Polêmica sobre vazamento de dados envolve hackers, jornalistas e exército

Soldado americano entregou dados a site que ‘vaza’ dados sigilosos.

Depois de contar história para hacker, diálogos foram parar em revista.

Uma história complicada tem se desenrolado lentamente nas últimas três semanas.

Um soldado norte-americano, Bradley Manning, de 22 anos, vazou dados militares para o site Wikileaks, que já publicou parte das informações nada favoráveis à imagem do governo dos Estados Unidos. Manning decidiu falar de suas ações para um hacker, Adrian Lamo.

Sem muita demora, Lamo entregou Manning às autoridades. Depois, a o site da revista Wired publicou a história, com exclusividade e com acesso a todas as conversas entre Manning e Lamo.

O Wikileaks acusa o hacker e o repórter da Wired, o também ex-hacker Kevin Poulsen, por “quebra de ética jornalística”; Lamo também se diz jornalista e deveria ter defendido Manning como uma fonte, segundo críticos e apoiadores que consideram o soldado um herói.

Confira a história completa na coluna Segurança para o PC de hoje.

O soldado Bradley Manning recentemente perdeu o ranking de Especialista no exército.

O soldado Bradley Manning recentemente perdeu o ranking de Especialista no exército.

Manning e o vídeo que catapultou o Wikileaks
Foto:ARquivo Pessoal,/Facebook

Controvérsia não é novidade para o Wikileaks, que tem se envolvido em uma após outra desde a sua criação em 2006. Até recentemente, o fundador do site, o hacker e jornalista australiano Julian Assange, nem sequer aparecia na mídia ou assumia ser o responsável pela página.

Isso mudou radicalmente desde abril, quando o site disponibilizou um vídeo chamado Collateral Murder (Assassinato Colateral), que mostra como o exército dos Estados Unidos matou dois jornalistas e feriu crianças sem nenhum motivo aparente no Iraque. O caso repercutiu na imprensa porque o vídeo estava retido pelo exército; Assange foi biografado e entrevistado por diversos veículos.

O Wikileaks oferece meios para que arquivos secretos sejam vazados com segurança e anonimamente. O vídeo saiu de uma de suas fontes anônimas e isso era tudo o que se sabia.

Antes disso, o Wikileaks havia realizado muitos outros vazamentos, com variadas consequências. Agências de notícia como a Associated Press, formada por um grande número de veículos, doaram dinheiro para custear as operações da Sunshine Press, empresa que gerencia o espaço. O Pentágono já considerava o site um “inimigo da segurança nacional” muito antes de o vídeo ser publicado. No entanto, o caso levou o site a um novo patamar, dando ao Wikileaks cobertura televisiva.

Há um lugar especial no inferno para jornalistas como Lamo e Poulsen”

WikiLeaks

O soldado Bradley Manning disse que foi o responsável por vazar esse vídeo e também outro de um episódio semelhante no Afeganistão. Além disso, 260 mil relatórios diplomáticos teriam sido enviados ao Wikileaks. O site confirmou ter o vídeo do Afeganistão, mas disse jamais ter recebido os 260 mil documentos que Manning afirmou ter vazado. O site não confirmou que Manning é a fonte das informações, porque “não coleta dados pessoais de suas fontes”.

As confissões de Manning foram feitas a Adrian Lamo, um ex-hacker que hoje diz ser jornalista. O blog Threat Level, da Wired, que publicou a história com exclusividade, publicou vários trechos da conversa entre Lamo e Manning. Lamo tem uma relação de anos com o editor do Threat Level, o ex-hacker Kevin Poulsen, que sempre dava cobertura para seus atos de hacking, considerados simples, mas contra grandes empresas.

Além da Wired, apenas o jornal The Washington Post teve acesso às conversas entre Manning e Lamo. Manning teria dito que perdeu um cargo no ranking militar e que seria dispensado por mau comportamento. Nas conversas publicadas pela Wired, Manning diz ter perdido fé no seu trabalho quando viu que protestos políticos contra a corrupção no Iraque estariam sendo tratados como atos de terrorismo pelo exército.

