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Brecht – Versos na tarde

O Pão do Povo
Bertold Brecht ¹

A justiça é o pão do povo.
Às vezes bastante às vezes pouca.
Às vezes de gosto bom, às vezes de gosto ruim.
Quando o pão é pouco, há fome.
Quando o pão é ruim, há descontentamento.
Fora com a justiça ruim!
Cozida sem amor, amassada sem saber!
A justiça sem sabor, cuja casca é cinzenta!
A justiça de ontem, que chega tarde demais!
Quando o pão é bom e bastante
o resto da refeição pode ser perdoado.
Não pode haver logo tudo em abundância.
Alimentado do pão da justiça
Pode ser feito o trabalho
De que resulta a abundância.
Como é necessário o pão diário
É necessária a justiça diária.
Sim, mesmo várias vezes ao dia.
De manhã, à noite, no trabalho, no prazer.
No trabalho que é prazer.
Nos tempos duros e nos felizes.
O povo necessita do pão diário
Da justiça, bastante e saudável.
Sendo o pão da justiça tão importante
Quem, amigos, deve prepará-lo?
Quem prepara o outro pão?
Assim como o outro pão
Deve o pão da justiça,
Ser preparado pelo povo.
Bastante, saudável, diário.

¹ Bertold Brecht
* Augsburg, Alemanha – 10 de Fevereiro de 1898 d.C
+ Berlim, Alemanha – 14 de Agosto de 1956 de 1956 d.C


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Brecht – Versos na tarde

Poema
Bertolt Brecht ¹

Toda manhã, para ganhar meu pão
Vou ao mercado, onde se compram mentiras.
Cheio de esperança
alinho-me entre os vendedores.

¹ Bertolt Brecht
* Augsburg, Alemanha – 10 de Fevereiro de 1898 d.C
+ Berlim, Alemanha – 14 de Agosto de 1956 de 1956 d.C


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Heidegger – Cartas na tarde

“Cara Hannah!

A insinuação de que não cumprimento judeus é uma difamação tão baixa que a anotarei aliás para mim futuramente. Como esclarecimento de como me comporto em relação aos judeus, cito apenas os seguintes fatos: quem me enviou há algumas semanas um trabalho extenso para uma leitura urgente é um judeu. Os dois bolsistas da sociedade beneficente que foram alocados por mim são judeus. Quem conseguiu através de mim uma bolsa para Roma é um judeu. Quem quiser chamar isso de ‘anti-semitismo furioso’ pode fazê-lo. De resto, sou tão anti-semita hoje em relação a questões universitárias quanto há dez anos.

Saudações cordiais.
M”
Trecho de carta de 1932 de Heidegger ¹ para Hanna Arendt

¹ Martin Heidegger
* Meßkirch, Alemanha – 26 de Setembro de 1889 d.C
+ Friburgo, Alemanha – 26 de Maio de 1976 d.C
ARENDT, Hannah; HEIDEGGER, Martin. Correspondência: 1925-1975. Trad. Marco Casanova.Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.)


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Hannah Arendt – Cartas na tarde

“Caro Martin,

Dirijo-me a você com a antiga certeza e com o velho pedido: não se esqueça de mim e não esqueça o quão profundamente sei que o nosso amor foi a bênção da minha vida. Nada é capaz de abalar esse saber – e isso mesmo agora, no momento em que encontrei uma pátria e um porto seguro para o meu desespero (…)
Escuto às vezes algo sobre você. No entanto, tudo envolto em um tom particularmente estranho e indireto: no tom que sempre está presente na elocução dos nomes famosos. De um modo quase torturante, gostaria tanto de saber como você está, em que está trabalhando e como Freiburg o está recebendo!

Um beijo meu em sua fronte e em seus olhos.
Sua Hannah ¹
Trecho de carta de 1929

¹ Hanna Arendt
* Hanôver, Alemanha – 14 de outubro de 1906 d.C
+ Nova Iorque, Estados Unidos – 4 de dezembro de 1975 d.C
(ARENDT, Hannah; HEIDEGGER, Martin. Correspondência: 1925-1975. Trad. Marco Casanova.Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.)


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Hanna Arendt – Versos na tarde

Canção de verão
Hanna Arendt ¹

Através da madura plenitude do verão
Deixo minhas mãos escorregarem
Minhas articulações dolorosamente se ampliarem
Até a obscura e pesada terra.

Campos que tonitruantes de erguem
Sendas que a floresta encobre
Em rigoroso silêncio as coisas nos pedem:
Que amemos no sofrimento com coração nobre.

Que o sacrifício, que a abundância
Do sacerdote a mão não resseque,
Que em distinto e claro sossego
A alegria não nos abandone.

