1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (9 votos, média: 5,00 de 5)
Loading ... Loading ...

Fernando Pessoa – Versos na tarde

Lisbon Revisited
Álvaro de Campos/Fernando Pessoa ¹

Nada me prende a nada.
Quero cincoenta coisas ao mesmo tempo.
Anceio com uma angustia de fome de carne
O que não sei que seja –
Definidamente pelo indefinido…
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstratas e necessarias.
Correram cortinas por dentro de todas as hypotheses que eu poderia ver da rua.
Não ha na travessa achada o numero de porta que me deram.

Accordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exercitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta – até essa vida…

Comprehendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tedio que é até do tedio arroja-me á praia.

Não sei que destino ou futuro compete á minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do Sul impossivel aguardam-me naufrago;
Ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra cousa, nem cousa nenhuma…
E, no fundo do meu espirito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos ultimos da alma, onde memóro sem causa
(E o passado é uma nevoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longinquas
Onde supuz o meu ser,
Fogem desmantelados, ultimos restos
Da ilusão final,
Os meus exercitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cohortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infancia pavorosamente perdida…
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui…
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos, todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligadas por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fóra de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo –,
Transeunte inutil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruido dos ratos e das tabuas que rangem
No castello maldito de ter que viver…

Outra vez te revejo.
Sombra que passa atravez de sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir…

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho magico em que me revia identico,
E em cada fragmento fatidico vejo só um bocado de mim –
Um bocado de ti e de mim!…

¹ Fernando Antonio Nogueira Pessoa
* Lisboa, Portugal – 13 de Junho de 1888 d.C
+ Lisboa, Portugal – 30 de Novembro de 1935 d.C
–>> biografia


, , , , , ,
1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (14 votos, média: 5,00 de 5)
Loading ... Loading ...

Joaquim Pessoa – Versos na tarde

Outono
Joaquim Pessoa ¹

Uma lâmina de ar
Atravessando as portas. Um arco,
Uma flecha cravada no Outono. E a canção
Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
Quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
Cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
Como se, de repente, não houvesse mais nada senão
A imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
Que a minha boca recusa. É outono

¹ Joaquim Pessoa
* Barreiro, Portugal – 22 de fevereiro de 1948 d.C


, , ,
1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (1 votos, média: 5,00 de 5)
Loading ... Loading ...

José Saramago – Versos na tarde

Intimidade
José Saramago ¹

No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

¹ José de Sousa Saramago
* Azinhaga, Portugal – 16 de Novembro de 1822 d.C
* Ilhas Canárias, Espanha – 19 de junho de 2010 d.C


, , , , ,
1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (10 votos, média: 5,00 de 5)
Loading ... Loading ...

Adelino Ínsua – Versos na tarde

Se o teu olho é simples, todo o teu corpo será luminoso
Adelino Ínsua ¹

Começa por atentar ao que se passa entre a urze e as abelhas
à doce árvore entre a terra e o céu.
Sobe às alturas das pedras nuas,
estão difíceis estes modernos tempos para a contemplação,
na rarefacção dos lugares teofânicos.
Toma nos lugares mais baixos a beleza
de uma azeitona no silêncio do meio-dia estival.
Contemplações insignificantes
contemplações mais magnificentes.
Depois deves numerá-las: a cerimónia.
Para que germinem no teu vaso de ouro
e sobre elas desça o orvalho e o perfume dos cedros.

¹ Adelino Ínsua
* Porto, Portugal – 1956 d.C


, , ,
1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (9 votos, média: 5,00 de 5)
Loading ... Loading ...

Sylvia Beirute – Versos na tarde

Conoscenza
Sylvia Beirute ¹

{o teu reconhecimento é a tua dependência},
não o deixes passar da fase da costura.
surge. insurge. inespera.
adquire expressões através do
eco difuso dos vegetais, coloca-te
nas ranhuras da madeira.
há uma vida imprópria algures.
pode não ser como aquela que espera
na plumagem de uma memória
por antecipação, mas protege o silêncio
e não deixa coagular o sangue.
{o teu reconhecimento é a tua dependência},
e quanto mais o memorizares
mais afastado estarás
dos lados obtusos de quem te deseja habitar
e da semêntica temporal
das pessoas que te pedirão um
poema bonito,
e nada pior do que escrever
um poema bonito.

