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Como o antipetismo boçal ajuda o petismo

O problema do antipetismo boçal é que ele não critica o PT por ser neopopulista e i-liberal, ou seja, por ser um adversário da democracia e sim por ser corrupto e comunista.

Ora, corrupto por corrupto, todos os grandes partidos realmente existentes são: praticam, em alguma medida, a corrupção endêmica, tradicional na política brasileira. Essa crítica não capta a natureza do projeto petista (o neopopulismo, dito “de esquerda”) que usa a corrupção como método, com objetivos estratégicos de poder.

Além disso, o populismo – e não o comunismo da época da guerra fria – é hoje o principal adversário da democracia, no Brasil e no mundo.

Essa crítica, dita “de direita”, não enxerga o mais importante (e mais maligno para a democracia) da estratégia petista, que é fazer “a revolução pela corrupção” (na expressão do saudoso Ferreira Gullar), em doses homeopáticas, com o objetivo de conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido para nunca mais sair do governo.

O PT não quer dar um golpe de Estado, não quer promover uma insurreição popular, não quer empreender uma guerra popular prolongada, não quer instalar focos revolucionários e sim vencer eleições seguidamente, por tempo indeterminado, ganhando tempo para operar transformações por dentro do sistema que alterem o DNA da democracia. Foi esse, aliás, o conselho que Lula deu às FARC (e elas aceitaram).

Falta ao bolsonarismo inteligência para entender que os neopopulismos (ou seja, os populismos ditos “de esquerda”), são variantes do estatismo da esquerda contemporânea que adotou instrumentalmente a via eleitoral. Os neopopulistas não querem reformar o velho sistema político para torná-lo mais democrático. Antes, querem parasitá-lo, se alimentar dele para crescer no seu interior, como aquela vespa parasitoide (a hymenoepimecis argyraphaga: ver foto) que deposita seus ovos dentro da aranha (plesiometa argyra) e que, de alguma forma, controla a mente da aranha (ou a reprograma). A aranha passa então a construir teias especialmente preparadas para receber as larvas que nascerão e para mantê-las seguras (até que, quando estão prontas, as larvas devoram a aranha de dentro para fora, saindo do corpo da hospedeira e se aproveitando da casa que ela construiu).

Foi isto, precisamente, que o PT fez: depositou seus ovos dentro da carcaça podre do velho sistema político, escondendo sua corrupção com propósitos de poder dentro da corrupção tradicional, endêmica na política. E foi bem sucedido, sobretudo com a ajuda dos moralistas, dos jacobinos e dos bolsonaristas. Ficou parecendo que Lula é a mesma coisa que Cabral, Dirceu é igual a Cunha e Vaccari é uma espécie de Geddel.

Ou seja, a crítica bolsonarista é boçal. Trata o PT ainda com as velhas noções da guerra fria de 1960-1990, como se fosse um agente de uma conspiração comunista mundial contra os valores da civilização ocidental cristã, contra a família, contra a pátria, contra deus. Exacerba seus supostos perigos culturais e não vê o seu real perigo político para a democracia.

A crítica bolsonarista é uma crítica antidemocrática ao PT, que – por não entender a natureza do neopopulismo – turva a visão da ameaça real que o PT representa para a democracia. Ao fazer do PT um bicho-papão, em que pouca gente inteligente acredita, escamoteia o verdadeiro monstro que se esconde por trás do populismo dito “de esquerda”, que quer subverter a democracia enquanto enaltece a democracia. Ou seja, impede as pessoas de ver que o PT não quer abolir a democracia e sim usar a democracia contra a democracia.

O antipetismo bolsonarista é tão tosco que só ajuda o petismo. É por isso que, diante das críticas autocráticas bolsonaristas, muitos analistas que valorizam a democracia, no mundo todo e do Brasil, veem o perigo da eleição de Bolsonaro, mas não veem o perigo que Lula e o PT representam.

Claro que o PT é muito mais perigoso para a democracia do que Bolsonaro. Assim como também é claro que votar em Bolsonaro é preparar a volta triunfal do PT. Sim, pois quem fará oposição sistemática, organizada e eficaz a Bolsonaro senão o PT? Os bolsonaristas são como um bando enraivecido de hunos do século 3 tentando destruir uma sofisticada organização de Sith do século 21.

Não há solução sem política. Quer dizer, não há saída fora da democracia. Não há como escolher entre PT (ou Ciro) e Bolsonaro. Uma força populista de esquerda (neopopulista) não pode ser removida por uma força populista-autoritária de direita (bolsonarista). Tanto os militantes petistas quanto as hordas bolsonaristas só podem ser contidos pela democracia. Não havendo escolha eleitoral viável, os democratas devem articular uma resistência democrática na sociedade. Aliás, é isso que fazemos mesmo. Resistimos.
Augusto De Franco/Dagobah

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