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Artigo – Entre Abaetetuba e o Panopticum

O absurdo caso da menor presa no Pará, em uma cela com outros presos do sexo masculino, continua repercutindo, negativamente, é claro, mundo afora.

Sua (dela) excelência Ana Carepa, Governadora do Pará, “inovou” em matéria de decisões “enérgicas” de governo. Mandou demolir a prisão da cidade de Abaetetuba. Quer dizer, mandou tirar o sofá da sala.

A governadora nada fica a dever, em matéria de justificativas, aos seus auxiliares. Um, o delegado da cidade, declarou em audiência na Comissão de Justiça do Senado que “a menor devia sofrer de problemas mentais”. Um outro, indiretamente, deixou implícito que a vítima era a culpada da violência sofrida – teve que prestar favores sexuais aos presos em troca de alimentação – por não ter se declarado menor de idade.

Uáu!

Sobre o assunto leia abaixo o excelente artigo do blog Wálter Maierovitch¹

“Hoje cedo apanhei um material empoeirado. Do tempo que dava aulas de direito penitenciário e de processual penal. Isto no curso de preparação para ingresso na Magistratura e no Ministério Público. O curso era patrocinado pelo Instituto dos Advogados de São Paulo, que teve como um dos fundadores Rui Barbosa e dele nasceu a Ordem dos Advogados do Brasil.

Referido curso levava o nome do falecido desembargador Arruda Sampaio, que é pai do ilustre Plínio de Arruda Sampaio, ex-PT e agora no Psol. O material supracitado estava dentro do livro do Jeremias Bentham, filófoso inglês cujo pensamento influenciou a Revolução Francesa.

Em 1818, Benthan escreveu a obra “Teoria das Penas e das Recompensas”. E com a sua genialidade elaborou o projeto do “Panopticum”.

Bentham era contra os excessos punitivos. Para ele bastava o castigo da pena. Nada de extras, como jogar mulher em cela masculina (caso de Abaetetuba), ou outras barbáries do tempo da Inquisição: o arrancamento da língua e a fogueira, como ocorreu com Giordano Bruno, no “Campo dei Fiori”.

Em face disso, Bentham arquitetou um presídio circular, o “Panopticum”. No centro do presídio ficaria o diretor. Assim, esse diretor teria a visão completa de todas as celas, de modo a impedir eventuais abusos.

Evidentemente, o “Panopticum” de nada serviria para conter os abusos de poder em Abaetetuba. Lá, o problema é que as autoridades,– envolvidas no caso da menor violentada–, não sabiam que o Direito Natural do Ser Humano (que não precisa ser escrito, pois é da essência do homem), a Constituição da República e a Lei de Execução Penal, proíbem a colocação de homens e mulheres na mesma cela.

E a prova do desconhecimento ficou patente pelo Jornal da Globo de ontem: a delegada que trancafiou a menor disse que não tinha outra saída legal.

Outro ponto decorrente. A governadora do Pará anunciou que vai destruir a carceragem de Ibaetetuba. Coitados dos paraenses. A governadora ainda não percebeu que o problema está no despreparo das autoridades e não na destruição do sofá, ou melhor, da carceragem. Seria melhor a governadora iniciar, imediatamente, cursos para educar os agentes da sua autoridade à legalidade, ou seja, ao conhecimento e ao cumprimento da lei.

Hoje, no boletim Justiça e Cidadania da CBN, fiz uma bricadeira, tipo “quiz”, com o jornalista Milton Jung, que acabou de voltar de Estocolmo.

A pergunta: A lei que estabelece a obrigatoriedade de celas individuais, com área mínima de 6 metros quadrados, salubridade, aeração, insolação e condicionamento térmico, é da Suécia ou do Brasil ? Essa disposição está no artigo 87 da brasileríssima e vigente Lei de Execução Penal, que é de 1984. E a lei de execução penal estabeleceu, – e nunca foi cumprida no particular -, que a União não daria nenhuma ajuda financeira ao Estado que deixasse de cumprir suas regras.

¹Sobre Wálter Maierovitch

Wálter Fanganiello Maierovitch, 60 anos, é comentarista da CBN, colunista da revista Carta Capital e colaborador da revista italiana Narco-Mafie.

Desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo e presidente e fundador do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone de Ciências Criminais, é também professor de pós-graduação em direito penal e processual penal, além de professor-visitante da Universidade de Georgetown (Washington-EUA).

É conselheiro da Associação Brasileira dos Constitucionalistas-Instituto Pimenta Bueno da Universidade de São Paulo (USP), ex-secretário nacional antidrogas da Presidência da República, titular da cadeira 28 da Academia Paulista de História.

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5 Comentários até o momento. Faça o seu também!

  1. Séria, e oportuna a escrita do Prof. Wálter Maierovitch. Em tempos de justiça rasteira e delitos abissais a opinião do desembargador no minimo nos alenta a continuarmos denunciando e combatendo a barbarie medieval que protagoniza
    os piores atos, ainda impunes infelizmente, nas carceragens de TODO o país. É um problema maior para ser tratado com o devido rigor pela sociedade como um todo e não com manobras diversionistas de decoração de interiores como
    bem colocado no introito da noticia.
  2. A afirmação do delegado sobre uma suposta deficiência mental da vítima não me surpreende, afinal, não se pode esperar muito de delegados de polícia no Brasil, salvo as exceções de sempre. O que me causou espanto e espécie foi uma juíza da jurisdição ter tomado oficialmente conhecimento do caso e mantido, oficialmente, em despacho, a situação como estava. Uma Juíza !

