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Paul Géraldy – Versos na tarde

Eu e você – Meditação XVIII
Paul Géraldy ¹

A gente começa a amar
por simples curiosidade,
por ter lido num olhar
certa possibilidade.

E como, no fundo, a gente
se quer muito bem,
ama quem a ama, somente
pelo gosto igual que tem.

Depois, a gente começa
a repartir dor por dor.
E se habitua depressa
a trocar frases de amor.

E, sem pensar, vai falando
de novo as que já falou…
E então, continua amando
só porque já começou.

(tradução de Guilherme de Almeida)

¹ Paul Géraldy
* Paris, França – 12 de maio de 1885 d.C
+ Neuilly-sur-Seine, França – 10 de março de 1983 d.C


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Paul Verlaine – Versos na tarde

Arieta
Paul Verlaine ¹

Chora o meu coração
Como chove na rua;
Que lânguida emoção
Me invade o coração?

Ó frio murmúrio
Nas telhas e no chão!
Para um coração vazio,
Ó aquele murmúrio

Chora não sei que mal
Meu coração cansado.
Um desengano? – Qual!
É sem causa este mal

É a maior dor – dói tanto -
Não se saber por que,
Sem ódio ou amor, no entando,
O coração dói tanto.

tradução de Guilherme de Almeida

¹ Paul Verlaine
* Metz, França – 30 de Março de 1844 d.C
+ Paris, França – 8 de Janeiro de 1896 d.C


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Paul Eluard – Versos na tarde

Gritar
Paul Eluard ¹

Aqui a acção simplifica-se
Derrubei a paisagem inexplicável da mentira
Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes
Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos
Ponho-me a gritar
Todos falavam demasiado baixo falavam e escreviam

Demasiado baixo

Fiz retroceder os limites do grito

A acção simplifica-se

Porque eu arrebato à morte essa visão da vida
Que lhes destinava um lugar perante mim

Com um grito

Tantas coisas desapareceram
Que nunca mais voltará a desaparecer
Nada do que merece viver

Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu coração as estações
As estações dos homens os seus astros
Trémulos de tão semelhantes serem

E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria

E esse fogo nu que pesa
Torna a minha força suave e dura

Eis aqui a amadurecer um fruto
Ardendo de frio orvalhado de suor
Eis aqui o lugar generoso
Onde só dormem os que sonham
O tempo está bom gritemos com mais força
Para que os sonhadores durmam melhor
Envoltos em palavras
Que põem o bom tempo nos meus olhos

Estou seguro de que a todo o momento
Filha e avó dos meus amores
Da minha esperança
A felicidade jorra do meu grito
Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco.

¹ Eugène-Émile-Paul Grindel
* Saint-Denis, França – 1895 d.C
+ Paris, França – 1952 d.C

Paul Éluard, in “Algumas das palavras” dom quixote, 1977
trad. António Ramos Rosa e Luisa Neto Jorge


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Louis-Ferdinand Céline – Versos na tarde

Viagem ao fim da noite
Louis-Ferdinand Céline ¹

Viajar é muito útil, faz trabalhar a
imaginação. O resto não passa de
decepções e fadigas. A nossa viagem é
inteiramente imaginária. Daí a sua
força.

Vai da vida até à morte. Homens,
animais, cidades e coisas, é tudo
imaginado. Um romance, apenas uma
história fictícia. Di-lo Littré, que nunca
se engana.

Aliás, à primeira vista todos podem
fazer o mesmo. Basta fechar os olhos.
É do outro lado da vida.

¹ Coubervoie, França – 27 de maio de 1894 d.C
Coubervoie, França – 1 de julho de 1961 d.C


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Paul Éluard – Versos na tarde

A curva dos teus olhos
Paul Éluard ¹

A curva dos teus olhos
dá a volta ao meu peito
É uma dança de roda e de doçura.

Berço noturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

in “Algumas das Palavras”
(Tradução de António Ramos Rosa)

¹ Eugène-Émile-Paul Grindel
* Saint-Denis, França – 1895 d.C
+ Paris, França – 1952 d.C


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