1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (14 votos, média: 5,00 de 5)
Loading ... Loading ...

Paul Valéry – Reflexões na tarde

Do ensaio “Poesia e pensamento abstrato”
Paul Valéry ¹

“O poeta desperta no homem através de um acontecimento inesperado, um incidente externo ou interno: uma árvore, um rosto, um “motivo”, uma emoção, uma palavra. E às vezes é uma vontade de expressão que começa a partida, uma necessidade de traduzir o que se sente; mas às vezes é, ao contrário, um elemento de forma, um esboço de expressão que procura sua causa, que procura um sentido no espaço da minha alma…Observem bem esta dualidade possível de entrada em jogo: às vezes, alguma coisa quer se exprimir, às vezes, algum meio de expressão quer alguma coisa para servir.”

¹ Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry
* Paris, França – 30 de Outubro de 1871 d.C
+ Paris, França – 20 de Julho de 1945 d.C


, , ,
1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (14 votos, média: 5,00 de 5)
Loading ... Loading ...

Tolstoi – Reflexões na tarde

O homem não é sempre igual
Tolstoi ¹

Um dos preconceitos mais conhecidos e mais espalhados consiste em crer que cada homem possui como sua propriedade certas qualidades definidas, que há homens bons ou maus, inteligentes ou estúpidos, enérgicos ou apáticos, e assim por diante. Os homens não são feitos assim.

Podemos dizer que determinado homem se mostra mais frequentemente bom do que mau, mais frequentemente inteligente do que estúpido, mais frequentemente enérgico do que apático, ou inversamente; mas seria falso afirmar de um homem que é bom ou inteligente, e de outro que é mau ou estúpido.

No entanto, é assim que os julgamos. Pois isso é falso.

Os homens parecem-se com os rios: todos são feitos dos mesmos elementos, mas ora são estreitos, ora rápidos, ora largos, ora plácidos, claros ou frios, turvos ou tépidos.

Leon Tolstoi, in “Ressurreição”

¹ Lev Nikoláievich Tolstói
* Yasnaya Polyana, Rússia – 9 de setembro de 1828 d.C
+ Astapovo, Rússia – 20 de novembro de 1910 d.C


, , ,
1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (6 votos, média: 5,00 de 5)
Loading ... Loading ...

Heidegger – Cartas na tarde

“Cara Hannah!

A insinuação de que não cumprimento judeus é uma difamação tão baixa que a anotarei aliás para mim futuramente. Como esclarecimento de como me comporto em relação aos judeus, cito apenas os seguintes fatos: quem me enviou há algumas semanas um trabalho extenso para uma leitura urgente é um judeu. Os dois bolsistas da sociedade beneficente que foram alocados por mim são judeus. Quem conseguiu através de mim uma bolsa para Roma é um judeu. Quem quiser chamar isso de ‘anti-semitismo furioso’ pode fazê-lo. De resto, sou tão anti-semita hoje em relação a questões universitárias quanto há dez anos.

Saudações cordiais.
M”
Trecho de carta de 1932 de Heidegger ¹ para Hanna Arendt

¹ Martin Heidegger
* Meßkirch, Alemanha – 26 de Setembro de 1889 d.C
+ Friburgo, Alemanha – 26 de Maio de 1976 d.C
ARENDT, Hannah; HEIDEGGER, Martin. Correspondência: 1925-1975. Trad. Marco Casanova.Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.)


, , ,
1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (11 votos, média: 5,00 de 5)
Loading ... Loading ...

Hannah Arendt – Cartas na tarde

“Caro Martin,

Dirijo-me a você com a antiga certeza e com o velho pedido: não se esqueça de mim e não esqueça o quão profundamente sei que o nosso amor foi a bênção da minha vida. Nada é capaz de abalar esse saber – e isso mesmo agora, no momento em que encontrei uma pátria e um porto seguro para o meu desespero (…)
Escuto às vezes algo sobre você. No entanto, tudo envolto em um tom particularmente estranho e indireto: no tom que sempre está presente na elocução dos nomes famosos. De um modo quase torturante, gostaria tanto de saber como você está, em que está trabalhando e como Freiburg o está recebendo!