Herói ou vilão e a guerra entre hackers e jornalistas

Se discussões de nível mundial não acontecerem, acho que, como espécie, estamos condenados”

Bradley Manning

O soldado disse a Lamo que queria “fazer uma diferença”, que a publicação do vídeo lhe deu esperança e que estava ansioso pela publicação dos relatórios diplomáticos. “Com sorte teremos debates, discussões a nível mundial e reformas. Se isso não acontecer, acho que, como espécie, estamos condenados”, disse. Manning tem a simpatia de muitos; ele está em uma prisão militar desde o dia 26 de maio. Ainda não foi acusado de nenhum crime, mas deve ser julgado por uma corte marcial.

Kevin Poulsen, o editor da Wired que publicou a história em primeira mão no dia 6 de junho com a exclusividade de acesso total aos logs de conversa entre Lamo e Manning, tem se visto vítima de uma campanha contra sua imagem. Desde o início, o Wikileaks o acusou de quebrar a ética jornalística. No Twitter, o site chegou a postar que “há um lugar especial no inferno para jornalistas como Lamo e Poulsen”.

Da esquerda para a direita: Adrian Lamo, Kevin Mitnick e Kevin Poulsen em 2001.  Foto: Matthew Griffiths/Domínio Público

Um comentário no site BoingBoing referido pelo Wikileaks afirma que Poulsen e Lamo conspiraram contra Manning, trabalhando juntos para fazê-lo confessar seus atos e agindo como “ponte” entre a investigação do governo e o soldado. Ataques para minar a reputação de Poulsen, que já foi preso por hacking – como Lamo – não faltam.

Junto a isso tudo, circula uma foto em que Adrian Lamo, Kevin Mitnick e Kevin Poulsen aparecem juntos e sorrindo em 2001. Poulsen, ao ser confrontado, afirmou que Lamo não é seu amigo, mas apenas uma fonte.

Vale mencionar que o editor do Wikileaks, Julian Assange, também já foi preso por hacking. Saiu por bom comportamento depois de pagar uma fiança.

O último a entrar na roda da polêmica foi o colunista e advogado Glenn Greenwald, da Salon. Após uma conversa com Lamo, Greenwald descobriu que o ex-hacker e “jornalista” convenceu Manning a confiar nele. Lamo disse que poderia tratar o soldado como uma fonte e protegê-lo com a lei de imprensa da Califórnia. Disse até que era um ministro cristão e que poderia tratar a conversa como uma confissão de pecados, sendo obrigado, assim, a jamais revelar nada.

Na verdade, Lamo já tinha contato com o FBI pelo menos desde o dia 24 de maio – as conversas entre Manning e Lamo começaram apenas três dias antes. No dia 25, Lamo se encontrou pessoalmente com agentes do FBI. Lamo justifica suas ações dizendo que agiu “em nome da segurança nacional”. Esta coluna prefere destacar outra afirmação do ex-hacker, que já esteve na prisão: “não quero mais agentes do FBI batendo na minha porta”.

O enigmático fundador da Wikileaks, Julian Assange, cancelou viagens aos Estados Unidos por “questões de segurança”. O enigmático fundador da Wikileaks, Julian Assande
Foto: Peter Erichsen/NMD/CC

Lamo provavelmente ficou com medo de ser envolvido em uma investigação para capturar o soldado que vazou o vídeo e enfrentar problemas por ter ficado quieto. Bradley Manning disse a Lamo que não tinha mais acesso às informações sigilosas e que seria dispensado. Naquele ponto, ele já estava inofensivo, se é que alguma vez representou perigo.

