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Paul Valéry – Reflexões na tarde

Do ensaio “Poesia e pensamento abstrato”
Paul Valéry ¹

“O poeta desperta no homem através de um acontecimento inesperado, um incidente externo ou interno: uma árvore, um rosto, um “motivo”, uma emoção, uma palavra. E às vezes é uma vontade de expressão que começa a partida, uma necessidade de traduzir o que se sente; mas às vezes é, ao contrário, um elemento de forma, um esboço de expressão que procura sua causa, que procura um sentido no espaço da minha alma…Observem bem esta dualidade possível de entrada em jogo: às vezes, alguma coisa quer se exprimir, às vezes, algum meio de expressão quer alguma coisa para servir.”

¹ Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry
* Paris, França – 30 de Outubro de 1871 d.C
+ Paris, França – 20 de Julho de 1945 d.C


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Nietzsche – Reflexões na tarde

Nietzsche ¹ – (Ecce Homo)
“O ressentimento é em si o que está proibido aos doentes – o seu mal: infelizmente, é também a sua tendência mais natural. – Isso foi o que entendeu muito bem aquele profundo fisiólogo, Buda. A sua «religião», que antes se deveria denominar higiene, para não a confundir com coisas tão lastimosas como o cristianismo, fez depender a sua eficácia da vitória sobre o ressentimento: libertar dele a alma – eis o primeiro passo para a cura. «Não é pela inimizade que se chega ao fim da inimizade, é pela amizade que se põe fim à inimizade…: eis o começo da doutrina de Buda – aqui não fala a moral, mas a fisiologia. – O ressentimento, nascido da fraqueza, a ninguém é mais nocivo do que ao próprio fraco – noutros casos, onde o pressuposto é uma natureza rica, um sentimento excessivo, um sentimento de que assenhorear-se é quase a prova da riqueza. Quem conhece a seriedade com que a minha filosofia empreendeu a luta contra os sentimentos de vingança e de simpatia até a doutrina da «vontade livre» – a luta com o cristianismo constituí apenas um seu caso particular – compreenderá porque é que aqui trago à plena luz a minha conduta pessoal, a minha segurança do instinto na prática.

Nos momentos da décadence, interditava-os a mim como nocivos; logo que a vida se tornava de novo rica e assaz altiva, opunha-me a eles como abaixo de mim. Aquele «fatalismo russo», de que falei, emergiu em mim porque me ative tenazmente, ao longo dos anos, a situações, lugares, habitações, companhias quase insuportáveis, após me terem sido dadas por acaso – era melhor do que modificá-las, do que sentir que se poderiam modificar – do que contra elas se rebelar. Considerava então como mortalmente mau o que em semelhante fatalismo me perturbava e dele à força me despertava: – na verdade, isso era de cada vez mortalmente perigoso. – Considerar-se a si mesmo como um não querer ser «outro» – tal é em semelhantes circunstâncias a própria grande razão.” –

¹ Friedrich Wilhelm Nietzsche – Alemanha
* Weimar, Alemanha – 15 Outubro 1844 d.C
+ Weimar, Alemanha – 25 Agosto 1900 d.C


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Tolstoi – Reflexões na tarde

O homem não é sempre igual
Tolstoi ¹

Um dos preconceitos mais conhecidos e mais espalhados consiste em crer que cada homem possui como sua propriedade certas qualidades definidas, que há homens bons ou maus, inteligentes ou estúpidos, enérgicos ou apáticos, e assim por diante. Os homens não são feitos assim.

Podemos dizer que determinado homem se mostra mais frequentemente bom do que mau, mais frequentemente inteligente do que estúpido, mais frequentemente enérgico do que apático, ou inversamente; mas seria falso afirmar de um homem que é bom ou inteligente, e de outro que é mau ou estúpido.

No entanto, é assim que os julgamos. Pois isso é falso.

Os homens parecem-se com os rios: todos são feitos dos mesmos elementos, mas ora são estreitos, ora rápidos, ora largos, ora plácidos, claros ou frios, turvos ou tépidos.

Leon Tolstoi, in “Ressurreição”

¹ Lev Nikoláievich Tolstói
* Yasnaya Polyana, Rússia – 9 de setembro de 1828 d.C
+ Astapovo, Rússia – 20 de novembro de 1910 d.C


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Sarah Westphal Batista – Reflexões na tarde

Quase
Sarah Westphal Batista ¹
Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor, não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “Bom dia”, quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.
Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance.

