Sobre o vácuo tecnológico nas periferias

A natureza abomina o vácuo. A frase, usada supostamente para que Aristóteles conseguisse explicar a teoria física de que todo espaço é sempre preenchido por algo, pode muito bem ser aplicada pela maneira como o papel das LAN houses vem se modificando no mercado de internet do Brasil.

Dados da pesquisa TIC Domicílios 2009, divulgados pelo Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (CETIC.br) em abril, mostram que, no ano passado, os brasileiros acessaram a internet mais a partir de casa do que a partir das LAN houses (48% contra 45% dos acessos nacionais, respectivamente).

Vale lembrar que os dados do CGI.br não contemplam iniciativas de popularização de conexões de banda larga, como pacotes populares oferecidos em São Paulo a partir do final de 2009, ou o Plano Nacional de Banda Larga, oficializado pelo Governo Federal em maio mas ainda longe de se tornar realidade.

O principal motivo pela liderança da LAN house desde 2006 estava no valor: o preço de uma conexão doméstica era bastante alto, ainda que programas federais, como o Computador para Todos, tenham barateado o custo dos equipamentos. A inclusão digital batia no teto, como já discutimos aqui, pela carência de conexões.

Na falta de um “Banda Larga para Todos”, a estabilidade econômica foi suficiente para que a adoção das conexões domésticas crescesse, aponta o coordenador do CETIC.br, Alexandre Barbosa.

A classe C, finalmente, começou a contratar planos domésticos de banda larga, impulsionando o mercado nacional. Some a isto os programas de incentivo da adoção de banda larga e temos uma tendência que deverá se aprofundar nos próximos anos.

É cedo, porém, para imaginar o fim das LAN houses por dois motivos: a penetração de banda larga suficiente para que todos tenham conexões domésticas ainda deve demorar alguns anos e há uma transformação em curso que amplia o papel da LAN house dentro das comunidades carentes.

Alguns dos exemplos passam longe da trivialidade de serviços complementares como digitação de trabalho, venda de chiclete ou cópia de documentos.

“A LAN house pode virar também um centro de consumo financeiro informal. No interior do Brasil, conheço casos de moradores que queriam comprar passagem de avião e o dono emprestava o cartão e fazia até um crediário improvisado”, afirma Carla Barros, pesquisadora da ESPM que estuda o impacto da LAN house nas comunidade de Vila Canoas e Dona Marta, no Rio de Janeiro.

O que Carla percebeu até agora é que a relevância da LAN house entre os moradores vai além dos games online ou da rede social. Em ambientes com poucas opções de lazer, os atendentes assumem a função de guia, ensinando como explorar serviços municipais online, indicando novos sites ou games e selecionando músicas do seu gosto para carregar no MP3 player de quem frequenta a LAN house.

E aí caímos de novo na frase da introdução. Em periferias carentes de alternativas, as LAN house ocupam não apenas os espaços abertos pela exclusão digital, mas também pela financeira, pela educativa e pela de entretenimento. Elas deixam de ser lugares onde os mais jovens assistem a vídeos no YouTube e jogam World of Warcraft e se transformam em centros de inclusão da sociedade.

Não por coincidência, as LAN houses começam a chamar atenção para o potencial de empreendedorismo que representam. Entre os finalistas do prêmio Conexão Cultura, por exemplo, você encontra algumas que abrigam cursos profissionalizantes ou oferecem acesso a deficientes visuais.

Primeiro passo na regulamentação da atuação das LAN houses, o Projeto de Lei 4361/04, em tramitação na Câmara dos Deputados, não elimina o vácuo, entretanto facilita o caminho de quem luta contra ele.

21/06/2010 14:00:59
Guilherme Felitti/Carta Capital

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Fico imaginando o que passa na cabeça dos legisladores brasileiros. Como é que eles pretendem fiscalizar o cumprimento de tal medida?

Milhares de ‘Lan Houses‘ espalhadas Brasil a fora, sequer existem formalmente. Qual a qualificação que tem um simplório funcionário perdido nos confins das aldeias Tupiniquins para conferir a veracidade do documento apresentado pelo usuário? Qual a condição do órgão fiscalizador, em número de funcionários, para percorrer essas milhares de ‘Lan Houses’ conferindo o cumprimento da lei? A impressão que fica é a de que esses legisladores não fazem a menor ideia de como esse seviço está funcionando, a maioria na informalidade, ou acham que a Suíça, e não o Haiti, é aqui.

