Aíla Sampaio
Poetisa e Mestra em Literatura
Professora da Unifor – Universidade de Fortaleza, Ceará

CARLOS DRUMMOND, uma das maiores vozes de nossa literatura contemporânea, sofre, constantemente, deturpações de sua obra.

A internet tem sido uma ferramenta eficaz ao democratizar a publicação de textos literários, mas tem, por outro lado, dado espaço a imbróglios relativos à autoria. Esta pesquisa mostra a profusão de textos apócrifos no mundo virtual, bem como equívocos quanto aos créditos dados em poemas e crônicas de escritores consagrados na literatura universal

O mundo virtual ampliou os espaços da literatura, facilitou a publicação de textos literários em blogs e sites e, sem dúvida, democratizou o acesso de estudantes e internautas em geral a textos antes restritos aos livros. Essa facilidade, entretanto, não é totalmente benéfica. Pesquisas sérias devem ser feitas em sites sérios, pois a democracia só é positiva quando está na mão de quem tem capacidade e caráter para exercê-la. O espaço virtual é terra de todos e de ninguém.

Há quem se preocupe com a credibilidade do que posta, e cita autorias e fontes; há pessoas mal intencionadas, que utilizam o ócio para fazer confusão; e há os incautos, que recebem e repassam textos sem qualquer preocupação com a autenticidade deles. Claro que ninguém é obrigado a saber de cor a autoria de todos os textos, mas, antes de repassá-los ou utilizá-los em pesquisas escolares e acadêmicas, bem como usá-los em avaliações e provas, deve-se conferir a autoria em livros ou com profissionais da área desse conhecimento.

Das atribuições

Não bastasse a omissão da autoria, que constitui um crime previsto na lei nº 10.695, relativa à violação de direito autoral, os escritores estão sendo vítimas de outro engodo: a atribuição de autoria. Arnaldo Jabor, Luís Fernando Veríssimo, Chico Buarque, Dráuzio Varela e Mário Prata, por exemplo, estão vivos e podem rechaçar a atribuição, embora não possam detê-la. Já Shakeaspeare, Clarice Lispector, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Charles Chaplin, Fernando Pessoa, entre outros, circulam na internet como autores de textos que nunca escreveriam e nada podem fazer. O pior é que pessoas utilizam como fonte de pesquisa sites abertos a contribuições, como o www.pensador.info; qualquer pessoa, por mais ingênua que seja, vasculhando as páginas desse site, percebe que um mesmo texto é postado várias vezes com autorias diferentes, tal como na página da Wikipédia, onde qualquer internauta pode se cadastrar e postar o que quiser. Já foram criados blogs e comunidades no Orkut para esclarecer dúvidas quanto a autorias, contribuindo, assim, para que o espaço virtual não seja apenas um celeiro de engôdos, um desserviço ao aprendizado da literatura, mas um espaço legítimo que pode divulgá-la e servir de fonte de conhecimento, com credibilidade.

Drummonds

Carlos Drummond de Andrade, nome consolidado na literatura brasileira, tem estilo discreto e comedido, avesso, entretanto, a todo conservadorismo estético. Deixou uma obra consistente, acrescida dos poemas eróticos, de igual qualidade, desengavetados após sua morte. Não bastassem esses acréscimos, interneteiros insatisfeitos se deram o direito de atribuir-lhe versos que não constam na sua bibliografia, como é o caso do poema “Viver não dói”, amplamente postado em blogs e repassado em e-mails e scraps: (Texto I)

Vanessa Lampert, uma das pessoas sérias, no mundo virtual, que estão lutando pelo crédito aos verdadeiros autores, fez uma análise interessante desse texto e deu uma explicação bem embasada. Em seu blog, ela discorre sobre o possível passo a passo da construção do poema, a começar pela crônica “As possibilidades perdidas”, de Martha Medeiros, publicada em 20 de agosto de 2002, no site Almas gêmeas.

Ela diz que Martha se inspirou em um verso do poema “Canção”, do poeta mineiro Emílio Moura, amigo e contemporâneo de Drummond: “Viver não dói. O que dói / é a vida que se não vive”, discorreu sobre a vida e concluiu com uma interrogação seguida de uma resposta: “Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: se iludindo menos e vivendo mais”.

A crônica de Martha, transformada em poema, recebeu o acréscimo de um texto da novelista inglesa Mary Cholmondeley : “A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-se do sofrimento, também perde a felicidade.” ( Em inglês: “Every day I live I am more convinced that the waste of life lies in the love we have not given, the powers we have not used, the selfish prudence that will risk nothing and which, shirking pain, misses happiness as well.”), com o enxerto final pinçado do livro You gotta keep dancin, de Tim Hansel, escrito logo após o acidente que ele sofreu e inspirado nas dores intermitentes que o perseguiram a partir daí. Ele diz que não podemos evitar a dor, mas podemos evitar a alegria: “Pain is inevitable, but misery is optional. We cannot avoid pain, but we can avoid joy.” Há muitos outros textos atribuídos ao poeta itabirano. O segundo mais citado é “Conselho de um velho apaixonado”: (Texto II)

Leitura consistente

Esse poema não consta em nenhum dos seus livros, nem se sabe ao certo quem é o verdadeiro autor. Também não constam em sua Obra Completa: “Desejo(s) e/ou Síntese da Felicidade” (“Desejo a você/Fruto do mato/Cheiro de jardim/Namoro no portão/Domingo sem chuva´´); “Reverência ao destino” (“Falar é completamente fácil, quando se têm palavras em mente que expressem sua opinião), que vem sempre acrescido dos versos do poema intitulado: “Eterno”, de autoria dele; e, também, “Inconfesso Desejo” (“Queria ter coragem / Para falar deste segredo / Queria poder declarar ao mundo / Este amor / Não me falta vontade /Não me falta desejo”).