Para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência. Porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando. Porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

¹ Sarah Westphal Batista da Silva
* Florianópolis, SC – 1988 d.C

Esse texto, que circula na internet como sendo de Luis Fernando Veríssimo, é na realidade de uma jovem catarinense. Veríssimo esclarece:
“Apareceu a autora do “Quase”, o texto que rola na internet atribuído a mim e que eu, relutantemente, tenho que repetir que não é meu. Ela se chama Sarah Westphal Batista da Silva, é de Florianópolis. Escreveu o texto ‘inspirada por um menino que não me namorou, mas quase…’, mandou o texto por e-mail a várias amigas e dois anos depois teve a surpresa de vê-lo impresso com a minha assinatura. A Sarah está no quarto semestre de medicina mas sonha em largar a faculdade e começar a escrever. Olha aí, editores. Ela nem começou e já foi traduzida na França.”


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Espinoza – Reflexões na tarde

O Preço da Honra
Espinoza ¹
As coisas que mais ocorrem na vida e são tidas pelos homens como o supremo bem resumem-se, ao que se pode depreender das suas obras, nestas três: as riquezas, as honras e a concupiscência.

Por elas a mente se vê tão distraída que de modo algum poderá pensar em qualquer outro bem. Realmente, no que tange à concupiscência, o espírito fica por ela de tal maneira possuído como se repousasse num bem, tornando-se de todo impossibilitado de pensar em outra coisa; mas, após a sua fruição, segue-se a maior das tristezas, a qual, se não suspende a mente, pelo menos a perturba e a embota.

Também procurando as honras e a riqueza, não pouco a mente se distrai, mormente quando são buscadas apenas por si mesmas, porque então serão tidas como o sumo bem. Pela honra, porém, muito mais ainda fica distraída a mente, pois sempre se supõe ser um bem por si e como que o fim último, ao qual tudo se dirige.
Além do mais, nestas últimas coisas não aparece, como na concupiscência, o arrependimento.

Pelo contrário, quanto mais qualquer delas se possuir, mais aumentará a alegria e consequentemente sempre mais somos incitados a aumentá-las. Se, porém, nos virmos frustrados alguma vez nessa esperança, surge uma extrema tristeza.

Por último, a honra representa um grande impedimento pelo fato de precisarmos, para consegui-la, de adaptar a nossa vida à opinião dos outros, a saber, fugindo do que os homens em geral fogem e buscando o que vulgarmente procuram.

Baruch Espinoza, in ‘Tratado da Correção do Intelecto’
¹ Baruch Von Espinoza
* Holanda – 1632 d.C
+ Holanda – 1677 d.C


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Nietzsche – Filosofia na tarde

Cultura é um fenômeno eterno
Nietzsche ¹
A ávida vontade vai sempre encontrar um meio de fixar as suas criaturas na vida através de uma ilusão espalhada sobre as coisas, forçando-as a continuar a viver. Este se vê amarrado pelo prazer socrático do conhecimento e pela ilusão de poder, através do mesmo, curar a eterna ferida da existência; aquele vê-se envolvido pelo véu sedutor da arte ondeando diante dos seus olhos; aquele, por seu turno, pela consolação metafísica de que sob o remoinho dos fenômenos continua a fluir, imperturbável, a vida eterna: para não falar das ilusões mais comuns, e talvez mais vigorosas, que a vontade tem preparadas em qualquer instante. Aqueles três níveis de ilusão destinam-se apenas às naturezas mais nobremente apetrechadas, nas quais a carga e o peso da existência são em geral sentidos com um desagrado mais profundo e que podem ser ilusoriamente desviadas desse desagrado através de estimulantes selecionados. É nestes estimulantes que consiste tudo o que chamamos cultura.

Friedrich Nietzsche, in ‘O Nascimento da Tragédia’.

