Intervalo em Covadonga
Dalia Morejón Arnaiz ¹
chega perto da janela para saber se a luz é ainda suficiente
só o calor que lhe avermelha o braço
rígido entre os marcos
poderia trazer-lhe uma resposta
nada muito estrepitoso
a não ser a queda previsível de uma fruta solar, ali, no fundo
se adentra na vereda para saber se o silêncio é ainda imperceptível
só o pássaro que vive no mangueiral poderia trazer-lhe uma resposta
nada muito revelador
a não ser o instante em que outra fruta se desprende e crepita
a terra
nessa trama da trilha
é totalmente plana
tanto
que, de muito longe, se divisa o resplendor que desvela dois homens a cavalo
“algo devastador contém essa paisagem de erva rala e trilhas solitárias cujo lugar é o tempo”
escreve em seu diário quando o braço
finalmente
se aparta da janela para refugiar-se na sombra
comemora
com isto
um novo dia de obscuridade
Poema traduzido para o português por Carlos Vogt e Alcir Pécora.
¹ Idalia Morejón Arnaiz
* Havana, Cuba – 1965 d.C
Idalia Morejón Arnaiz (1965) é poeta, ensaísta e crítica literária. Licenciada en língua e literatura francesa pela Universidad de La Habana.
Mestre e doutora em letras pela USP. Autora do caderno de ensaios Cartas a un cazador de pájaros (Letras Cubanas, 2000). Sua produção
crítica foi premiada en 2005 pela Oficina de Cooperación Cultural de la Embajada de España en Cuba, com o ensaio “Eppure si muove: las transformaciones de la norma poética en Cuba” (Madrid, Editorial Verbum, 2006). Correspondente do diário eletrônico Encuentro en la Red (Madrid). Desde 1997 vive em São Paulo.


