Nem George Orwell em seu premonitório romance 1984, imaginou que um dia chegaríamos na dimensão do atual estágio do controle da informação. Reflexão sobre o tema faz o cientista Silvio Meira¹, no portal G1.
É informação? Deixe comigo, cuido de tudo…
¹Silvio Meira
Professor Titular de Engenharia de Software do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco em Recife, cientista-chefe do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (C.E.S.A.R) e engenheiro formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).
Umas poucas companhias vão fornecer toda a infra-estrutura, informação, software e serviços que você precisa. Será mais um mercado a ser regulado?
Imagine que você tivesse um plano para ser o provedor de todo o software que os seres humanos usariam. E não só: esse software seria provido como serviço e a partir de seus servidores, espalhados por todo o planeta. Como se não bastasse, e se você tivesse um plano pra ser o dono, também, de parte da infra-estrutura de comunicação que levasse os usuários e seus dados àqueles sistemas e servidores de que já falamos?…
Comunicação e computação, em conjunto, a preço perto de zero para muitos, com patrocínio de outros. Todos os dados de quase todo mundo no mesmo lugar e passando pelas mesmas redes de comunicação, sob seu comando.
Parece um plano de dominação do mundo, pois não? Daqueles que vilões delirantes de filmes de super-heróis costumam ter e que, com invariável precisão, dão errado nos últimos minutos, quando, logo antes do beijo na mocinha, nós e o planeta somos salvos pelo herói.
E se não for um plano de dominação do mundo, mas parte de um mantra corporativo cujo propósito é “organizar toda a informação do mundo”? E se, para tal, houver dinheiro que não acaba mais, a ponto de destinar quase US$ 5 bilhões só para participar da compra de licenças para operar telefonia celular (começando por um mercado saturado como os EUA)?
O nome do fenômeno é fácil de advinhar: Google.Depois de dominar (à exceção da China, onde perde para Baidu) a organização e busca de informação na internet, aí incluídos e-mails, mapas, aplicações de todos os tipos e, agora, plataformas de software, Google decidiu que precisa, para melhor servir a seu público, estar dentro das redes físicas e móveis e, se der, dentro dos celulares, que é onde todo mundo, de resto, quer estar.
E quando se tem recursos para tentar, as coisas são bem mais prováveis: o dinheiro que já foi separado para lutar por freqüências móveis é só um terço do caixa da companhia, que pode alavancar muito mais, se for preciso e fizer sentido.
Claro que há outros jogadores no campo, como a Microsoft, principal professor de Google, que aprende muito rápido com o mestre. Robert Cringely diz simplesmente que Google é “a próxima Microsoft”. Não porque esteja fazendo as mesmas coisas que Redmond faz, mas porque, à medida em que se transforma em monopólio, fica cada vez mais difícil se comportar como o start-up que tinha relativamente poucos recursos e prometia “não fazer o mal”.Hoje, a companhia se compromete, publicamente, a “reparar” todo o mal que faça, se isso acabar comprovado. Mas imagine-se, você lá do começo do texto, a caminho de um monopólio e, já hoje, com valor de mercado de US$ 200 bilhões (a Microsoft vale US$ 320 bilhões e a IBM, US$ 150 bilhões). Que advogados você poderia pagar para comprovar que você, e não a pequenina empresa do lado que acabou de ser destruída por um de seus movimentos, estava certo?
É difícil ser monopólio. Muito difícil. A IBM já teve seus dias e a Microsoft ainda os tem hoje. Google é o próximo da lista, pois parece inevitável que seja assim.
Já que o mundo caminha em tal direção, e informação, comunicação e computação vão virar serviços mesmo, fornecidos e bilhetados à maneira que telefonia, água e energia elétrica o são, hoje em dia, o destino final é estruturar e regular o mercado de “informaticidade” em prol dos consumidores, garantindo inovação permamente e competição justa.
Danado é fazer isso sem que as patas do governo - aqui ou em qualquer lugar - estraguem não só os negócios, mas os serviços que eles nos fornecem. Se dependesse das estatais ou monopólios privados e a regulação da época, a internet não teria existido.
A Embratel fez o que pôde, no Brasil, pra evitar a rede e, depois de entendê-la inevitável, fez tudo para ser o “único” provedor do país. Queria ser o Google do tempo, sem nenhuma outra credencial a não ser a posse de boa parte da infra-estrutura nacional de informação.
História pra ser lembrada e contada aos filhos e netos, à medida em que Google começa, por sua vez, a ter vontade de ser uma “embratel” lá no futuro… ao mesmo tempo em que nos lembramos de que ninguém “cuida de tudo”, pra ninguém, por nada.


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