Podem anotar aí: essa será mais uma daquelas “leis que não ‘pegam’”.

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou um projeto obrigando os estabelecimentos de locação de computadores para acesso à internet, como lan houses e cyber-cafés, a cadastrar todos os usuários do serviço.

Os dados dos clientes (nome, número de identidade e identificação do computador com data e horário do uso) deverão ser armazenados por pelo menos três anos.

Os estabelecimentos que não realizarem o cadastro poderão ser multados em valores que vão de R$ 10 mil a R$ 100 mil, havendo a possibilidade também de cassação do alvará de funcionamento em casos de reincidência.

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O jornalista Luiz Gonzales, responsável nos últimos 15 anos por nove entre 10 campanhas do PSDB em São Paulo, concedeu uma longa entrevista ao jornal Valor sobre a futura disputa Dilma Rousseff x José Serra. A ele caberá tocar a parte de comunicação da campanha de Serra.

O jornalista Luiz Gonzales, responsável nos últimos 15 anos por nove entre 10 campanhas do PSDB em São Paulo, concedeu uma longa entrevista ao jornal Valor sobre a futura disputa Dilma Rousseff x José Serra. A ele caberá tocar a parte de comunicação da campanha de Serra.
blog do Noblat

A internet vai ser importante em 2010?

A cada eleição a internet fica mais importante. E, em 2010, pode até ser a ferramenta mais comentada, pelas novidades que trará. Mas não acredito que será a mais importante. Nas condições de 2010, acho que a TV ainda será mais importante do que a internet, por mais amplas e diversificadas que sejam as ações na internet e por mais tradicionais que sejam na TV. Mário Covas dizia que se ele tivesse pouco dinheiro pagaria advogado e programa de TV e depois contrataria o resto. Se fosse para hierarquizar os veículos que eu usaria, diria que o mais importante é o horário eleitoral, free media [presença dos candidatos no rádio, TV, jornais e revistas], programa eleitoral no rádio e, por fim, a internet.

Por que?

Pela abrangência. O Brasil tem pouco mais de 131 milhões de eleitores. A televisão chega a praticamente todos. Existem 57 milhões de domicílios no Brasil. Há pelo menos um aparelho de TV em 95% desses domicílios – 170 milhões de brasileiros a assistem diariamente. Estima-se que haja até 60 milhões de internautas, com 11 milhões de conexões em banda larga. Ou seja: a televisão chega a muito mais gente. Outra questão é a distribuição geográfica. A TV chega a todo o país de maneira mais uniforme: 96% dos domicílios urbanos têm TV. Na zona rural a presença cai, mas ainda é alta: 78% das residências rurais têm TV. Essa presença avassaladora e bem distribuída não acontece, ainda, com a internet. A internet está mais presente nas regiões Sul e Sudeste, com 60% dos internautas. Mas as regiões Norte e Nordeste que têm, juntas, 34% do eleitorado, só têm 22% dos internautas.

Essa concentração da internet no Sul e Sudeste favorece alguma candidatura?

Acho que a internet vai servir de maneira distinta às candidaturas. Serve mais ao PT do que ao PSDB. Como o PT tem mais dificuldade no Sul e no Sudeste, onde a internet tem mais penetração, o instrumento vale mais. Da mesma forma, se o corte for cidade grande versus cidade pequena, o PT tem mais dificuldade nas capitais e cidades grandes. O PSDB tem mais dificuldade nos grotões. Desse ponto de vista, o que o PSDB precisa é de carro de som nas pequenas cidades. Além disso, a televisão é um veículo impressionista. É um veículo de emoção, que surpreende o telespectador em sua casa. Nessas características essenciais, é insubstituível.