É claro que uma falsa cruzada em nome da segurança é mais interessante do que o medo. No Facebook, há comunidades a favor das ações de Manning. O site BradleyManning.org pede que o jovem seja considerado um herói. Uma petição para libertá-lo já conseguiu 140 assinaturas. O Wikileaks abriu um fundo de defesa para pagar o advogado do soldado “estão dizendo que ele é nossa fonte e por isso vamos defendê-lo”, diz o site, que não confirma se Manning foi mesmo quem vazou as informações.

Problema de confiança

Greenwald observou que a principal fonte de informação da história não pode ser confiada. Adrian Lamo adora aparecer na mídia – necessidade sempre suprida pelas reportagens de Kevin Poulsen. Todo esse caso pode ser apenas mais uma maneira de Lamo se promover, pondera o colunista da Salon. Desde o início da confusão, Lamo já entrou em contradições: para Greenwald, Lamo afirmou que Manning enviou e-mails para iniciar o contato; para o Yahoo! News, a versão foi a de que o soldado apareceu “do nada” no AOL Instant Messenger (AIM); Lamo já disse que considera pessoas que vazam informações “espiões” e “traidores”, mas também revelou já ter doado dinheiro para o Wikileaks.

Enquanto a história não se define, um jovem de 22 anos que tentou mostrar ao mundo segredos que, até o momento, parecem comprometer apenas a imagem do governo dos Estados Unidos e não a vida dos seus cidadãos, está preso e aguardando ser pelo menos acusado de um crime para que possa se defender.

Se os logs de conversa gravados por Lamo tiverem sua veracidade comprovada, Manning provavelmente não tem chance de escapar de uma punição severa. Mesmo assim, o soldado tem ao seu lado vários apoiadores e, a não ser que a história mude seu rumo, deverá ser lembrado como um herói.

Altieres Rohr/G1

*Altieres Rohr é especialista em segurança de computadores e, nesta coluna, vai responder dúvidas, explicar conceitos e dar dicas e esclarecimentos sobre antivírus, firewalls, crimes virtuais, proteção de dados e outros. Ele criou e edita o Linha Defensiva, site e fórum de segurança que oferece um serviço gratuito de remoção de pragas digitais, entre outras atividades. Na coluna “Segurança para o PC”, o especialista também vai tirar dúvidas deixadas pelos leitores na seção de comentários.



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Em toda essa polêmica resta sempre a pergunta de até que ponto a Constituição Federal está, ou não, sendo violada? Está claro no art. 5º, XII: “…é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas,…”

É bem provável que a questão provoque uma demanda judicial que certamente irá exigir uma manifestação do Supremo Tribunal Federal, quanto a constitucionalidade, ou não, do ato. Também, é provável que quando o STF se manifestar, novas tecnologias terão substituído o tráfego de mensagens na internet.

O Editor


Empresa pode vigiar tudo que funcionário faz no computador do trabalho

Monitoramento é possível desde que esteja no contrato.

Confira formas que as empresas têm de fazer a vigilância.

As empresas têm o direito de monitorar tudo o que os funcionários fazem no computador do trabalho, desde que a vigilância seja previamente informada e esteja prevista em contrato. Segundo advogados consultados pelo G1, caso o profissional seja pego pelo monitoramento fazendo algo proibido pelo empregador, ele pode ser demitido por justa causa.

Para quem fica o dia inteiro na frente do computador, o rastreamento pode soar invasivo, mas o argumento das empresas é que, se o instrumento é para o trabalho, ele não pode ser usado da forma que os empregados bem entendem.

Empresa paga o pato

De acordo com o advogado Renato Opice Blum, especialista em direito eletrônico, o que legitima o poder das empresas de vigiar os empregados é a própria legislação. O Código Civil prevê que o empregador é responsável por tudo o que os trabalhadores fazem usando as conexões e os equipamentos da empresa.

Isso significa que, se um funcionário cometer um crime por meio do computador do trabalho, a empresa responde judicialmente pelo caso. O funcionário também poderá responder pelo crime, mas os prejudicados costumam processar as empresas por conta de elas terem mais poder e dinheiro em caso de indenizações. “Quem paga o pato é a empresa”, afirma Blum.

