimigos não se pode montar estruturas hierárquicas de poder regidas por modos-de-regulação de conflitos autocráticos. A lógica é simples: você tem que ficar “do meu lado”, obedecer ao meu comando (e até pensar sob meu comando), do contrário o bicho-papão que está “do outro lado” vai lhe pegar. Trata-se de instalar a guerra (fria), ou seja, de praticar a política como uma continuação da guerra por outros meios (a fórmule-inverse de Clausewitz-Lenin).

O PT, então, tanto acusou quem não se subordinava à metafísica do partido de ser de direita (quando não era: não era nada, ou era apenas vagamente democrata), que acabou criando, por enantiodromia, uma direita à sua própria imagem (invertida).

Abusou tanto na polarização nós x eles que gerou uma reação brutal (deles), conferindo organicidade e unidade política, que não havia, ao “eles” (um inimigo criado imaginariamente como “eles” só porque não era parte do “nós”).

Foi o “nós” (a esquerda) que inventou o “eles” (a direita). Agora, sim, há uma direita significativa no país, com uma militância belicosa muito parecida (“do outro lado”). E, como essa direita (hoje bolsonarista) é também animada por uma vibe guerreira, ela é tão perigosa para a democracia quanto a esquerda (petista).

Bela obra!

Ruy Fabiano, em artigo publicado ontem no Blog do Noblat, mostrou como a divisão “nós” x “eles”, ab usada pelo PT, instalou a vibe da guerra no lugar da interação (pacífica, ou melhor, pazeante) propriamente política (democrática).

Esquerda gerou ambiente de ódio

RUY FABIANO, Blog do Noblat, 08/09/2018

As manifestações de condolências dos adversários políticos de Bolsonaro, em face do atentado, embutem uma mensagem subliminar (ou nem tanto), segundo a qual ele teria sido vítima de um ambiente por ele mesmo criado – o ambiente de ódio.

Ou seja, o culpado é ele mesmo. “Semeou o ódio e colheu o ódio”, nas palavras solidárias da pacifista Dilma Roussef.

Tal ambiente, no entanto, o precede em décadas. Começa com o advento do PT e de seu ideário de luta de classes, a partir de 1980, e chega ao paroxismo com a tomada do poder federal pelo partido, a partir de 2003. Tudo isso está muito bem documentado.

Não é preciso farejar arquivos, em busca de documentos secretos. Está tudo no Youtube e no Google.

São incontáveis (e não cabem neste espaço) os episódios que atestam esse pioneirismo. Remontam a um tempo em que Bolsonaro era um ilustre desconhecido – ou conhecido apenas nos círculos do baixo clero do Congresso.

O seu protagonismo político começa exatamente quando foca sua atuação parlamentar no enfrentamento à bancada mais radical da esquerda. Pode-se, portanto, classificá-lo como personagem meramente reativo dentro de um quadro que já estava instalado.

Comparadas às de seus adversários da esquerda (que punham em prática o que diziam), suas declarações mais ferozes soam como as de um escoteiro-mirim. Coube ao PT dividir a sociedade em “nós” e “eles”, sendo que o “eles” abrangia todos os que não eram da esquerda – e, por isso mesmo, eram vilões, a ser esmagados.

Data de 2000 a famosa incitação de José Dirceu, numa greve de professores em São Paulo, a que os militantes batessem nos opositores. “Eles têm de apanhar nas ruas e nas urnas”, conclamou.

Nas urnas, não apanharam, mas nas ruas, sim. Dias depois, a militância agrediu o governador Mário Covas, já padecendo de um câncer que o mataria. Dirceu disse que usara “força de expressão”.

Num seminário do PT, em maio de 2017, o senador peemedebista Roberto Requião, um aliado convicto, disse, para os aplausos da galera, que “não há mais espaço para conversas e bons modos”. Foi complementado pela deputada Benedita da Silva, que berrou: “Sem derramamento de sangue, não há redenção”.

O professor Mauro Iasi, da UFRJ, candidato em 2006 a vice-governador de São Paulo pelo Psol, na chapa de Plínio de Arruda Sampaio, disse, em 2015, a uma plateia de alunos, como deveria ser o diálogo com a direita: “Um bom paredão, onde vamos colocá-los frente a uma boa espingarda, com uma boa bala, e vamos oferecer depois uma boa pá e uma boa cova”. Ódio? Não: força de expressão.

A senadora e presidente do PT Gleisi Hoffmann, quando do julgamento de Lula pelo TRF-4, em Porto Alegre, em janeiro deste ano, avisou: “Para prender o Lula, vai ter que matar gente”.

João Pedro Stédile, do MST, na mesma ocasião, avisou: “Vamos ocupar terras porque queremos Lula livre”. E “ocuparam”.

José Dirceu, solto, porém condenado em segunda instância, tem emitido sucessivos vídeos, conclamando a militância a retomar, se necessário pela força, o poder. Num deles, diz: “A hora é de ação, não de palavras; de transformar a fúria, a revolta, a indignação e mesmo o ódio em energia, para a luta e o combate”.

Lula, em fevereiro de 2015, numa famosa fala à militância, na sede da ABI, no Rio, fez uma ameaça: “Quero paz e democracia, mas também sabemos lutar, sobretudo quando o Stédile colocar o Exército dele na rua”. Stédile, obediente, tem atendido o chefe.

E há ainda o líder do MTST, Guilherme Boulos, candidato do Psol à Presidência, que invade prédios e residências e cobra aluguel dos invasores. Este não apenas prega a luta armada: pratica-a.

Ódio como fonte de energia, conforme as palavras de Dirceu, é a grande contribuição da esquerda à democracia brasileira.