Algumas observações:

a) A essa altura, para argumentar sobre a força da televisão em uma campanha, citar Mário Covas não me parece convincente. Covas morreu em 2001 quando a internet ainda engatinhava por aqui. Foi um político à moda antiga se levado em conta o uso dos meios de comunicação.

b) Gonzales fala da internet como se ela fosse um veículo de comunicação a competir com a tv, o jornal e o rádio. Antes de tudo, a internet é um veículo de mobilização social. Muito diferente dos outros, portanto. Via jornal, rádio e televisão você não consegue montar comunidades dispostas a dissiminar as mensagens de um candidato e de ir à caça de votos para ele. A internet se presta a isso.

Vale a pena ler Como Obama venceu com a Internet; A internet de Barack Obama

c) “Como o PT tem mais dificuldade no Sul e no Sudeste, onde a internet tem mais penetração, o instrumento vale mais [para ele]“. Se o Sul e o Sudeste são fortalezas do PSDB (a conferir no momento certo), e se ali a internet penetra mais, seu uso massivo e inteligente deve ser feito tanto pelo PT como pelo PSDB. O PT para abrir buracos na suposta fortaleza. O PSDB para assegurar a blindagem da suposta fortaleza.

d) Em outra passagem da entrevista, Gonzales afirma que carro de som continuará sendo útil nos grotões do país onde é rala a força do PSDB. Carro de som em campanha está mais para carro de boi no interior do Nordeste. Este país está forrado de celulares. E boa parte dos celulares já acessa a internet.

Serra vem sendo até agora o político mais bem-sucedido no uso do twitter. Tem mais de 100 mil seguidores. Diante do comportamento que adota em relação à internet, sua campanha eleitoral corre o risco de parecer antiga.

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Não bastasse puxar a economia do país para frente, a classe C está dando um show na internet. Promovida a classe média emergente, comprou computador, arrumou banda larga e está mandando ver online. Quem você acha que infla os números brasileiros do orkut (27,3 milhões de visitantes únicos em julho) ou mantém a atividade febril do MSN, com seus 32,1 milhões de usuários, conforme foram registrados pelo Ibope Nielsen Online?

No final de 2008, a penetração da internet na classe C chegava a 39%, segundo dados da TGI Brasil. A projeção do IAB, bureau de publicidade interativa, é que até dezembro chegue a 45%. Assim, quase uma de cada duas pessoas emergentes surfará na web até o final do ano.

Essa penetração de 45% pode não ser lá essas coisas — nas classes A e B, 76% já estão na internet hoje. Mas como a classe C, hoje em dia, é a maior do país, qualquer ponto porcentual na internet causa um maremoto, não uma marolinha. No início desse ano, a Fundação Getúlio Vargas estimava essa turma ascendente — gente com renda familiar mensal entre 1 064 e 4 561 reais — em 97,2 milhões de pessoas. Com a chacoalhada da crise, uma parcela pode ter despencado da classe C para a D — mas esse movimento está longe de ser dramático, porque são os emergentes, e não os ricos, os mais resistentes à crise atual.

Ao mergulhar na web, a classe C expande os números totais da internet brasileira de forma impressionante. Mais uma projeção do IAB: devemos chegar a 68,5 milhões de pessoas na internet no Brasil dentro de quatro meses. Não é nada, não é nada, estaremos incorporando, este ano, 6,2 milhões de internautas, ou seja, mais que uma Dinamarca inteira, e isso só contando quem tem mais de 16 anos de idade. E não estou falando de internauta desinteressado. Nós, brasileiros, já atingimos a marca de 30 horas por mês na web, quando se mede o uso da rede nas casas, de acordo com os dados do Ibope Nielsen Online.

Para alimentar essa expansão, foram vendidos 12 milhões de computadores em 2008 e outros 4,8 milhões no primeiro semestre deste ano, conforme os cálculos da Abinee, a associação brasileira da indústria elétrica e eletrônica. A banda larga deu em 2008 um salto de 45,9% em relação a 2007, conforme os dados do Barômetro Cisco, elaborado pelo IDC. As conexões saltaram de 8 milhões para 11,8 milhões, com graus variáveis de qualidade, mas de qualquer forma com velocidade maior que a das linhas discadas. Vivemos finalmente um círculo virtuoso em que praticamente todo mundo ganha, e ninguém perde. Se a massificação do ensino nos anos 80 deu nessa gororoba atual, e o acesso da classe C aos carros populares nos últimos anos transformou o trânsito caótico de grandes cidades em algo insuportável, na internet não houve trauma algum de absorção dos novos internautas. Muito pelo contrário. Há lugar sobrando para muitos milhões mais.