E-mail pessoal

O monitoramento do e-mail pessoal é a questão mais polêmica, explica o advogado trabalhista Alan Balaban Sasson, uma vez que muitos profissionais alegam ser invasão de privacidade.

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De acordo com o advogado, o monitoramento único e exclusivo do e-mail pessoal do trabalhador não é permitido, mas os programas de vigilância acabam monitorando o e-mail particular quando ele é acessado no computador da empresa.

No entanto, se está previsto em contrato que o computador é monitorado e que, caso o funcionário entrar no e-mail pessoal a página também poderá ser monitorada, e mesmo assim o profissional opta por acessar o e-mail, fica difícil querer questionar a empresa pelo ocorrido.

“O contrato é a palavra-chave. O que o chefe não pode é simplesmente chegar a falar ‘deixa eu olhar seu e-mail pessoal’. Nesse caso, seria uma coação”, afirma. Coação é uma ação injusta feita a uma pessoa, impedindo a livre manifestação da vontade do coagido.

O advogado Blum aconselha que as empresas proíbam ou bloqueiem o acesso ao e-mail pessoal para evitar dores de cabeça com a questão.

Bloqueios

Desde que registrado no contrato, as empresas têm o direito de permitir ou bloquear qualquer tipo de ferramenta no computador, além de poder usar de diversos meios para vigiar o funcionário. “Do mesmo jeito que é permitido colocar um supervisor para monitorar o trabalho, é possível fazer a vigilância eletrônica”, explica Sasson.

É permitido, inclusive, gravar conversas do MSN, rastrear arquivos deixados na máquina e monitorar as palavras escritas pelo funcionário.

Justa causa

Além da questão jurídica, as justificativas das empresas para fazer o monitoramento são muitas, explicam os advogados, e vão desde proteger informações confidenciais da companhia a até mesmo acompanhar a produtividade do trabalhador.

Objetivos vão desde proteger informações confidenciais da companhia a até mesmo acompanhar a produtividade do trabalhador”

Caso um funcionário seja pego pelo monitoramento fazendo algo proibido em contrato pela empresa, ele pode ser mandado embora por justa causa, dizem os advogados.

Em casos de flagrantes de descumprimentos não tão graves, como o acesso a uma rede social quando isso for proibido, o funcionário recebe uma advertência. Em caso de reincidência, ele recebe suspensão e, se repetir pela terceira vez, pode ser mandado embora por justa causa.

Já se ele for pego fazendo algo mais grave, como acessando sites de pornografia infantil, por exemplo, a demissão por justa causa pode ser imediata.

Mercado

De olho nesse grande mercado, uma vez que o computador é cada vez mais a principal ferramenta de trabalho nas empresas, desenvolvedoras de softwares usam a criatividade para oferecer programas que atendam às demandas dos empregadores (veja no quadro acima).

O diretor da desenvolvedora BRconnection, Francisco Odorino Pinheiro Neto, afirma que tanto empresas pequenas como grandes o procuram em busca de soluções.

MSN

Entre os programas desenvolvidos pela empresa está um software que controla o uso do MSN. Com a ferramenta, é possível definir com quais pessoas o funcionário pode interagir e gravar as conversas realizadas. Neto explica que o programa notifica os participantes sobre a gravação.

O programa também rastreia as palavras usadas pelo funcionário na conversa e, se necessário, impede que alguns termos sejam enviados.

Senha bancária

A Guidance Software, outra empresa que desenvolve softwares de monitoramento, oferece um produto que monitora tudo o que o funcionário faz no computador, desde arquivos utilizados, a e-mails escritos e sites visitados.

Fabrício Simão, gerente técnico para a América Latina da empresa, diz que, com determinados produtos, é possível gravar até a senha bancária digitada nos sites dos bancos. Portanto, recomenda-se muito cuidado ao utilizar serviços bancários em computadores do trabalho.

Gabriela Gasparin/G1

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