Um beijo meu em sua fronte e em seus olhos.
Sua Hannah ¹
Trecho de carta de 1929

¹ Hanna Arendt
* Hanôver, Alemanha – 14 de outubro de 1906 d.C
+ Nova Iorque, Estados Unidos – 4 de dezembro de 1975 d.C
(ARENDT, Hannah; HEIDEGGER, Martin. Correspondência: 1925-1975. Trad. Marco Casanova.Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.)


, , , , ,
1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (11 votos, média: 4,73 de 5)
Loading ... Loading ...

Sarah Westphal Batista – Reflexões na tarde

Quase
Sarah Westphal Batista ¹
Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor, não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “Bom dia”, quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.
Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance.

Para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência. Porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando. Porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

¹ Sarah Westphal Batista da Silva
* Florianópolis, SC – 1988 d.C

Esse texto, que circula na internet como sendo de Luis Fernando Veríssimo, é na realidade de uma jovem catarinense. Veríssimo esclarece:
“Apareceu a autora do “Quase”, o texto que rola na internet atribuído a mim e que eu, relutantemente, tenho que repetir que não é meu. Ela se chama Sarah Westphal Batista da Silva, é de Florianópolis. Escreveu o texto ‘inspirada por um menino que não me namorou, mas quase…’, mandou o texto por e-mail a várias amigas e dois anos depois teve a surpresa de vê-lo impresso com a minha assinatura. A Sarah está no quarto semestre de medicina mas sonha em largar a faculdade e começar a escrever. Olha aí, editores. Ela nem começou e já foi traduzida na França.”


, , ,
1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (14 votos, média: 5,00 de 5)
Loading ... Loading ...

Manoel de Barros – Prosa na tarde

Difícil fotografar o silêncio
Manoel de Barros ¹

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta.
Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa,.
Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.

Preparei minha máquina de novo.

Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado.
Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakoviski – seu criador.
Fotografei a nuvem de calça e o poeta. Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
Mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.

¹ Manoel Wenceslau Leite de Barros
* Cuiabá, MT. – 1916 d.C


, , , ,
1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (6 votos, média: 5,00 de 5)
Loading ... Loading ...

Prosa na tarde – Clarice Lispector

Esperança
Clarice Lispector ¹

Custei um pouco a compreender o que estava vendo. Estava vendo um inseto pousado, verde, de pernas altas. Era uma “esperança” verde, o que sempre me disseram que é de bom angúrio. Depois a esperança começou a andar bem de leve sobre o colchão. Era verde-claro, com pernas que mantinham seu corpo em plano alto e solto, um plano tão quebradiço quanto as próprias pernas que eram feitas apenas da cor da casca. Dentro do fiapo das pernas não havia nada dentro: o lado de dentro de uma superfície tão rasa já é a própria superfície. Parecia com um raso desenho que tivesse caído do papel e, verde, andasse.
Mas andava, se sonâmbulo, determinado. Sonâmbulo: uma folha mínima de árvore que tivesse ganho a independência solitária dos que seguem o apagado traço de um destino. Ela, a esperança, andava com uma determinação de quem copiasse um traço que era invisível para mim. Sem temor ela andava. Seu mecanismo interior não era trêmulo, mas tinha o estremecimento regular do mais frágil relógio.
Como seria o amor entre duas esperanças? Verde e verde, e depois o mesmo verde, que, de repente, por vibração de verdes, se torna verde. Amor predestinado pelo seu próprio mecanismo aéreo. Mas onde estariam nela as glândulas do seu destino, e as adrenalinas de seu seco e verde interior? Pois era um ser oco, um enxerto de gravetos, simples atração eletiva de linhas verdes. Eu? Eu. Nós? Nós.
Nessa magra esperança de pernas altas, que caminharia sobre um seio sem nem sequer acordar o resto do corpo, nessa esperança que não pode ser oca, pois não existe linha oca, nessa esperança a energia atômica sem tragédia se encaminha em silêncio.
Nós? Nós

¹ Clarice Lispector
* Ucrânia – 10 de Dezembro de 1920 d.C
+ Rio de Janeiro, RJ – 9 de Dezembro de 1977 d.C
->> biografia


, , , ,
1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (7 votos, média: 5,00 de 5)
Loading ... Loading ...