Sandra Carvalho/InfoOnline

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Esquenta o páreo em direção ao Palácio do Planalto em 2010.

Resumindo: Serra domina a raia, seguido de longe por Ciro Gomes e Dilma Rousseff. Correndo por fora começa a despontar a eco-candidata Marina Silva.

Quanto à corrida para encher os cofres para a campanha, a turma do PT azeita os ‘bits’ e ‘byts’ para fazer da internet a fonte principal de recursos.

Nisso tudo impressiona o fato de que a mesma internet que irá contribuir para ajudar os candidatos é a mesma que está esclarecendo os eleitores. E ninguém ouve nenhum “estrategista” de campanha falar em conquistar eleitores com uma nova linguagem mais interativa e coloquial.

Esse novo eleitor conectado, não está disposto a se curvar à mesma lengalenga que era servida pela propaganda na televisão, lengalenga essa, que até agora pelas amostras apresentadas, migra de mala e cuia para o mundo virtual.

A classe C, antes presa pelo que a propaganda eleitoral determinava pela telinha da TV, está abandonando a sala televisiva e, seja no computador doméstico, seja nas ‘lan houses’, está vivenciando outra realidade. A informação que procura é aquela que fala de sua tribo, que atendente seus anseios e lhe permite uma avaliação mais plural do mundo. Esse eleitor, até agora não considerado pelos midiáticos estrategistas eleitorais, se recusa a receber uma informação filtrada, que visa estupidamente transformá-lo num burro amestrado eleitoral.

Essa classe de novos eleitores, esclarecidos por blogs e redes sociais — no Brasil já são 27,3 milhões de usuários do Orkut, a maior audiência do planeta, e 32,1 milhões de usuários registrados no MSN, segundo dados do Ibope Nielson Online —, não está mais permeável ao oficialismo boçal da propaganda eleitoral de mão única. Segundo a mesma fonte, dentro de quatro meses atingiremos a impressionante cifra de 68,5 milhões de pessoas ‘mergulhadas’ na web! À margem do que pensam os marqueteiros profissionais, essa turma interage globalmente, sendo capaz de construir sua própria visão dos fatos.

Estimados 6,4 milhões de blogs, Twitters e redes sociais é que irão contribuir para equilibrar a batalha da informação contra os sites e blogs oficiais.

O editor



O repórter Lauro Jardim pendurou no seu Radar on-line um par de notas que fazem menção a Dilma Rousseff.

Uma traz boa notícia para a candidata. Outra contém novidade acerba. Primeiro, a boa:

Servindo-se da asse$$oria que fez de Obama um portento monetário na web, o PT monta a usina de arrecadação virtual de Dilma.

Agora a informação ruim: vem aí uma pesquisa que traz Ciro Gomes ligeiramente à frente da dodói de Lula. Vão abaixo as duas notas:

- Estrela esperança: O PT vai montar um ambicioso plano de arrecadação de fundos para a campanha de Dilma Rousseff, via internet e telefone, inspirado na bem-sucedida experiência de Barack Obama.

Foi com esse objetivo que o partido assinou na semana passada um contrato com o marqueteiro americano Ben Self, justamente o responsável pela operação de arrecadação via internet de Obama.

Internamente, o projeto é chamado Estrela Esperança, numa alusão ao Criança Esperança, da Globo.

O objetivo declarado é obter mais dinheiro que a Globo com seu projeto para crianças carentes (na edição deste ano, a emissora recolheu 8,5 milhões de reais).

- Ciro sobe: A pesquisa CNI/Ibope a ser divulgada na segunda-feira trará uma novidade inconveniente para o governo – e não são os cerca de 40% das preferências para José Serra.

O incômodo maior será ver Ciro Gomes em segundo lugar. A diferença real entre Ciro e Dilma Rousseff pode até nem existir, pois está dentro da margem de erro da pesquisa, mas sua divulgação fará grande barulho.

Na mesma pesquisa, Marina Silva começa a dizer a que veio – ela surgirá com 6% das intenções de voto.

Sérgio Lima/Folha de S. Paulo

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