As falsas atribuições ao poeta proliferam na Net como uma epidemia. A ele creditam: “Almas Perfumadas” ( Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daqueles que conseguimos acender na Terra), de Ana Claúdia Saldanha Jácomo; “Máscara”, de Dante Milano; a frase “Não sei quando virá o amanhecer, por isso abro todas as portas” (“Not knowing when the dawn will come I open every door.”), de Emily Dickinson; “Recomeçar” (Não importa onde você parou,/em que momento da vida você cansou,/o que importa é que sempre é possível e necessário recomeçar) foi, inclusive, lido por Ana Maria Braga em seu programa “Mais você”, com com o título “Faxina da alma”e os créditos dados a Drummond.

A criação é, no entanto, de Paulo Roberto Gaefke e, em algumas versões deturpadas, apresenta ainda os versos VII – de “Da Minha Aldeia” no final: (Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer/Porque eu sou do tamanho do que vejo E não, do tamanho da minha altura) que são de Alberto Caeiro, ( “O Guardador de Rebanhos”) um dos´ inúmeros heterônimos de Fernando Pessoa.

Trechos

TEXTO I

Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!!!

A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos /…/A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.

TEXTO II

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida. Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.

Acerca dos Veríssimos inverossímeis

Luís Fernando Veríssimo, escritor que também se dedica à música instrumental, é um dos prosadores brasileiros a quem os internautas mais atribuem autoria a frases ou textos completos.

Luís Fernando Veríssimo, cujos textos são sóbrios e bem humorados, na Internet, aparece como autor de divagações que mudam o seu estilo: ora ele é romântico, conselheiro, ora adere ao filão da autoajuda. Ao ler a crônica “Quase”, ele mesmo ficou surpreso ao descobrir que a obra levava seu nome e estava amplamente difundida em slides:(TextoIII)

Em 2005, no Salão do Livro de Paris, Veríssimo recebeu uma coletânea de textos de escritores brasileiros traduzidos para o francês, das mãos da própria autora, e se surpreendeu ao ver que o seu escolhido era “Quase”, cuja tradução ficara “Presque”. Esclareceu o equívoco com a organizadora e, ao retornar ao Brasil, contou o episódio na sua coluna do Jornal Zero Hora, relatando episódios, em tom jocoso, sobre o tal texto:(Texto IV)

Das descobertas

Não muito tempo depois recebeu uma carta de uma estudante catarinense, Sarah Westphal Batista da Silva, de 21 anos, contando ser a verdadeira autora. A revelação valeu uma reportagem na capa do Caderno Variedades do jornal Diário Catarinense (e também no clic RBS, o portal da RBS) feita pelo repórter Felipe Lenhart, que descobriu a jovem estudante depois de muitas navegadas pelas ruas da internet.

“A felicidade pode demorar”, cujo título real é “O amor e a vida” ou “Uma reflexão sobre o amor e a vida” também não é do prosador gaúcho Luís Fernando Veríssimo, foi escrito, em verdade, por François de Bitencourt:. Veja-se em destaque: (Texto V)

“Tipo assim”, de Kledir Ramil, também é arbitrariamente postado como de Luís Fernando: (Texto VI)

O primeiríssimo

Um dos mais espalhados pelo mundo virtual, em nome do cronista gaúcho, é “Um dia de Modess na vida de um homem”. O texto é, de acordo com Beth Vidigal, de três jovens jornalistas – Nina Lemos, Giovana Hallack e Raquel Affonso ( conforme indica o site 02 Neurônio).

O autor da crônica assina “Rolinha”. Já a crônica intitulada “Diga Não às Drogas”, que faz a referência aos “cantores e compositores goianos” ou aos “músicos de Goiás” circula também com o título de “Depoimento Emocionado de Luiz Fernando Veríssimo Sobre sua Experiência com as Drogas” igualmente não é dele e, embora tenha sido publicado na “Revista Veja” como texto sem autor, ninguém apareceu para assumir a criação: (Texto VII)

Sempre foram tantas atribuições de autoria feitas a Veríssimo que ele, já em 18 de janeiro de 2002, escreveu no Estadão, sob o título “Apócrifos”, conforme: (Texto VIII):

Quintanas e Quintana

Outro gaúcho bastante agraciado com autorias falsas é o poeta Mário Quintana. O texto “Não quero alguém que morra de amor por mim”, um dos mais divulgados, inclusive em belos slides, é de Adriana Britto e tem como título “Certezas”. Leiamos, como exemplo, uma parte dele: (Texto IX)

Emílio Pacheco, pesquisador de texto apócrifos na Internet, já fez uma lista de “falsos Quintanas” no seu artigo homônimo e deu uma boa contribuição aos que querem levar a sério a bela atitude de repassar textos literários por e-mails ou scraps no Orkut.

Leiamos um dos mais repetidos nas páginas virtuais: “Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra é bobagem. (…) Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação”. Eis o texto.

Em forma de versos ou em prosa, esse texto circula pela internet em slides, montagens, em perfis do Orkut ou mesmo em forma de mensagens. A dupla Bruno e Marrone, inclusive, o declamou em um desses seus shows pelo país.

Tornou-se comum, no mundo virtual, a colagem de textos de autores diferentes… nem sempre o sentimento da pessoa se traduz em um só poema e ela faz o recorte de versos, cola, e esquece de dar o crédito ao(s) autor(es).