    Pelas leis brasileiras, para haver estupro é preciso haver vagina. Como fica a situação, que é de conhecimento geral, dos homens que são sodomizados à força rotineira e tradicionalmente nos presídios tupiniquins? Neste caso, o crime é de violento atentado ao pudor.

    Antevejo uma saída para a moça em questão. Quem sabe um “ghost writter” não a ajuda com um “Memórias do Meu Cárcere”.

  3. Sra. Alexandra e Cia…
    Num dos links do portal da GOOGLE, sob o verbete ‘Abaetetuba’ encontrei, casualmente, e li o artigo assinado por Você e outras colegas (19/07/08).
    • A falta de documentação mais crítica e ampla,
    • o sensacionalismo das notícias veiculadas pela mídia nacional (sobretudo a ‘global’),
    • o denuncismo contra os crimes dos outros,
    • o posicionamento desfavorável do bispo Dom Flavio Giovenale (sem acento no ‘a’ e com ‘e’ no final) e sua discutível entrevista em relação às ameaças (que tem mais a ver com o narcotráfico do que com o caso da menina estuprada),
    • o desconhecimento das políticas sociais do governo local, do trabalho das entidades da sociedade local (que não se reduzem à ação da Pastoral do Menor, que não é nem a primeira nem a última a se posicionar no caso, mas que no seu site destaca somente as entidades ligadas à Igreja Católica e desconhece as outras, bem ativas, da sociedade civil) e, sobretudo,
    • a hipócrita disfarçada melosidade do auto-elogio na comparação com a vida na sua terrinha (BH X Abaetetuba) Me deram nojo.
    Me admiro de seu sectarismo ‘moralista’. Como se permitem enaltecer Belo Horizonte e embrutecer Abaetetuba somente por notícias veiculadas pela mídia?
    Não existissem problemas sociais por ai? Não há roubos, assassinatos, estupros de mulheres, de crianças e adolescentes, mortes violentas, crimes de colarinho banco, políticos e juizes corruptos, discriminação racial, de gênero e outras maldades, que infelizmente aparecem nos jornais, nas revistas, na TV e na internet?
    Mesmo que a sociedade de BH fosse um exemplo mundial de comportamento ‘inocente e angelical’ – Vocês, por ética profissional, deveriam redigir com mais cautela seus artigos, quando tratam dos aspectos ‘mais tristes e dramáticos’ da sociedade brasileira, paraense, mineira, carioca, gaúcha, cearense, maranhense, etc. nacional.
    (da internacional é suficiente lembrar o bárbaro caso de pai que prendeu, estuprou, fez incesto, fez filhos e netos na sua própria filha, etc. na Áustria durante 27 anos)
    Fazer ingênuas e irresponsáveis comparações tomando como referência o ‘crime’ acontecido em Abaetetuba – que trouxe à luz tantas atrocidades e bestialidades no Brasil afora, em outros estados e municípios do País, sem falar dos muitos casos desconhecidos, encobertos, etc. em muitas famílias ditas ‘normais’, que nunca serão descobertos, dos quais, além de Deus, somente a lua e as estrelas têm conhecimento – não faz de Vocês dignas representantes do jornalismo nacional e estadual, nem da sociedade mineira!!!
    Simplesmente, peço que sejam mais humanas e que no próximo artigo, além de pedir desculpas aos seus leitores, os ajudem a descobrir que no meio de tanta sujeira, têm muita coisa bonita, solidária e heróica nas outras cidades também (incluindo Abaetetuba).
    Venham nos visitar! Haverá famílias e casas dispostas a lhes hospedar de graça, sem saber o por quê de sua visita. Será suficiente um pouco de esforço de parte de Vocês para descobrir que a sociedade humana de Abaetetuba é como a mineira: tem do ‘bom e do ruim; é sincera e oportunista; ética e desonesta como nossas famílias, vizinhos, amigos e inimigos’… humanos e filhos de Deus no bem e no mal.
    Deus e as estrelas já sabem que o mal não está sempre nem somente de um lado só.
    Procurem, descubram, conheçam e divulguem as coisas belas, éticas e solidárias, em lugar de comparações odiosas, sectárias e racistas, além de bairristas.
    Tchau. Um beijo. Ângelo Paganelli
  4. Quem tem boca fala! Quem fala o que quer, acaba ouvindo o que deve ouvir! Neste caso, ler!
    Peço autorização do Paganelli, meu irmão de terra e de luta, para emprestar as suas palavras. Pois na falta de uma melhor crítica ao texto do Blog, tenho certeza que as posso usar!
  5. Axu ki vcs poderiam colok coisas mais interessantes de abatetuba ta certo que isso e um marco digamos + não enteressa a nós e principalmente ao nosso trabalho de escola que estamos pesquisando sobre abaeté

    xau =P

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