Pois as águas superfluem,
Cansaço quer nos destruir
E deixamos ser nossa vida
Ao amarmos, ao vivermos.

Poema de H. Arendt endereçado a M. Heidegger

¹ Hanna Arendt
* Hanôver, Alemanha – 14 de outubro de 1906 d.C
+ Nova Iorque, Estados Unidos – 4 de dezembro de 1975 d.C

(ARENDT, Hannah; HEIDEGGER, Martin. Correspondência: 1925-1975. Trad. Marco Casanova.Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.)


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Heidegger – Versos na tarde

Bela…
Heidegger ¹

No acre aroma da longa dor
Cresceu tua beleza, ao unir
Suavidade e selvageria em teu elevado amor,
Ao banhar inicialmente seu brilho, sua brasa
Em lágrimas inesquecivelmente guardadas,
Em uma saudade nunca apaziguada “no eu e no tu”.

Poema de M. Heidegger endereçado a H. Arendt

¹ Martin Heidegger
* Meßkirch, Alemanha – 26 de Setembro de 1889 d.C
+ Friburgo, Alemanha – 26 de Maio de 1976 d.C

(ARENDT, Hannah; HEIDEGGER, Martin. Correspondência: 1925-1975. Trad. Marco Casanova.Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.)


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Hanna Arendt – Versos na tarde

Sonho
Hanna Arendt ¹

Pés flutuando em patética cintilância
Eu mesma
Também eu danço,
Liberta do peso
Na escuridão, no vazio imenso.
Oprimidos espaços de tempos passados
Transpassadas amplidões
Perdida solidão
Começar a dançar, dançar
Eu mesma
Também eu danço.
Ironicamente destemida,
De nada me faço esquecida.

Conheço o vazio
Conheço o peso
Danço, danço
Em uma irônica cintilância.

Poema de Hanna Arendt endereçado a Martin Heidegger

¹ Hanna Arendt
* Hanôver, Alemanha – 14 de outubro de 1906 d.C
+ Nova Iorque, Estados Unidos – 4 de dezembro de 1975 d.C


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Heidegger – Versos na tarde

Acontecendo para nós *
Heidegger ¹

Como ela liberou seu último som
Esta senda da montanha
Em meio ao mais elevado surgimento
De sua mais profunda chegada…

O que se anuncia – acontecendo para nós – como futuro?

Nada além afinal daquela elevada
Torrente da pura chama ardente,
Sagradamente guardada,
Pensada suavemente.

* Poema de Heidegger endereçado a Hanna Arendt
¹ Martin Heidegger
* Meßkirch, Alemanha – 26 de Setembro de 1889 d.C
+ Friburgo, Alemanha – 26 de Maio de 1976 d.C

(ARENDT, Hannah; HEIDEGGER, Martin. Correspondência: 1925-1975. Trad. Marco Casanova.
Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.)


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Nietzsche – Versos na tarde

Ó Minha Felicidade *
Nietzsche ¹

Revejo os pombos de São Marcos:
A praça está silenciosa; ali se repousa a manhã.
Indolentemente envio os meus cantos para o seio da suave
frescura,
Como enxames de pombos para o azul
Depois torno a chamá-los
Para prender mais uma rima às suas penas.
— Ó minha felicidade! Ó minha felicidade!

Calmo céu, céu azul-claro, céu de seda,
Planas, protector, sobre o edifício multicor
De que gosto, que digo eu?… Que receio, que invejo…
Como seria feliz bebendo-lhe a alma!
Alguma vez lha devolveria?
Não, não falemos disso, ó maravilha dos olhos!
— Ó minha felicidade! Ó minha felicidade!

Severa torre, que impulso leonino
Te levantou ali, triunfante e sem custo!
Dominas a praça com o som profundo dos teus sinos…
Serias, em francês, o seu «accent aigu»!
Se, como tu, eu ficasse aqui,
Saberia a seda que me prende…
— Ó minha felicidade! Ó minha felicidade!

Afasta-te, música. Deixa primeiro as sombras engrossar
E crescer até à noite escura e tépida.
É ainda muito cedo para ti, os teus arabescos de ouro
Ainda não cintilam no seu esplendor de rosa;
Resta ainda muito dia,
Muito dia para os poetas, fantasmas e solitários.
— Ó minha felicidade! Ó minha felicidade!

Nietzsche, in “A Gaia Ciência”

¹ Friedrich Wilhelm Nietzsche
* Weimar, Alemanha – 15 de Outubro de 1844 d.C
+ Weimar, Alemanha – 25 de Agosto de 1900 d.C

Ps. Mantida a grafia do tradutor


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