Nesse que citamos há pouco, há uma frase famosa de O Pequeno príncipe, de Saint-Exupery: “Tu te tornas eternamente responsável por tudo aquilo que cativas”.

Já a frase “Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação” foi retirada de um provérbio árabe. Outro enxerto foi feito há pouco tempo: “para o homem provar que é homem, não precisa ter mil mulheres, basta fazer uma feliz”.

O número um

Imbatível em quantidade de reproduções na Net é o texto que começa da seguinte maneira:: “Com o tempo você vai percebendo que, para ser feliz com outra pessoa, você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela”, que se encerra com a afirmação: “O segredo é não correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim para que elas venham até você”.

Leia mais…

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Umberto Eco: O novo prazer do poder

Umberto Eco ¹

Os eleitores estavam acostumados com que a vida dos políticos fosse governada por dois princípios, o primeiro deles é melhor resumido por um apimentado ditado italiano: “Megghiu cumannari c’a fottiri”. Traduzindo de uma forma casta, isso quer dizer: “exercer o poder é melhor do que sexo”. O outro é que os homens poderosos normalmente desejavam mulheres como Mata Hari, Sarah Bernhardt ou Marilyn Monroe.

O que é espantoso é que muitos políticos ou empresários de hoje não sucumbem, digamos, à tentação de desviar dinheiro de obras públicas, mas, sim, às seduções de prostitutas de luxo que comandam somas mais altas do que as exigidas por Madame de Pompadour em sua época. E se essas garotas de programa profissionais não são de seu agrado, eles procuram outras que fornecem serviços mais especializados.

Além disso, muitos parecem buscar o poder especificamente com esperança de demonstrá-lo entre quatro paredes. Veja bem, grandes homens em toda a história não foram indiferentes aos prazeres da carne. Aqui na Itália, embora alguns líderes políticos de outrora tenham talvez observado uma certa austeridade, Júlio César ia alegremente para a cama com centuriões, nobres romanas e rainhas egípcias igualmente. Isso também vale para outros lugares: o Rei Sol tinha amantes em abundância, o rei Victor Emmanuel 2º da Itália perseguia a sua Rosina e, quanto ao presidente norte-americano John F. Kennedy… Quanto menos dissermos, melhor. Entretanto, esses homens pensavam nas mulheres (ou nos garotos) como uma espécie de descanso e recreação para um bom soldado. Em outras palavras, a ordem do dia era conquistar o país da Báctria, humilhar o chefe gaulês Vercingetorix, dominar todos os inimigos desde os Alpes até as Pirâmides, ou unir a Itália. O sexo era um bônus, como um martíni servido no final de um dia exaustivo. Por outro lado, hoje em dia, os homens no poder parecem desejar em primeiro lugar, e acima de tudo, passar uma noite festejando com dançarinas de boate, e as grandes iniciativas nunca fazem parte do cenário.

Se os heróis do passado liam Plutarco para se divertir, seus colegas modernos sintonizam certos canais de TV depois da meia noite ou entram em sites sugestivos na internet. Uma recente pesquisa para buscar informações sobre o padre e místico italiano Padre Pio de Pietrelcina na internet gerou 1,4 milhão de resultados. Nada mal. Mas uma busca por pornografia encontrou 130 milhões (sim, 130 milhões) de sites. Uma vez que “Jesus” é um termo de busca mais específico do que “pornografia”, decidi buscar a palavra “religião” para poder comparar: a busca produziu pouco mais de 9 milhões de sites como resultado – uma gota num balde se comparada à “pornografia”.

O que é possível encontrar nesses 130 milhões de sites pornográficos? As opções mais básicas respondem vividamente ao “quem, o quê, onde, quando e porque” do sexo. O restante são sites dedicados a todo tipo de coisas, desde várias formas de incesto (que deixaria Édipo e Jocasta constrangidos) até fetiches incomuns.

A pornografia pode ter uma função positiva: fornecendo uma válvula de escape para aqueles que, por algum motivo, não praticam o ato em si, ou então reacendendo a vida sexual de casais com relacionamentos mornos. Mas ela também pode iludi-lo, fazendo-o acreditar que uma garota de programa cara pode fazer coisas que Friné, a cortesã mais famosa do mundo clássico, nunca teria imaginado.

Não estou me referindo apenas aos 42% de italianos que usam a internet, de acordo com a União Internacional de Telecomunicação; todos os dias, os demais 58% podem assistir na tela de suas TVs coisas que são dez vezes mais estimulantes do que qualquer coisa que estivesse disponível a um rico empresário de Milão dos anos 40. Hoje, as pessoas estão muito mais expostas ao sexo do que seus avós estavam. Considere um pobre padre de paróquia: houve um tempo em que a única mulher que ele via era a empregada doméstica, e tudo o que ele lia era o jornal católico “L’Osservatore Romano”. Hoje há garotas com trajes mínimos na TV todas as noites.

Então, será que existe algum motivo para não pensar que esse incessante estímulo ao desejo também está afetando os funcionários do governo, causando uma mutação da espécie e modificando o próprio propósito de seu papel na sociedade?

¹ Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista.
O livro mais recente e Umberto Eco é “História da Feiura“. Ele também é autor dos bestsellers internacionais “Baudolino”, “O Nome da Rosa” e “O Pêndulo de Foulcault”, entre outros. Traduzido do italiano por Alastair McEwen.

