Nem tanto ao céu, nem tanto à terra
por Raquel Balarin ¹/Jornal VALOR
Empresário Eike Batista faz questão de ressaltar que está totalmente alinhado à atual política do governo Lula
Nas lojas GAP em Nova York, há um corner descolado das Havaianas. Em lojas e restaurantes da cidade, vendedores e atendentes falando português. Entre investidores altamente qualificados, um grande interesse pelo Brasil, um entusiasmo com o crescimento da economia e com a forma menos turbulenta como o país atravessou a crise. Todo esse frenesi poderia indicar que o Brasil resolveu todos os seus grandes problemas e que passou, finalmente, ao primeiro time. Uma entrevista dada esta semana a jornalistas estrangeiros pelo empresário Eike Batista, controlador do grupo EBX, em Nova York, mostrou, entretanto, como essa euforia tem mascarado desconfianças, preconceitos e temores em relação ao país.Entre os temores estão a ainda forte dependência da economia brasileira do mercado de commodities, e, por consequência, do consumo do mercado chinês, hoje o grande comprador de matérias-primas de todo o mundo. Teme-se ainda a relação do Brasil – governo e setor privado – com regimes autoritários, como é o caso da própria China e também do Irã, as políticas que estabelecem percentuais mínimos de conteúdo nacional em grandes projetos, que são muitas vezes comparadas às políticas protecionistas de antigos governos, e a informalidade e sonegação de impostos.
“Muitos ainda têm uma visão do Brasil da década de 80″, desabafou Eike depois de um de seus encontros, visivelmente contrariado com algumas das perguntas. Palestrante principal do evento “Invest in Rio“, promovido em Nova York pelo Valor e pelo jornal americano “The Wall Street Journal”, o empresário praticamente deixou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no chinelo ao assumir o papel de grande defensor do país. A uma plateia de investidores, disse ser um “soldado” a serviço do Brasil, depois de explicar como já havia feito negócios em todo o mundo – do Chile à Rússia, passando pela Grécia e República Tcheca – até se dar conta, no ano 2000, de que a grande oportunidade para empreendimentos de recursos naturais estava no Brasil.
Com um tom para lá de ufanista, ele fez elogios ao surgimento de uma nova e séria classe política no país, destacou que os grandiosos investimentos de infraestrutura feitos na década de 70 contribuíram para a formação de profissionais com alto grau de conhecimento no segmento e fez questão de frisar que o consumo doméstico é o grande motor de crescimento do Brasil, em uma tentativa de relativizar a dependência do país às commodities.
No quesito diversificação e modernização da produção brasileira, o empresário faz questão de ressaltar que está totalmente alinhado à atual política do governo Lula. Defende as exigências de até 70% de conteúdo nacional (para a produção de navios e plataformas de petróleo, por exemplo), dizendo que com os 30% restantes pode adquirir a melhor tecnologia disponível no mundo, firmando acordo de transferências desse conhecimento. “É o que todos os países estão fazendo hoje. Por que não o Brasil?”, questiona.
Também mostra sincronia com o governo petista ao ressaltar que, em suas negociações com os chineses, têm dito que para cada três toneladas de minério de ferro vendidas, uma delas deve ficar no Brasil, para ser transformada em aço. “É assim que podemos deixar de ser exportadores de commodities”, explicou. Desde o início da gestão Lula, o governo vem insistindo com as mineradoras – em especial, a Vale do Rio Doce – para que invistam em siderúrgicas, agregando valor ao minério produzido no Brasil.
Eike adota um tom exageradamente otimista ao falar de Brasil. Por outro lado, um arsenal de críticas e preconceitos também parece não fazer jus à evolução vivida pelo país nos últimos 16 anos. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. O bom-senso indica que deveríamos seguir o caminho do meio. O otimismo e a euforia com o país não devem nos cegar em relação ao que ainda precisa ser feito, da mesma forma como esse hábito de criticar o Brasil e de desvalorizá-lo não deve nos impedir de admitir que o Brasil de hoje é, de fato, um novo país.
O arcabouço institucional é mais sólido, o acesso à educação, mais abrangente, a democracia está consolidada e o Brasil goza da confiança do mercado financeiro internacional. Não seria uma boa hora para uma reforma política ou um arranjo decente para o nosso intrincado sistema tributário? O próximo presidente poderia aproveitar os bons ventos para arrumar ainda mais a casa. Atitudes assim ajudariam a enterrar de vez aquela imagem do Brasil na década de 80.
¹ Raquel Balarin é diretora de Conteúdo Digital
E-mail: raquel.balarin@valor.com.br