¹ Sylvia Beirute
* Faro,Portugal – 1948 d.C
in Uma Prática para Desconserto


, , ,
1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (15 votos, média: 4,93 de 5)
Loading ... Loading ...

Sandra Costa – Versos na tarde

Existimos de forma concisa
Sandra Costa ¹

Num gomo de laranja, no feixe
De luz oblíquo ao parapeito da janela,
Nas superfícies das paredes que sobem
Até ao tecto da casa, no vidro outrora
E na gota de chuva e quando cessa a chuva
No troar das andorinhas, existimos de forma
Concisa

Não tendo o mundo outra forma de existir.

¹ Sandra Costa
* S. Mamede do Coronado, Portugal – 1971 d.C


, , ,
1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (12 votos, média: 4,83 de 5)
Loading ... Loading ...

Educação: Crase em questão

Com educação não há humilhação.
Se dependesse do ex-deputado João Herrmann Neto, a crase estaria com os dias contados. É de sua autoria o projeto de lei 5.154, de 2005, que extingue o uso do acento grave para indicar a ocorrência de crase. O fenômeno fonético-sintático continuará existindo, diz o projeto, sugerindo equivocadamente que um fato lingüístico se sujeite ao crivo da lei.

Chegou-me ao conhecimento a iniciativa do parlamentar através da revista Língua Portuguesa, a qual, em sua edição de novembro de 2005, estampa opiniões de renomados especialistas no assunto, como Evanildo Bechara – defensor do citado sinal – e Celso Pedro Luft – para quem se justificaria o sinal diacrítico nos casos em que sua presença evita ambigüidade, como em “A menina cheira a rosa” (aspira o perfume do flor) e “A menina cheira à rosa” (exala o perfume da flor).

Marcas vermelhas

Anos a fio, transmitindo informações sobre a língua, sinto-me modestamente credenciado a refletir sobre o assunto. Da experiência de sala de aula, fica, para mim, a lição de que se trata de tópico complexo. Crasear com segurança implica relativo domínio da sintaxe da língua no que tange às relações de regência, razão por que, talvez, o aprofundamento na questão devesse ser feito durante o ensino médio.

Não poucas vezes os manuais didáticos se embrenham nos mistérios da crase ainda no ensino fundamental, o que pode ser contraproducente e (o que é pior!) frustrante para os aprendizes, que acabam por não extravasar seus pendores para a escrita em razão de marcas e marcas vermelhas em seus textos escolares.

O aforismo de Gullar

O que dizer, por exemplo, do sinal da crase com pronomes relativos? Basta que se compare, ilustrativamente, “A situação à qual cheguei” com “A situação a que cheguei” para verificar quanta ginástica tem de fazer o professor a fim de clarear um caso desses e não ficar simplesmente na substituição do antecedente por um elemento masculino, o que resultaria em construções do tipo “O local ao qual cheguei” e “O local a que cheguei”.

Como se vê, trata-se de assunto que tem suas complexidades e que deve ser ensinado pausadamente à medida que se vão apresentando aportes sintáticos. Isso, por si, justificaria a extinção do sinal como queria o deputado?

Na matéria publicada em Língua Portuguesa, João Herrmann argumenta que a crase, desde sua instituição, não tem feito outra coisa senão humilhar muita gente. É bem possível que esteja subjacente ao argumento do legislador o aforismo “A crase não foi feita para humilhar ninguém”, criado, jocosamente, em 1955, pelo poeta maranhense Ferreira Gullar, um conhecedor profundo da arte de crasear. Quem lê a biografia do poeta, fica sabendo que ele, na juventude, debruçou-se por dois anos sobre estudos gramaticais, após ser advertido por erros de português em uma de suas redações. Um exemplo célebre de que se pode conciliar criatividade com técnica, pois Gullar se tornou um de nossos mais festejados poetas…

Uma política de simplificação

Jocosidade à parte, o aforismo gullariano nos permite outra leitura. Não só a crase, mas a gramática em si, ou as normas da língua culta, nada disso foi feito para humilhar. Tudo isso é conhecimento e requer de nós esforço para o seu domínio. Lembra-me aqui texto de José Carlos de Azeredo em que esse estudioso enfatiza que nossos estudantes fazem, ainda no ensino fundamental, importantes reflexões sobre o mundo das ciências e seria despropositado imaginá-los incapazes de refletir também sobre a língua. Cabe, evidentemente, ao educador dosar a exigência nessas reflexões, sob pena de preterir os rudimentos indispensáveis à aprendizagem, como tivemos a oportunidade de comentar em “Um diagnóstico preciso”, publicado neste Observatório.