UOL

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Reflexões na tarde – A prisão de cada um

A Prisão de cada um
por Martha Medeiros

O psiquiatra Paulo Rebelato, em entrevista para a revista gaúcha Red 32, disse que o máximo de liberdade que o ser humano pode aspirar é escolher a prisão na qual quer viver. Pode-se aceitar esta verdade com pessimismo ou otimismo, mas é impossível refutá-la.

Liberdade não é uma calça velha, azul e desbotada, e sim, nudez total, nenhum comportamento para vestir. No entanto, a sociedade não nos deixa sair à rua sem um crachá de identificação pendurado no pescoço. Diga-me qual é a sua tribo e eu lhe direi qual é a sua clausura.

São cativeiros bem mais agradáveis do que o Carandiru: podemos pegar sol, ler livros, receber amigos, comer bons pratos, ouvir música, ou seja, uma cadeia à moda Luis Estevão, só que temos que advogar em causa própria e hábeas corpus, nem pensar.

O casamento pode ser uma prisão. E a maternidade, a pena máxima. Um emprego que rende um gordo salário trancafia você, o impede de chutar o balde e arriscar

novos vôos. O mesmo se pode dizer de um cargo de chefia. Tudo que lhe dá segurança ao mesmo tempo lhe escraviza. Viver sem laços igualmente pode nos reter.

Uma vida mundana, sem dependentes para sustentar, o céu como limite: prisão também. Você se condena a passar o resto da vida sem experimentar a delícia de uma vida amorosa estável, o conforto de um endereço certo e a imortalidade alcançada através de um filho. Se nem a estabilidade e a instabilidade nos tornam livres, aceitemos que poder escolher a própria prisão já é, em si, uma vitória. Nós é que decidimos quando seremos capturados e para onde seremos levados. É uma opção consciente.

Não nos obrigaram a nada, não nos trancafiaram num sanatório ou num presídio real, entre quatro paredes. Nosso crime é estar vivo e nossa sentença é branda, visto que outros, ao cometerem o mesmo crime que nós nascer foram trancafiados em lugares chamados analfabetismo, miséria e exclusão.

Brindemos: temos todos, cela especial.

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Cecília Meireles – Crônica na tarde

Compras de Natal
Cecília Meireles ¹

A cidade deseja ser diferente, escapar às suas fatalidades. Enche-se de brilhos e cores; sinos que não tocam, balões que não sobem, anjos e santos que não se movem, estrelas que jamais estiveram no céu.

As lojas querem ser diferentes, fugir à realidade do ano inteiro: enfeitam-se com fitas e flores, neve de algodão de vidro, fios de ouro e prata, cetins, luzes, todas as coisas que possam representar beleza e excelência.

Tudo isso para celebrar um Meninozinho envolto em pobres panos, deitado numas palhas, há cerca de dois mil anos, num abrigo de animais, em Belém.

Todos vamos comprar presentes para os amigos e parentes, grandes e pequenos, e gastaremos, nessa dedicação sublime, até o último centavo, o que hoje em dia quer dizer a última nota de cem cruzeiros, pois, na loucura do regozijo unânime, nem um prendedor de roupa na corda pode custar menos do que isso.

Grandes e pequenos, parentes e amigos são todos de gosto bizarro e extremamente suscetíveis. Também eles conhecem todas as lojas e seus preços — e, nestes dias, a arte de comprar se reveste de exigências particularmente difíceis. Não poderemos adquirir a primeira coisa que se ofereça à nossa vista: seria uma vulgaridade. Teremos de descobrir o imprevisto, o incognoscível, o transcendente. Não devemos também oferecer nada de essencialmente necessário ou útil, pois a graça destes presentes parece consistir na sua desnecessidade e inutilidade. Ninguém oferecerá, por exemplo, um quilo (ou mesmo um saco) de arroz ou feijão para a insidiosa fome que se alastra por estes nossos campos de batalha; ninguém ousará comprar uma boa caixa de sabonetes desodorantes para o suor da testa com que — especialmente neste verão — teremos de conquistar o pão de cada dia. Não: presente é presente, isto é, um objeto extremamente raro e caro, que não sirva a bem dizer para coisa alguma.

Por isso é que os lojistas, num louvável esforço de imaginação, organizam suas sugestões para os compradores, valendo-se de recursos que são a própria imagem da ilusão. Numa grande caixa de plástico transparente (que não serve para nada), repleta de fitas de papel celofane (que para nada servem), coloca-se um sabonete em forma de flor (que nem se possa guardar como flor nem usar como sabonete), e cobra-se pelo adorável conjunto o preço de uma cesta de rosas. Todos ficamos extremamente felizes!

São as cestinhas forradas de seda, as caixas transparentes os estojos, os papéis de embrulho com desenhos inesperados, os barbantes, atilhos, fitas, o que na verdade oferecemos aos parentes e amigos. Pagamos por essa graça delicada da ilusão. E logo tudo se esvai, por entre sorrisos e alegrias. Durável — apenas o Meninozinho nas suas palhas, a olhar para este mundo.

¹ Cecília Benevides de Carvalho Meireles
* Rio de Janeiro, Brasil – 7 de Novembro de 1901 d.C
+ Rio de Janeiro, Brasil – 9 de Novembro de 1964 d.C


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Fernando Veríssimo: 2009 ‘tchau’

O pai do ano foi o presidente do Paraguai e ex-bispo Fernando Lugo, que reconheceu a paternidade de todos os filhos que disseram que eram seus, inclusive alguns mais velhos do que ele.

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As voltas do ano: Ronaldo ao Corintians, Adriano ao Flamengo e Collor ao noticiário.