¹ Friedrich Wilhelm Nietzsche – Alemanha
* Weimar, Alemanha – 15 Outubro 1844 d.C
+ Weimar, Alemanha – 25 Agosto 1900 d.C


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Carta a Heloísa – extrato
Graciliano Ramos ¹

“[...]Somos uns animais diferentes dos outros, provavelmente inferiores aos outros, duma sensibilidade excessiva, duma vaidade imensa que nos afasta dos que não são doentes como nós. Mesmo os que são doentes, os degenerados que escrevem história fiada, nem sempre nos inspiram simpatia: é necessário que a doença que nos ataca atinja outros com igual intensidade para que vejamos nele um irmão e lhe mostremos as nossas chagas, isto é, os nossos manuscritos, as nossas misérias, que publicamos cauterizadas, alteradas em conformidade com a técnica.[...]”

¹ Graciliano Ramos de Oliveira
* Quebrangulo, AL. – 27 de Outubro de 1892 d.C
+ Rio de Janeiro, RJ. – 20 de março de 1953 d.C


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Nietzsche – Reflexões na tarde

Prejudicar a Estupidez
Nietzsche ¹

A reprovação do egoísmo, que se pregou com tamanha convicção casmurra, prejudicou certamente, no conjunto, esse sentimento (em benefício, hei-de repeti-lo milhares e milhares de vezes, dos instintos gregários do homem), e prejudicou-o, nomeadamente no facto de o ter despojado da sua boa consciência e de lhe ter ordenado a procurar em si próprio a verdadeira fonte de todos os males.

O teu egoísmo é a maldição da tua vida», eis o que se pregou durante milénios: esta crença, como eu ia dizendo, fez mal ao egoísmo; tirou-lhe muito espírito, serenidade, engenhosidade e beleza; bestializou-o, tornou-o feio, envenenado.

Os filósofos antigos indicavam, ao contrário, uma fonte completamente diferente para o mar; os pensadores não cessaram de pregar desde Sócrates: “É a vossa irreflexão, são a vossa estupidez, o vosso hábito de vegetar obedecendo à regra e de vos subordinar ao juízo do próximo, que vos impedem tão amiudadamente de serdes felizes; somos nós, pensadores, que o somos mais, porque pensamos”.

Não nos perguntemos aqui se este sermão contra a estupidez tem mais fundamentos do que o sermão contra o egoísmo; o que é certo é que despojou a estupidez da sua boa consciência: estes filósofos foram prejudiciais à estupidez!

Friedrich Nietzsche, in “A Gaia Ciência”

¹ Friedrich Wilhelm Nietzsche – Alemanha
* Weimar, Alemanha – 15 Outubro 1844 d.C
+ Weimar, Alemanha – 25 Agosto 1900 d.C


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Millor Fernandes – Prosa na tarde

Chapeuzinho Vermelho

Era uma vez (admitindo-se aqui o tempo como uma realidade palpável, estranho, portanto, à fantasia da história) uma menina, linda e um pouco tola, que se chamava Chapeuzinho Vermelho.

(Esses nomes que se usam em substituição do nome próprio chamam-se alcunha ou vulgo).

Chapeuzinho Vermelho costumava passear no bosque, colhendo Sinantias, monstruosidade botânica que consiste na soldadura anômala de duas flores vizinhas pelos invólucros ou pelos pecíolos, Mucambés ou Muçambas, planta medicinal da família das Caparidáceas, e brincando aqui e ali com uma Jurueba, da família dos Psitacídeos, que vivem em regiões justafluviais, ou seja, à margem dos rios.

Chapeuzinho Vermelho andava, pois, na Floresta, quando lhe aparece um lobo, animal selvagem carnívoro do gênero cão e…

(Um parêntesis para os nossos pequenos leitores — o lobo era, presumivelmente, uma figura inexistente criada pelo cérebro superexcitado de Chapeuzinho Vermelho.

Tendo que andar na floresta sozinha, – natural seria que, volta e meia, sentindo-se indefesa, tivesse alucinações semelhantes.).

Chapeuzinho Vermelho foi detida pelo lobo que lhe disse: (Outro parêntesis; os animais jamais falaram. Fica explicado aqui que isso é um recurso de fantasia do autor e que o Lobo encarna os sentimentos cruéis do Homem. Esse princípio animista é ascentralíssimo e está em todo o folclore universal.)

Disse o Lobo: “Onde vais, linda menina?” Respondeu Chapeuzinho Vermelho: “Vou levar estes doces à minha avozinha que está doente. Atravessarei dunas, montes, cabos, istmos e outros acidentes geográficos e deverei chegar lá às treze e trinta e cinco, ou seja, a uma hora e trinta e cinco minutos da tarde”.