Clarice Lispector – Pro dia nascer melhor – 10/12/2011

Antonio Abujamra declama “Não Entendo”, de Clarice Lispector


, , , , ,
1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (14 votos, média: 5,00 de 5)
Loading ... Loading ...

Nina Rizzi – Prosa na tarde

sanguidolente
Nina Rizzi ¹

tenho dois homens ao meu lado. um me disputa com lembranças d’uma época em que só havia por comida xapati com açafrão e nossas ânsias; promessas d’um futuro.

o outro me vem com canções, essa sua carne que me quer poemas pra dentes.

há ainda um terceiro, o que me pega e tem, essa chuva. tardia chuva-súplica que não veio em dia de são josé. a chuva que me traz saudades de tudo que não vivi, símbolo desse homem que não está e me é. chuva-choro de mim. chuva-você que me cai, dono de todos os meus ais.

os dois primeiros me cospem, me rasgam. vão-me embora. fica o homem que me dói e gargalha.

mas não me restam autopiedades. é bom também doer. as cólicas hemorrágicas e as pedras na vesícula; o pedaço de ostra que me ficou por indolência no dedão do pé esquerdo; ter uma dezena de filhos de cócoras; não tomar drogas e ter os piores pesadelos.

dessa vida suicida, tudo: a morte lenta e dorida, a morte boa overdose de gozo. E os poemas impossíveis, que até chão seco dá semente.

¹ Nina Rizzi
* Fortaleza, CE. – 1983 d.C


, ,
1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (9 votos, média: 5,00 de 5)
Loading ... Loading ...

Osman Lins – Prosa na tarde

Nove Novenas – extrato*
Osman Lins ¹

A lenta rotação da água, em torno de sua vária natureza. Sua oscilação entre a paz dos copos e as inundações. Talvez seja mineral; ou um ser mitológico; ou uma planta, um liame, enredando continentes, ilhas. Pode ser um bicho, peixe imenso, que tragou escuridões e abismos, com todas as conchas, anêmonas, delfins, baleias e tesouros naufragados. Desejaria ter, talvez, a definição das pedras; e nunca se define. Invisível. Visível. Trespassável. Dura. Amiga. Existem os ciclones, as trombas marinhas. Golpes de barbatanas? E também as nuvens, frutos que, maduros, tombam em chuvas. O peixe as absorve e cresce. Então este peixe, verde e ramal, de prata e sal, dele próprio se nutre? Bebe a sua própria sede? Come sua fome? Nada em si mesmo? Não saberemos jamais sobre este ente fugidio, lustral, obscuro, claro e avassalador. Tenho-o nos meus olhos, dentro das pupilas. Não sei portanto se o vejo; se é ele que se vê.

* Do conto Retábulo de Santa Joana Carolina, uma das narrativas do livro Nove Novena.

¹ Osman da Costa Lins
* Vitória de Santo Antão, PE. – 5 de Julho de 1924 d.C
+ São Paulo, SP. – 8 de Julho de 1978 d.C


, , , ,
1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (18 votos, média: 5,00 de 5)
Loading ... Loading ...

Clarice Lispector – Prosa na tarde

O nascimento do prazer
Clarice Lispector ¹

O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer. A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida – e se parece com o início de uma perdição irrecuperável. Esse fundir-se total é insuportavelmente bom – como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só que não é a morte, é a vida incomensurável que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar-se inundar pela alegria aos poucos – pois é a vida nascendo. E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido. Pois o prazer não é de se brincar com ele. Ele e nós.

¹ Clarice Lispector
* Ucrânia – 10 de Dezembro de 1920 d.C
+ Rio de Janeiro, RJ – 9 de Dezembro de 1977 d.C
–>> biografia


, , , ,

Em um programa de TV, viu uma escritora lamentando que não se liam livros nesta terra, por isso as palavras estavam em falta na praça. O mal tinha até nome de batismo, como qualquer doença grande, “indigência lexical”.