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Madonna esteve no Brasil e namorou um Jesus. A relação, imagina-se, foi ainda mais ardente pela sugestão de incesto.

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Entreouvido na Itália:

- Atiraram o Duomo de Milão no Berlusconi.

- Oba!

- Era uma miniatura.

- Ah…

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Moda do ano: meias elásticas “Dem”, para carregar propina.

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Cineasta do ano: Durval Barbosa.

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Mãe do ano: o governo americano, que deu bilhões para grandes bancos americanos não quebrarem, com a recomendação de não gastarem tudo em gratificações de fim de ano.

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Mão do ano: a do Henry Thierry.

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Ivete Sangalo engravidou. Fernando Lugo apressou-se a declarar que não esteve nem perto da cantora.

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Barack Obama tomou posse como o primeiro presidente quenio-havaio-americano dos Estados Unidos, e provavelmente o último.

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Barack Obama recebeu o premio Nobel da paz numa cerimonia em Oslo. Não é verdade que tenha sido revistado na entrada porque podia estar armado.

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O campeão de golf Tiger Woods revelou-se um sexólatra compulsivo. Pior serão as piadas sobre tacos e buracos que vem aí.

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Buuuu do ano: para os alunos que hostilizaram a menina Geisy numa universidade paulista só porque estava com um vestido curto, para os torcedores do Grêmio que hostilizaram jogadores do seu time por terem se esforçado contra o Flamengo, para o Piquet que simulou um acidente a pedido no Grand Prix de Cingapura, para o Ahmadinejad e para a gripe suina.

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Fernando Lugo, explicando seus filhos, disse que tudo se deve à restrição da sua igreja ao uso da camisinha.


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Organiza o Natal*
Carlos Drummond de Andrade ¹

Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.

A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre.

¹ Carlos Drummond de Andrade
* Itabira do Mato Dentro, MG, – 31 de Outubro de 1902 d.C
+ Rio de Janeiro RJ, – 17 de Agosto de 1987 d.C
>>biografia

* do livro “Cadeira de Balanço”, 1972, página 52.
José Olympio Editora

fonte: site Releituras

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Corrupção não é uma questão moral

A corrupção é muito menos uma questão moral que um produto obrigatório de instituições defeituosas. E poucas no mundo são mais defeituosas do que as nossas.

Aliás, defeito não é a expressão correta. Porque defeito é algo que foge ao desejado e as nossas instituições são deliberadamente montadas para ensejar a corrupção.

A imprensa brasileira, de modo geral, não tem contribuído nada para melhorar esse quadro. Comporta-se de forma absolutamente passiva diante do tema da corrupção. Limita-se a veicular os dossiês, os grampos e as filmagens de arapongas, que se multiplicam nas vésperas de eleição, ou a amplificar atos de vingança de corruptos contra corruptos. Deixa-se manipular pelas facções em luta pelo poder e, às vezes, chega a apresentar como grandes feitos do “jornalismo investigativo” a mera exposição de fatos que nunca investigou. Mas disso não passa. Quando muito, acrescenta ao que lhe cai no colo discursos “indignados”, pontilhados de adjetivos, clamando por ética na política.

Por trás dessa atitude está a resiliência do velho mito rousseauniano, artificialmente mantido vivo na UTI dos pensamentos mortos que são nossas escolas ideologicamente aparelhadas: “o homem é fundamentalmente bom; nasce quase santo e, daí por diante, é a ordem capitalista que o corrompe”.

Foi atrás dessa mentira, que a imprensa contribui por omissão para manter em pé, que se escondeu por mais de 20 anos o “comigo vai ser diferente” do PT, um partido geneticamente anti-democrático, o que lhe permitiu saltar para o comando de um sistema deliberadamente entortado para garantir a invulnerabilidade de quem chega à condição de controlá-lo.

A democracia anglo saxônica, meio mãe meio filha do capitalismo, parte do pressuposto contrário: “não, os homens não nascem santos e explorarão uns aos outros sempre que puderem; é a organização da sociedade que vai reprimir esse seu instinto básico e, se for inteligentemente arquitetada, poderá dirigi-lo para um sentido socialmente positivo”.

A “moralidade” no trato da coisa publica, uma novidade tão recente quanto rara, é, historicamente, o produto dos mecanismos de coerção de instituições democráticas construídas a partir desse pressuposto com o objetivo precípuo de tornar a corrupção visível e deixar o corrupto exposto a sansões severas.

Essa corrupção escancarada e impune que temos é, portanto, uma medida da ausência de democracia. Quanto menos democrático for o regime, mais corrupção haverá.

Theodore Roosevelt, como já tive oportunidade de lembrar em artigos anteriores, resumia assim o aspecto prático da questão: “O problema não é haver corrupção. Corrupção é inerente à espécie humana. O problema é o corrupto poder exibir o seu sucesso. Isso é subversivo”.

O Brasil é a prova.

Está subvertido até à medula. A vitória dos corruptos, aqui, é tão liquida e certa, sobretudo depois do abraço de Lula em Fernando Collor e José Sarney, que já passou à categoria de regra fundamental do jogo, dentro e fora da política. A escolha, no Brasil de hoje, resume-se a conformar-se com ser explorado ou entrar para o grupo dos exploradores. E, enquanto a regra for essa, não pode haver ilusões sobre para que lado vai pender a maioria. As pesquisas mostram, aliás, que o primeiro objetivo de nossa juventude já é a conquista de um emprego publico…

Esse estado de coisas só é possível porque o Brasil não é uma democracia. É um regime de semi-escravidão onde o semi-escravo pode eleger o seu feitor mas, daí por diante, não pode impedi-lo de exercer, a seu bel prazer, o poder de vida ou morte econômica sobre seus suditos, pela concessão ou pela negação de benesses, que o voto das próprias vitimas lhes garante num ambiente de completa ausência de limites institucionais.