Ouvindo isso o Lobo saiu correndo, estimulado por desejos reprimidos (Freud: “Psychopathology Of Everiday Life”, The Modern Library Inc. N.Y.).

Chegando na casa da avozinha ele engoliu-a de uma vez — o que, segundo o conceito materialista de Marx indica uma intenção crítica do autor, estando oculta aí a idéia do capitalismo devorando o proletariado — e ficou esperando, deitado na cama, fantasiado com a roupa da avó.

Passaram-se quinze minutos (diagrama explicando o funcionamento do relógio e seu processo evolutivo através da História). Chapeuzinho Vermelho chegou e não percebeu que o lobo não era sua avó, porque sofria de astigmatismo convergente, que é uma perturbação visual oriunda da curvatura da córnea.

Nem percebeu que a voz não era a da avó, porque sofria de Otite, inflamação do ouvido, nem reconheceu nas suas palavras, palavras cheias de má-fé masculina, porque afinal, eis o que ela era mesmo: esquizofrênica, débil mental e paranóica pequenas doenças que dão no cérebro, parte-súpero-anterior do encéfalo.

(A tentativa muito comum da mulher ignorar a transformação do Homem é profusamente estudada por Kinsey em “Sexual Behavior in the Human Female”. W. B. Saunders Company, Publishers.)

Mas, para salvação de Chapeuzinho Vermelho, apareceram os lenhadores, mataram cuidadosamente o Lobo, depois de verificar a localização da avó através da Roentgenfotografia.

E Chapeuzinho Vermelho viveu tranqüila 57 anos, que é a média da vida humana segundo Maltus, Thomas Robert, economista inglês nascido em 1766, em Rookew, pequena propriedade de seu pai, que foi grande amigo de Rousseau.

Millôr Fernandes
Extraído do livro “Lições de Um Ignorante”, José Álvaro Editor – Rio de Janeiro, 1967, pág. 31

 

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Sarah Westphal – Reflexões na tarde

Quase
Sarah Westphal Batista ¹

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor, não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “Bom dia”, quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance. Para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência. Porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando. Porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

¹ Sarah Westphal Batista da Silva
* Florianópolis, SC – 1988 d.C

Esse texto, que circula na internet como sendo de Luis Fernando Veríssimo, é na realidade de uma jovem catarinense. Veríssimo esclarece:

“Apareceu a autora do “Quase”, o texto que rola na internet atribuído a mim e que eu, relutantemente, tenho que repetir que não é meu. Ela se chama Sarah Westphal Batista da Silva, é de Florianópolis. Escreveu o texto ‘inspirada por um menino que não me namorou, mas quase…’, mandou o texto por e-mail a várias amigas e dois anos depois teve a surpresa de vê-lo impresso com a minha assinatura. A Sarah está no quarto semestre de medicina mas sonha em largar a faculdade e começar a escrever. Olha aí, editores. Ela nem começou e já foi traduzida na França.”


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Regina Brett – Reflexões na tarde

Escrito por Regina Brett, 90 anos de idade, assina uma coluna no The Plain Dealer, Cleveland, Ohio.

“Para celebrar o meu envelhecimento, certo dia eu escrevi as 42 lições que a vida me ensinou. É a coluna mais solicitada que eu já escrevi.” Meu hodômetro passou dos 90 em agosto, portanto aqui vai a coluna mais uma vez:

1. A vida não é justa, mas ainda é boa.

2. Quando estiver em dúvida, dê somente o próximo passo, pequeno .

3. A vida é muito curta para desperdiçá-la odiando alguém.

4. Seu trabalho não cuidará de você quando você ficar doente. Seus amigos e familiares cuidarão. Permaneça em contato.

5. Pague mensalmente seus cartões de crédito.

6. Você não tem que ganhar todas as vezes. Concorde em discordar.

7. Chore com alguém. Cura melhor do que chorar sozinho.

8. Economize para a aposentadoria começando com seu primeiro salário.

9. Quanto a chocolate, é inútil resistir.

10. Faça as pazes com seu passado, assim ele não atrapalha o presente.

11. É bom deixar suas crianças verem que você chora.

12. Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem idéia do que é a jornada deles.

