As pessoas, em geral, têm dificuldade de perceber os perigos, mesmo quando são iminentes. Na verdade, têm dificuldade de ser contemporâneas do presente, porque não habitam o presente. Isso acontece com todas as pessoas, autocratas ou democratas. Elas têm dificuldade de identificar os sinais da catástrofe, no sentido matemático do termo – de mudança de estado do sistema (da Teoria da Catástrofe de René Thom) – ainda quando já estejam dentro da catástrofe.

Os autocratas russos não perceberam o colapso da União Soviética, nem mesmo às vésperas da bancarrota do regime. O mesmo aconteceu com os autocratas romenos (que não viram que o governo comunista de Nicolae Ceauşescu poderia cair violentamente em uma semana).

Os democratas italianos e alemães não perceberam o perigo da ascensão de Mussolini e de Hitler, nem mesmo quando tudo já estava perdido.  Os democratas americanos não perceberam o perigo Trump (não por Trump ser o boçal que é, mas pelo que vinha junto no pacote). Os democratas ingleses não perceberam o perigo Brexit (agora boa parte dos ingleses está arrependida, mas é um pouco tarde).

Da mesma forma, os democratas brasileiros não perceberam o perigo da ascensão do PT, sobretudo durante os dois primeiros governos Lula. Os sinais daquela época de assalto ao Estado por uma organização política criminosa (2003-2010) – que já estava estruturada desde a segunda metade da década de 1990 – não foram percebidos pelos democratas. E nem pelos autocratas.

Sim, no campo autocrático, os antipetistas de hoje são todos tardios: antiglobalistas-conspiracionistas, militaristas-intervencionistas, monarquistas-tradicionalistas, católicos-medievalistas, protestantes-vigaristas e empresários-oportunistas, não deram um pio enquanto o projeto neopopulista lulopetista lançava as bases de sua “revolução pela corrupção”. Só botaram a cara de fora muito depois, quando o povo foi às ruas exigir o impeachment de Dilma. O bolsonarismo inexistia e o oportunista-eleitoreiro Jair Messias Bolsonaro permanecia na base do PT (no partido mais corrupto dessa base, o PP), como um político fisiológico do baixo clero, preocupado apenas em defender propostas corporativistas.

E assim como quase ninguém percebeu os perigos do lulopetismo, hoje também boa parte dos democratas não percebe os perigos do bolsonarismo. Na esteira das manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff avolumou-se um antipetismo, mas pouquíssimos viram – açulados pelas campanhas de combate à corrupção promovidas por uma corporação de procuradores analfabetos democráticos enquistada no Estado – que tudo isso ia desaguar num projeto autoritário e autocrático.

O impeachment e a operação Lava Jato não acabaram com o petismo, apenas ensejaram a formação de um antipetismo adversário da democracia. Foi assim que dois projetos autocráticos – o lulopetismo e o bolsonarismo – sobreviveram e tornaram-se dominantes. E estão a um passo de alijar os democratas da cena pública. Ou seja, a catástrofe já aconteceu. Não depende mais dos resultados eleitorais de 2018.

Chegamos agora a 20 dias das eleições e o quadro é assustador. Tomemos como exemplo a mais recente pesquisa eleitoral, divulgada pelo Ibope em 18/09/2018. Uma análise dos números revela que a democracia foi derrotada pela antipolítica.

A DEMOCRACIA DERROTADA PELA ANTIPOLÍTICA

Os números são da pesquisa do Ibope, mas também valem para as pesquisas de qualquer instituto:

Bolsonaro, 28%; Haddad, 19%; Ciro, 11%; Alckmin, 7%; Marina, 6%; Álvaro Dias, 2%; João Amoêdo, 2%; e Henrique Meirelles, 2%.

Ou seja, todos os cinco candidatos do campo democrático somados têm 19% e estão caindo. Esta soma é a mesma de Haddad (sozinho), que está subindo e deve tirar Ciro do páreo. Os candidatos do campo autocrático da chamada esquerda (Haddad + Ciro + nanicos têm 30%).

Enquanto isso Bolsonaro, o único candidato viável do campo autocrático da chamada direita tem 28%, mas está subindo. Ou seja, o campo autocrático tem quase 60% (58%, mas este número está crescendo).

Para onde foram os votos democráticos?