E não será da política, o próprio foco da infecção, que sairá a cura.

Democracia é a resposta.

O Brasil está atrasado. Perdendo tempo. O labirinto em que ainda nos debatemos já foi percorrido por outros povos. As saídas estão mapeadas. As soluções existem.

A história da democracia moderna não é outra coisa senão a história da construção das instituições criadas para acabar com o privilégio e controlar a corrupção.

Cabe à imprensa, neste país sem escolas, contá-la aos brasileiros. Mostrar-lhes as soluções que existem. Ajudá-los a concentrar o foco naquilo que realmente foi decisivo para mudar a qualidade do processo.

Dou uma pista: aceitas as idéias de Republica e de separação dos poderes, estágio que também já ultrapassamos, o que fez a democracia avançar foram as respostas encontradas para o tratamento de quatro problemas:

• o falseamento da representação
• o poder de delegar poder
• a overdose normativa
• o poder de arbítrio do Judiciário

Fernão Lara Mesquita/blog Vespeiro

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As baionetas democráticas
por Hélio Chaves ¹

Servi à “pátria” em 1979, durante o crepúsculo do regime militar. Período em que manifestações despertavam alvoroços no governo de plantão. Naquele ano, centenas de jovens, como eu, pernoitavam nos quartéis com fuzis servindo como travesseiros. Sacos de areia perfurados por baionetas simbolizavam “os inimigos” que deveríamos combater nos verdes campos da Praça dos Três Poderes, em Brasília.

Na década de 80, fui trabalhar na redação de um jornal onde respirei notícias e fatos políticos. Um deles, a emenda Dante de Oliveira, que propunha eleições diretas para presidente, foi sepultada pela falta de 22 votos no Congresso Nacional. O Colégio Eleitoral passou a ser a alternativa para cerrar de vez as portas do autoritarismo. Mário Andreazza e Paulo Maluf digladiavam na convenção do PDS, no Centro de Convenções da capital. Maluf venceu. Na outra arena, Tancredo Neves fazia acordos até com “Judas” para ser o candidato contra o continuísmo do regime militar.

A batalha final sagrou Tancredo. A euforia tornou-se frustração com o anúncio de sua enfermidade. Foram dias e noites de expectativas até sua morte, em 21 de Abril de 1985 – data propícia para o anúncio. A comoção nacional que tomou conta das ruas prenunciava o que estava por vir. José Sarney assume e convoca seus fiscais. Os bois somem dos pastos. Vivemos a hiperinflação e o “badernaço” – ser intelectual foi insuficiente para resolver as mazelas do Brasil.

Após o fracasso do primeiro governo civil – pós ditadura – surge o jovem caçador de marajás Fernando Collor de Mello, que confisca economias populares e deu no que deu. A bola da vez é o vice Itamar Franco, que governa o que resta sobre o fio da navalha. O Plano Real surge como fada madrinha e coroa Fernando Henrique Cardoso como presidente. FHC governa os quatro anos – generosamente ampliados para oito num movimento oportunista que permitiu o continuísmo, hoje, tão combatido e criticado.

Para a sucessão de FHC, surge uma nova modalidade eleitoral, a do “tenho medo artístico” não surte os efeitos esperados. Lula, o operário, sindicalista e “analfabeto” é eleito. Como um mandacaru que resiste a seca, ele também resiste aos terremotos que abalaram os quatro primeiros anos de governo. Reeleito, seguindo as regras estabelecidas, navega, hoje, nas ondas dos recordes de popularidade e índice de aprovação ao seu governo.

Mas isto não tem sido suficiente para apagar a mácula da falta de formação acadêmica. Num Congresso Nacional em ruínas, passeiam intelectuais e possuidores de diplomas, que pelo visto não servem sequer, como enfeites de parede. Ao chamar o presidente de “analfabeto”, mesmo com voz melodiosa, Caetano Veloso, o faz de forma pejorativa e preconceituosa. Críticas feitas sob o véu da fama – mas artista pode tudo, né?

Outro fato recente foi o artigo do ex-presidente “doutor”, que num passado próximo pediu “esqueçam tudo que eu escrevi”, mas que volta ao cenário com sua pena em forma de baioneta “democrática intelectual” afiada, na tentativa de sangrar… Defensores da liberdade de expressão e de manifestação, afirmam que tais manifestações devem ser respeitadas. Sendo assim, não se espantem se o “analfabeto”, contra-atacar com o ditado árabe – Os cães ladram e a caravana passa. O que, certamente, seria considerado como mais um impropério presidencial.

¹ Hélio Chaves é analista de suporte da Infoglobo.

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Crônica de uma separação

Ela passou o primeiro dia empacotando todos os seus pertences em Caixas, engradados e malas.

No segundo dia, ela chamou os homens da transportadora que levaram a

mudança.

No terceiro dia, ela se sentou pela última vez na bela mesa da sala de jantar, à luz de velas, pôs uma música suave e se deliciou com uns camarões, um pote de caviar e um garrafa de Chardonnay.

Quando terminou, foi a cada um dos aposentos e colocou alguns pedaços de casca de camarão, besuntados com caviar, dentro dos varões das cortinas.

Depois ela limpou a cozinha e se foi.

Quando o marido retornou com a nova namorada, tudo estava um brinco nos primeiros dias.

Depois, pouco a pouco, a casa começou a feder.