Comerciante de tino que era, não perdeu tempo em ter uma idéia fantástica. Pegou dicionário, mesa e cartolina e saiu ao mercado a cavar espaço entre os camelôs.

Entre uma banca de relógios e outra de lingerie instalou a sua: mesa, o dicionário e a cartolina na qual se lia: “Histriônico – apenas R$ 0,50″

Demorou quase quatro horas para que o primeiro de mais de cinqüenta curiosos parasse e perguntasse.

- O que o senhor está vendendo?

- Palavras, meu senhor. A promoção do dia é “histriônico” a cinqüenta centavos, como diz a placa.

- O senhor não pode vender palavras. Elas não são suas. Palavras são de todos.

- O senhor sabe o significado de “histriônico”?

- Não.

- Então o senhor não a tem. Não vendo algo que as pessoas já tem ou coisas de que elas não precisem.

- Mas eu posso pegar essa palavra de graça no dicionário.

- O senhor tem dicionário em casa?

- Não. Mas eu poderia muito bem ir à biblioteca pública e consultar um.

- O senhor estava indo à biblioteca?

- Não. Na verdade, eu estou a caminho do supermercado.

- Então veio ao lugar certo. O senhor está para comprar o feijão e a alface, pode muito bem levar para casa uma palavra por apenas cinqüenta centavos de real!

- Eu não vou usar essa palavra. Vou pagar para depois esquecê-la?

- Se o senhor não comer a alface ela acaba apodrecendo na geladeira e terá de jogá-la fora e o feijão caruncha.

- O que pretende com isto? Vai ficar rico vendendo palavras?

- O senhor conhece Nélida Piñon?

- Não.

- É uma escritora. Esta manhã, ela disse na televisão que o país sofre com a falta de palavras, pois os livros são muito pouco lidos por aqui.

- E por que o senhor não vende livros?

- Justamente por isso. As pessoas não compram as palavras no atacado, portanto eu as vendo no varejo.

- E o que as pessoas vão fazer com as palavras? Palavras são palavras, não enchem a barriga.

- A escritora também disse que cada palavra corresponde a um pensamento.

Se temos poucas palavras, pensamos pouco. Se eu vender uma palavra por dia, trabalhando duzentos dias por ano, serão duzentos novos pensamentos cem por cento brasileiros. Isso sem contar os que furtam o meu produto.

São como trombadinhas que saem correndo com os relógios do meu colega aqui do lado. Olhe aquela senhora com o carrinho de feira dobrando a esquina. Com aquela carinha de dona-de-casa, ela nunca me enganou.

Passou por aqui sorrateira. Olhou minha placa e deu um sorrisinho maroto se mordendo de curiosidade. Mas nem parou para perguntar. Eu tenho certeza de que ela tem um dicionário em casa. Assim que chegar lá, vai abri-lo e me roubar a carga.

Suponho que para cada pessoas que se dispõe a comprar uma palavra, pelo menos cinco a roubarão. Então eu provocarei mil pensamentos novos em um ano de trabalho.

- O senhor não acha muita pretensão? Pegar um…

- Jactância.

- Pegar um livro velho…

- Alfarrábio.

- O senhor me interrompe!

- Profaço.

- Está me enrolando ,não é?

- Tergiversando.

- Quanta lengalenga…

- Ambages.

- Ambages?

- Pode ser também “evasivas”.

- Eu sou mesmo um banana para dar trela para gente como você!

- Pusilânime.

- O senhor é engraçadinho, não?

- Finalmente chegamos: histriônico!

- Adeus.

- Ei! Vai embora sem pagar?

- Tome seus cinqüenta centavos.

- São três reais e cinqüenta.

- Como é?

- Pelas minhas contas, são oito palavras novas que eu acabei de entregar para o senhor. Só “histriônico” estava na promoção, mas como o senhor se mostrou interessado, faço todas pelo mesmo preço.

- Mas oito palavras seriam quatro reais, certo?

- É que quem leva ambages ganha uma evasiva, entende?

- Tem troco para cinco?

Fábio Reynol é jornalista especializado em ciências e escritor.

Enviado por Frederico Colares

, , , , ,