13. Se um relacionamento tiver que ser um segredo, você não deveria entrar nele.

14. Tudo pode mudar num piscar de olhos Mas não se preocupe; Deus nunca pisca.

15. Respire fundo. Isso acalma a mente.

16. Livre-se de qualquer coisa que não seja útil, bonito ou alegre.

17. Qualquer coisa que não o matar o tornará realmente mais forte.

18. Nunca é muito tarde para ter uma infância feliz. Mas a segunda vez é por sua conta e ninguém mais.

19. Quando se trata do que você ama na vida, não aceite um não como resposta.

20. Acenda as velas, use os lençóis bonitos, use roupa chic. Não guarde isto para uma ocasião especial. Hoje é especial.

21. Seja excêntrico agora. Não espere pela velhice para vestir roxo.

22. O órgão sexual mais importante é o cérebro.

23. Ninguém mais é responsável pela sua felicidade, somente você..

24. Enquadre todos os assim chamados “desastres” com estas palavras ‘Em cinco anos, isto importará?’

25. Sempre escolha a vida.

26. O que outras pessoas pensam de você não é da sua conta.

27. O tempo cura quase tudo. Dê tempo ao tempo..

28. Não importa quão boa ou ruim é uma situação, ela mudará.

29. Não se leve muito a sério. Ninguém faz isso.

30. Acredite em milagres.

31. Deus ama você porque ele é Deus, não por causa de qualquer coisa que você fez ou não fez.

32. Não faça auditoria na vida. Destaque-se e aproveite-a ao máximo agora.

33. Envelhecer ganha da alternativa — morrer jovem.

34. Suas crianças têm apenas uma infância.

35. Tudo que verdadeiramente importa no final é que você amou.

36. Saia de casa todos os dias. Os milagres estão esperando em todos os lugares.

37. Se todos nós colocássemos nossos problemas em uma pilha e víssemos todos os outros como eles são, nós pegaríamos nossos mesmos problemas de volta.

38. A inveja é uma perda de tempo. Você já tem tudo o que precisa.

39. O melhor ainda está por vir.

40. Não importa como você se sente, levante-se, vista-se bem e apareça.

41. Produza!

42. A vida não está amarrada com um laço, mas ainda é um presente.”


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Robert de Musil – Reflexões na tarde

A Nossa Vida como um Conjunto de Metáforas
Robert de Musil ¹, in ‘O Homem sem Qualidades’ 

Pensemos, por exemplo, nos grandes escritores. Podemos orientar a nossa vida por eles, mas não podemos extrair das suas obras o elixir da vida.

Eles deram uma forma tão rígida àquilo que os moveu que tudo isso está ali, mesmo nas entrelinhas, como metal laminado. Mas, que disseram eles na verdade? Ninguém sabe.

Eles próprios nunca o souberam explicar cabalmente. São como um campo sobre o qual voam as abelhas; e ao mesmo tempo, eles são esse próprio voo.

Os seus pensamentos e sentimentos assumem toda a escala da transição entre verdades ou erros que, se necessário, podem ser demonstrados, e seres mutáveis que se aproximam ou afastam de nós quando os queremos observar.

É impossível destacar o pensamento de um livro da página que o encerra. Acena-nos como o rosto de alguém que passa rapidamente por nós, numa fila com outros rostos, e por um instante surge carregado de sentido.

Estou outra vez a exagerar um pouco.

Mas agora queria perguntar-lhe: que coisa acontece na nossa vida que não seja aquilo que acabo de descrever? Não falo das impressões mais exactas, mensuráveis e definíveis; todos os outros conceitos em que baseamos a nossa vida não passam de metáforas que ficaram cristalizadas.

Entre quantas ideias não oscila e paira um conceito tão simples como o da virilidade?

E como um sopro que muda de forma a cada respiração, e nada é estável, nenhuma impressão, nenhuma ordem.

Se, como eu disse, pomos de lado na literatura aquilo que não nos convém, tudo o que fazemos é reconstituir o estado original da vida.

¹ Robert de Musil

* Klagenfurt, Áustria – 6 de novembro de 1880 d.C
+ Genebra, Suíça – 15 de abril de 1942 d.C

Juntamente com Kafka, Proust e Joyce forma o grupo dos grandes prosadores do século XX. Sua principal obra é o monumental ‘O Homem sem Qualidades’, um anti-romance ou um não-romance que é acima de tudo uma grande reflexão sobre a época de Musil.


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