O projeto do deputado João Herrmann concede às editoras de livros o prazo de três anos para se adaptarem à lei. É evidente, também, que, se aprovada, a nova legislação levará à obsolescência gráfica nosso atual patrimônio livresco, o que certamente implicará vultosos gastos.

Subjaz, a nosso juízo, à iniciativa do parlamentar a convicção de que temos um ensino precário e talvez seja plausível intervir em um aspecto do sistema gráfico que oferece dificuldade aos usuários. Na opinião da professora Maria Helena de Moura Neves, “uma iniciativa desse tipo teria de fazer parte de uma política global de simplificação das notações diacríticas, que não perdesse de vista o sistema como um todo”, posição com a qual concordamos, embora achemos que, na situação em que se encontra a educação brasileira, o projeto – ainda que ampliado na direção do que sugere a professora – está muito longe de ser prioridade. Com uma educação de verdade, certamente a crase
Por Walter Rossignoli/Observatório da Imprensa

, , , , ,
1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (10 votos, média: 4,90 de 5)
Loading ... Loading ...

Luiz Ene – Versos na tarde

A vida acontece
Luiz Ene ¹

A vida acontece
A todo o momento
E dela vivemos
Pequenos fragmentos
Que falam do todo
Um piscar de olhos
Um bater de asas
Esquivo vislumbre
Lembrança distante
Vive-se toda a vida
Num único momento

¹ Luiz Ene
* Lisboa, Portugal


, , ,
1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (15 votos, média: 4,93 de 5)
Loading ... Loading ...

Sandra Costa – Versos na tarde

O tamanho impensável das flores
Sandra Costa ¹

O tamanho impensável das flores
Prende-me ao chão

E não serve de nada encontrar um lugar
Onde possa ser outra coisa qualquer.

¹ Sandra Costa
* S. Mamede do Coronado, Portugal – 1971 d.C


, , ,
1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (9 votos, média: 5,00 de 5)
Loading ... Loading ...

Eugenio de Andrade – Versos na tarde

É urgente o amor
Eugenio de Andrade ¹

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

¹ José Frotinhas Rato
* Fundão, Portugal – 19 de Janeiro de 1923 d.C
+ Porto, Portugal – 13 de Junho de 2005 d.C
ganhou o Prêmio Camões da Língua Portuguesa em 2001


, , , ,
1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (15 votos, média: 5,00 de 5)
Loading ... Loading ...

Julieta Lima – Versos na tarde

Poema
Julieta Lima ¹

Invento-te
Invento-me
Sem formas
Nem cor
Nem perfis
Nem tela!
Nós dois…
Esculpidos
No silêncio de uma praia
Que a anarquia do mar
Afaga e flagela!
Invento-te
Barco transparente
Em indecisos traços
Adivinhando
Ais libidinosos
No sexo da água
Em que me torno
Ousada ondulada bela
A estremecer
Quando de manso
Me rasga capitosa
A volúpia acerada
De uma vela…

¹ Julieta Lima
* Olhão, Portugal – 1964 d.C


, , ,
1 Estrelas2 Estrelas3 Estrelas4 Estrelas5 Estrelas (18 votos, média: 5,00 de 5)
Loading ... Loading ...

Sebastião Alba – Versos na tarde

Há poetas com musa
Sebastião Alba ¹

Há poetas com musa. Muitos.
Eu, neste jardim do Éden,
a cargo do município,
onde um velho destece a sua vida
e, baixando o olhar,
ainda lhe afaga a trama,
quando a poesia se afoita,
amuo
na agrura de, ao acordar,
tê-la sonhado

¹ Dinis Albano Carneiro Gonçalves
* Braga, Portugal – 11 de março de 1940 d.C
+ Braga, Portugal – 14 de outubro de 2000 d.C


ad#Retangulo – Anuncios – Duplo]

, , ,