Foram consumidos pela revolta com a velha política e pela raiva estimuladas, em grande parte, pela instrumentalização política da operação Lava Jato. Boa parte migrou para o campo autocrático e foi desaguar em Bolsonaro (possivelmente a metade dos seus 28%).

Atenção, cortadores de cabeças, cruzados da limpeza na política, vocês, jacobinos, antipolíticos robespierrianos da pureza, analfabetos democráticos restauracionistas, adeptos da guerrilha antagonista da terra arrasada, que queriam fazer a revolução francesa com 200 anos de atraso: vocês não acabaram com a corrupção (como se verá em breve), mas nos jogaram no cenário do horror: a captura da disputa política pelo campo autocrático (e o alijamento dos democratas da cena pública).

Os candidatos do campo democrático, com seus discursos oportunistas, seja querendo pegar a onda da indignação com a corrupção, seja querendo se apresentar como únicos representantes da nova política contra a velha, seja querendo aparecer como os únicos novos de verdade, fortaleceram – objetivamente – a antipolítica. Se deram mal. A antipolítica já tinha dono no campo autocrático: Jair Bolsonaro.

Álvaro Dias, que quis faturar em cima da popularidade de Moro e ser o campeão contra a corrupção no Planalto, reduziu-se a 2%. Foi a derrota do oportunismo, que não combina bem com democracia.

Marina Silva, apesar do seu recall altíssimo, ao se apresentar como a própria encarnação da nova política, foi barbaramente desidratada, caindo pela metade em menos de um mês (de 12 para 6%). Foi a derrota do “avatarismo socialista do bem”, que também não combina muito com a democracia.

João Amoedo, com sua pretensão de ser o único verdadeiramente novo (querendo se capitalizar para disputar o mercado futuro de 2022 ou 2026 – e que se dane o país real de 2018, 2019, 2020, 2021), voltou (ou ficou) no que sempre foi: um candidato da margem de erro (2%). Sua tal “onda laranja” (que só existe no Facebook) não se avolumou (como juravam os amoedistas, que adotaram um estilo militante-intolerante parecido com os marinistas, os petistas e os bolsonaristas). Foi a derrota do egoísmo e do patriotismo de partido que, igualmente, não se dão muito bem com a democracia.

Ou seja, o desempenho deplorável de todos esses candidatos tidos por novos, foi a vitória da antipolítica que, definitivamente, não combina com a democracia.

Meirelles (com seus 1, 3, 2%) nunca foi levado muito a sério como candidato. Não é do ramo. Não tem discurso. Nem teve como se desvencilhar de um governo que foi destruído por todos os adversários da democracia (os lulopetistas, os bolsonaristas e os instrumentalizadores políticos da Lava Jato: unidos pelo pacto de sangue do Fora Temer com a ajuda dos grandes meios de comunicação).

Alckmin (que voltou aos seus 7%) nunca se apresentou como novo e não fez discursos contra a política, mas também nunca foi um bom candidato. De qualquer modo, não poderia decolar num ambiente em que os votos democráticos se pulverizaram tanto. Está sendo vítima da antipolítica (autocrática, da direita e da esquerda, mas inclusive pregada por candidatos do próprio campo democrático) e responde pelo tremendo passivo histórico do PSDB, de não ter feito oposição para valer ao PT durante mais de uma década. Atitudes têm consequências e, como se diz, elas vêm depois. Quem foi vacilante, leniente e conivente com o assalto do PT ao Estado, não poderia mesmo esperar que os eleitores fossem tomados por uma espécie de amnésia coletiva.

Não havendo nenhum fato extraordinário – como já assinalei em numerosos artigos – a causa está perdida. Nestas circunstâncias, mesmo que um candidato do campo democrático consiga botar o nariz acima da linha d’água, a democracia já perdeu. Alckmin (ou qualquer outro), eleito, não teria o mínimo necessário de estabilidade política para governar.

Seja qual for o resultado do pleito, teremos, pelo menos, uma década de guerra civil fria pela frente. Os democratas devem se preparar para resistir, tendo como horizonte, talvez, 2030.

A catástrofe já aconteceu, já estamos em outro mundo – em outro “espaço de fase” – e muitos ainda não perceberam que estão na antessala de uma idade das trevas que se instalará logo adiante. Como disse a saudosa Jane Jacobs, no título de um de seus últimos livros: Dark Age Ahead.
Augusto de Franco/Dagobah