Ficções do Interlúdio – extrato Fernando Pessoa¹ Sentir a poesia é a maneira figurada de se viver Eu não sinto a poesia não porque não saiba o que ela é Mas porque não posso viver figuradamente E se o conseguisse tinha de seguir outro modo de me acondicionar A condição da poesia é ignorar como […]

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Esta Velha Angústia Fernando Pessoa ¹ Esta velha angústia, Esta angústia que trago há séculos em mim, Transbordou da vasilha, Em lágrimas, em grandes imaginações, Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror, Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum. Transbordou. Mal sei como conduzir-me na vida Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma! […]

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Data Sophia Andresen¹ Tempo de solidão e de incerteza Tempo de medo e tempo de traição Tempo de injustiça e de vileza Tempo de negação Tempo de covardia e tempo de ira Tempo de mascarada e de mentira Tempo de escravidão Tempo dos coniventes sem cadastro Tempo de silêncio e de mordaça Tempo onde o […]

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Se tudo que há é mentira Fernando Pessoa¹ Se tudo o que há é mentira, É mentira tudo o que há. De nada nada se tira, A nada nada se dá. Se tanto faz que eu suponha Uma coisa ou não com fé, Suponho-a se ela é risonha, Se não é, suponho que é. Que […]

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Chamo-te Sophia Andresen¹ Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio E suportar é o tempo mais comprido. Peço-Te que venhas e me dês a liberdade, Que um só de Teus olhares me purifique e acabe. Há muitas coisas que não quero ver. Peço-Te que sejas o presente. Peço-Te que inundes tudo. E que o Teu […]

Memória sobre teus olhos Atonio Gedeão¹ Magníficos. como os jactos que aguardam no aeroporto o iminente sinal da partida, seus grandes olhos imensos escorvam, impacientes, o subsolo da imagem pressentida. Perfurantes como as brocas dos mineiros, pontas de aço-vanádio que o cubro alcançam sem perder o gume, um fogo o olhar o queima, um mar […]

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O amor quando se revela Fernando Pessoa¹ O amor, quando se revela, Não se sabe revelar. Sabe bem olhar p’ra ela, Mas não lhe sabe falar. Quem quer dizer o que sente Não sabe o que há de dizer. Fala: parece que mente Cala: parece esquecer Ah, mas se ela adivinhasse, Se pudesse ouvir o […]

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Quase Sá Carneiro¹ Um pouco mais de sol – eu era brasa. Um pouco mais de azul – eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe de asa… Se ao menos eu permanecesse aquém…… Num ímpeto difuso de quebranto, Tudo encetei e nada possuí… Hoje, de mim, só resta o desencanto Das coisas que beijei […]

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O luar através de altos ramos Fernando Pessoa/Alberto Caeiro¹ O luar através dos altos ramos, Dizem os poetas todos que ele é mais Que o luar através dos altos ramos. Mas para mim, que não sei o que penso, O que o luar através dos altos ramos É, além de ser O luar através dos […]

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Poema 63 Casimiro de Brito ¹ Ontem caminhei Nos campos de chuva; hoje chove dentro de mim. ¹ Casimiro de Brito * Loulé, Portugal – 1938 d.C Tweet

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Desfecho Miguel Torga¹ Não tenho mais palavras. Gastei-as a negar-te… (Só a negar-te eu pude combater O terror de te ver Em toda a parte.) Fosse qual fosse o chão da caminhada, Era certa a meu lado A divina presença impertinente Do teu vulto calado E paciente… E lutei, como luta um solitário Quando alguém […]

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Dueto José Maria Carreiro¹ Um fechar de olhos, o toque do lençol no rosto deslocam o corpo do eixo em que se segura há uma coreografia nos movimentos, um dueto ou a imagem inicial de duas cordas do mesmo violoncelo em vibração concertada. Os músculos jogam em coreografia as sensações unificam-se e os sentimentos resultam […]

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