Eles tentaram de tudo: limpando, lavando e arejando a casa..

Todas as aberturas de ventilação foram verificadas à procura de possíveis ratos mortos e os tapetes foram limpos com vapor..

Desodorantes de ar e ambiente foram pendurados em todos os lugares..

A empresa de combate a insetos foi chamada para colocar gás em todos os encanamentos, durante alguns dias, durante os quais tiverem de sair da casa, e no fim ainda tiveram de pagar para substituir o caríssimo carpete de lã.

Nada funcionou.

As pessoas pararam de visitá-los.

Os funcionários das empresas de consertos se recusavam a trabalhar na casa..

A empregada se demitiu..

Finalmente, eles não suportavam mais o fedor e decidiram se mudar.

Um mês depois, apesar de terem reduzido o valor da casa em 50%,eles não conseguiram um comprador para a casa fedorenta.

A notícia se espalhava e nem mesmo corretores de imóveis locais retornavam as ligações.

Finalmente, eles tiveram de fazer um grande empréstimo do banco para comprar uma casa nova.

A ex-esposa ligou para o marido e perguntou como andavam as coisas.

Ele disse a ela o martírio da casa podre.

Ela escutou pacientemente e disse que sentia muitas saudades da casa antiga e que estaria disposta a reduzir a parte que lhe caberia do acordo de separação dos bens em troca pela casa.

Sabendo que a ex-mulher não tinha idéia de como estava o fedor, ele concordou com um preço que era cerca de 1/10 do que valeria a casa.

Mas só, se ela assinasse os papéis naquele dia mesmo.

Ela concordou e em menos de uma hora, os advogados deles entregavam os documentos.

Uma semana depois, o homem e sua namorada assistiam, com um sorriso malicioso, os homens da mudança empacotando tudo para levar para a sua nova casa…

…incluindo os varais das cortinas. Ah…AH….. ..AH

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Temos controle sobre nossa história?

Em “Guerra e Paz“, Tolstói argumenta que os protagonistas dos grandes acontecimentos não sabem exatamente qual será o resultado futuro de suas ações, de modo que são atores involuntários daquilo que conheceremos como história. Falando das preocupações comezinhas de Napoleão e do czar Alexandre, além das reações pessoais dos generais na guerra entre França e Rússia no começo do século 19, Tolstói escreve: “Os seus receios, as suas vaidades, as suas alegrias, os seus descontentamentos, as suas críticas vinham de suporem saber o que faziam e de julgarem agir por si próprios, quando afinal não passavam de instrumentos inconscientes da História, realizando um trabalho oculto para eles, mas inteligível para nós”.

Mas será assim mesmo? Será que o todo do momento histórico é tão maior que suas partes? Será que realmente não temos controle sobre o destino de nossos atos ou palavras no futuro? As perguntas vêm a propósito do livro “Anne Frank: The Book, the Life, the Afterlife“, da escritora americana Francine Prose, sobre o famoso diário da menina judia escondida num compartimento de uma casa na Holanda para escapar da perseguição nazista.

Prose afirma, em entrevista à Folha, que a adolescente Anne Frank teve a oportunidade de melhorar seu estilo literário ao longo dos mais de dois anos em que passou refugiada, e que ela usou essas habilidades para reescrever boa parte do diário que ela começara a compor quando era apenas uma criança. Anne Frank reescreveu o diário com vista à história. Para Prose, a ideia era que todo o drama daquele momento fosse preservado, a partir não apenas do que estava ali relatado, mas por ter consistência literária.

Se funcionou, cabe aos críticos responderem. O que nos interessa aqui é que Anne Frank sabia qual era seu papel na história e sabia que aquilo que estava contando nas páginas de seu diário serviria para iluminar os acontecimentos daquele intervalo bárbaro da vida supostamente civilizada do Ocidente. O mesmo ocorreu com Emanuel Ringelblum, historiador polonês que, no Gueto de Varsóvia, se dedicou a reunir tudo o que pudesse documentar aquele momento, para que, no futuro, ninguém fosse capaz de negá-lo. Guardou o material em latões de leite, escondidos nos porões do gueto, com mensagens dirigidas aos “historiadores do futuro”.

De certa maneira, Anne Frank e Ringelblum negaram a tese de Tolstói (e, antes dele, de Kant) de que há um fio condutor da história, invisível aos homens e às sociedades em meio ao choque de paixões que produz os acontecimentos e o “progresso”. A sofisticada consciência da miséria de sua condição os tornou porta-vozes daqueles de quem a humanidade estava sendo roubada. Seu esforço deu a essas vítimas o túmulo que lhes fora negado. Anne Frank e Ringelblum recusaram-se a aceitar que o silêncio, o esquecimento e a inexistência fossem seu destino inapelável. Sua coragem mostrou que é possível ajudar a escrever a história de modo consciente, mesmo no mais hostil dos ambientes, mesmo diante da improbabilidade da própria vida.

Marcos Guterman

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Não chores, Argentina

Resenha portenha
Nelson Mota

Mais gostoso do que ganhar a sede das Olimpíadas, só mesmo assistir pela televisão, num bar de Buenos Aires, cercado de amigos argentinos. E depois, em todos os lugares, receber cumprimentos, e retribuir com sinceros “bienvenidos”. Qualquer gozação seria covardia, a coisa está preta no Prata.

Com sua seleção com um pé no abismo, eles adorariam trocar Maradona por Dunga, assim como cambiam dois pesos por um real. E ainda dariam Messi de troco. Embora em corrupção e políticos safados estejamos empatados, eles trocariam de bom grado dez Cristinas por um Lula. O casal Kirchner está cada vez mais para Rosinha e Garotinho do que para Perón e Evita.

Alem da gastança populista, da corrupção e do autoritarismo, a intimidade com Chávez e suas malas de dinheiro foi fator decisivo para a fragorosa derrota do casal K nas recentes eleições parlamentares. Abriram guerra contra os meios de comunicação, estatizaram os direitos das transmissões de futebol na televisão, brigaram com os produtores rurais, a maior fonte de riqueza do país, chafurdaram na crise econômica, estão com o FMI bufando no seu cangote, a inflação, a pobreza e a criminalidade crescem, as estatísticas não são confiáveis, a Argentina parece o Brasil, ontem. Um efeito Orloff revertido?

É a paixão nacional pelo confronto, que já fez a Argentina chorar tanto, a opção kirchnerista pela “democracia plebiscitária” do quem-não-está-conosco-está-contra-nós, uma medonha cruza de Bush com Chávez. Não por acaso, mas por paixão, eles são os criadores do tango. E foram à guerra contra a Inglaterra. Ou será porque são os maiores consumidores de carne vermelha — la mejor del mundo, por supuesto — do planeta? Neste caso, a Índia vegetariana deveria ser de uma harmonia e um pacifismo entediantes. O Paquistão que o diga.

Por essas e outras, a Argentina tem o maior número de psicanalistas per capita do mundo, e não lhes faltam clientes. Afinal, uma das melhores definições de “ego” que conheço é: um argentino pequenininho que vive dentro de cada um de nós. Mas apesar de tudo, assim como o Rio de Janeiro, Buenos Aires continua linda.

O Globo

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Ciro e Coriolano
Theófilo Silva ¹

Não sei se Ciro Gomes já leu Coriolano, uma das peças políticas de Shakespeare. Se não o fez, está na hora de fazê-lo! Ciro Gomes tem muito da natureza de Caio Márcio Coriolano, general romano de família nobre, favorito da mamãe, orgulhoso, soberbo, valente e virtuoso. E mais, carrega o coração na boca. Fala o que pensa. E é essa língua que acaba por destruí-lo.

Ciro Gomes vem de uma família de classe média, seu pai foi prefeito de Sobral, uma tórrida cidade no sertão do Ceará, famosa pelo orgulho de seus moradores. A cidade tem um lado folclórico: a fama de ser “americana”, dado a admiração que seus filhos têm pelos EUA e por alguns “hábitos”: o Derby, Beisebol, School Bus. É difícil um cearense que não aponte os sobralenses como um povo soberbo e, com, com seu senso de humor afiado, chamam Sobral de “United States of Sobral” e 51º estado americano. Dizem que esse “americanismo” seria proveniente de três fatores. Foi em Sobral que Albert Einstein provou a Teoria da Relatividade. Segundo: até a década de 30 Sobral era a principal cidade do Ceará. E terceiro: que a cidade foi fundada por americanos. Por isso os sobralenses dizem que têm um passado burguês, “aristocrático”.

O fato é que Sobral berço de Renato Aragão, pena com as brincadeiras e gozações de seus conterrâneos, que cunharam centenas de piadas sobre seus cearenses “americanos”.

Até onde a soberba de Ciro, que tem lhe custado caríssimo, é fruto disso não sabemos. O certo é que sua incontinência verbal e seu ar de superioridade estancaram sua vitoriosa carreira política. Ciro, dizem no Ceará, nasceu com “uma estrela na testa”, tão meteórica foi sua ascensão na política. Com 37 anos, já fora Deputado Estadual, Prefeito de Fortaleza, Governador do Ceará e Ministro da Fazenda. Desdenhou uma vaga certa no Senado e passou um ano na Universidade de Harvard como aluno visitante. Hoje, é detentor de uma oligarquia.

Ciro, chegando tão cedo aonde chegou, estagnou e não conseguiu um “vôo nacional” sólido como queria. Candidato à Presidência da República por duas vezes, teve uma votação apenas simbólica. Foi obrigado a recomeçar, sendo candidato a deputado federal pelo Ceará, obtendo uma votação espetacular.

Ciro pode corrigir seu temperamento? Poderá, como diz Shakespeare em Júlio César, “forjar seu metal”? Refrear sua língua? Ele tem reconhecido seus erros. Arrepende-se das besteiras que disse. Coriolano foi obrigado a “calçar as sandálias da humildade” – um teste obrigatório para tornar-se Cônsul de Roma. Vestido com roupas humildes, ele teve que sair nas ruas pedindo o voto do povo. Conseguiu após muito esforço, já que, para ele, era um constrangimento misturar-se aos pobres. Instado por seus nobres pares, teve que fazê-lo. Ganhou o cargo de Cônsul, para perdê-lo horas depois, ao responder a provocação de dois tribunos intrigantes.

Ciro precisa provar para a sociedade brasileira que é hoje um homem maduro, que superou seus conflitos juvenis e que seu orgulho de sobralense – de suposta burguesia inexistente, decadente – foi apagado. Que não é marcado por questões com a mãe, como Coriolano – a arrogância da maioria dos homens é fruto do favoritismo materno. Para que não aja como Coriolano, que disse: “agora que me destes vossos votos, nada mais quero convosco”. Se provar, aí sim, estará pronto para mostrar que o Brasil é bem maior que o Ceará e que poderá fazer pelo país o que todos nós esperamos.

¹ Theófilo Silva é Presidente da Sociedade Shakespeare de Brasília e Colaborador do blo do Moreno

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