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Élida Maria Aragão – Versos na tarde – 25/05/2018

Élida Maria Aragão

Às vezes um blues
Noutras um tango argentino
Sigo encantando-me com a disritmia
Dos bailes loucos do destino

Vida bela, enigmática…
Não quero a tua consolação
Quero dar a cara a tapa
Não me atrai o teu perdão

Se sangras-me com o espinho
Presenteio-te com a flor
Se tentas roubar-me o riso
Apresento-te o paraíso

Na estrada incerta da vida
Não sei aonde vou parar
Mas se me reconheceres
Convide-me prá dançar

 

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Arte – Cerâmica

Cerâmicas de Jeremy Randall#Arte #Cerâmica #BlogdoMesquita #Jeremy #Randall 1

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O EXAME DE DROGAS PARA CARTEIRA DE MOTORISTA É INEFICIENTE E ESTÁ SENDO PAGO POR VOCÊ

A TRAGÉDIA DA VIOLÊNCIA no Brasil vai além das milhares de pessoas assassinadas. Ela também ocorre no trânsito.

 Em 2016, os acidentes mataram mais de 35 mil pessoas. Em uma década, são mais de 400 mil mortes decorrentes de desastres com caminhões, carros, ônibus e motos, incluindo os atropelamentos. É urgente agir para reduzir esses números e fomentar políticas que previnam a combinação de consumo de álcool e outras drogas com direção, um dos aspectos mais relevantes para a segurança no trânsito.

Nos últimos anos, porém, a ausência de uma discussão aprofundada e amparada em evidências somada a ações oportunistas e demagógicas do governo federal levaram o Brasil a adotar uma política cara, ineficaz e discriminatória que replica, no transporte, os equívocos da política contra as drogas. E, se depender de um esforço coordenado em andamento, isso pode piorar.

Trata-se do exame toxicológico de larga janela de detecção que, a partir da implantação da lei 13.103, de 2015, se tornou obrigatório para qualquer pessoa que queira solicitar ou renovar uma permissão de dirigir veículos automotores nas categorias C, D e E – aquelas que permitem que motoristas exerçam atividade profissional. Esse teste é realizado em amostras de cabelo, outros pelos do corpo ou unhas e deve ser capaz, segundo a lei, “aferir o consumo de substâncias psicoativas que, comprovadamente, comprometam a capacidade de direção e deverá ter janela de detecção mínima de 90 (noventa) dias, nos termos das normas do Contran”.

Os grupos de drogas que têm que ser pesquisados são as anfetaminas, os canabinoides, os opiáceos, a cocaína e o mazindol. Curiosamente, e sem nenhuma justificativa, outras drogas psicoativas com demonstrado potencial de dependência e que podem comprometer a capacidade de direção, como os benzodiazepínicos, não foram incluídas na lei. O exame, então, passou a ser realizado somente por laboratórios credenciados pelo Denatran.

Um intenso lobby já garantiu a obrigatoriedade do exame em todo país e, agora, seu objetivo é derrubar qualquer obstáculo judiciário ao exame e, mais a frente, torná-lo obrigatório para qualquer categoria de motoristas – ou seja, para todas as pessoas que dirigem veículos de qualquer tipo no Brasil.

Antes de tudo, há inúmeros problemas técnicos com o exame:

  1. Ausência de locais apropriados para coleta de material em todo o território nacional: muitos postos de coleta disponíveis pelos laboratórios atualmente credenciados não têm estrutura para adequada para essa tarefa.
  1. Foram demonstradas falhas na interpretação dos resultados: para citar um exemplo, o resultado positivo para canabinoides (derivados da maconha) detectados no cabelo pode não estar relacionado ao uso dessas drogas por quem passou pelo exame.
  1. Os exames não estão considerando a diferença entre pelos corporais e do couro cabeludo: os primeiros são incapazes de servir como parâmetro para averiguar o uso de substâncias psicoativas nos últimos 90 dias.
  1. Não existe nenhuma indicação que exame em unha, cuja ocorrência já foi relatada pela imprensa, possa ser utilizado para fins de prevenção de acidentes.
  1. Tem ocorrido atraso nos laudos e, consequentemente, perda da validade do exame (60 dias).
  1. Inexistem evidências científicas que apontem para a eficácia da medida do ponto de vista de segurança no trânsito: nenhum país do mundo adota esta política para aumentar a segurança no trânsito.

Ainda que o exame não tivesse todos esses problemas listados, obter a informação de que alguém fumou maconha, cheirou cocaína ou consumiu algum opiáceo ou anfetamina há 90 dias não comprova que a pessoa tenha dirigido sob o efeito de drogas – ou o que irá fazê-lo no futuro.

Além disso, o exame não é suficiente para atestar que essa pessoa faça uso problemático ou seja dependente dessa substância, assim como não seria se o exame apontasse que, há 90 dias, ela consumiu bebidas alcoólicas.

Ao contrário, o exame pode reforçar o estigma que já recai sobre pessoas que consomem substâncias psicoativas ilícitas. E, pior, caso essa mesma pessoa realmente esteja no limiar de um uso problemático – convém, também, não ignorar as consequências de exames falsos-positivos –, a exclusão do direito de dirigir profissionalmente pode torná-la ainda mais vulnerável à discriminação de seus potenciais empregadores.

A obrigatoriedade desses exames, cujo custo milionário é bancado por cidadãos brasileiros, produz um diversionismo para ações que, de fato, poderiam reduzir as estatísticas dramáticas de acidentes de trânsito. Por exemplo: a falta de fiscalização para flagrar quem está dirigindo sob efeito de alguma droga psicoativa – principalmente o álcool, que é, de longe, a substância que mais está relacionada a acidentes no Brasil – ou cometendo outras imprudências, como o excesso de velocidade.

O mínimo que se espera para colocar em prática uma medida com esse custo econômico e social seria uma avaliação de seus potenciais benefícios. Tomar como critério de sucesso a redução do número de pessoas que estão pleiteando autorização para dirigir – como tem sido feito pelo lobby a favor do exame – é o equivalente lógico a comemorar uma redução do número de voos comerciais pelo seu potencial de diminuição de acidentes aéreos.
Fonte:TheIntercept

Foto em destaque: Exame do bafômetro é uma das medidas eficazes contra acidentes e deveria ser reforçada. Crédito: Eduardo Anizelli/Folhapress

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C. S. Lewis

Reflexão na noite
Dor
 
Nunca ninguém me tinha dito que a dor se assemelhava tanto ao medo. Não que esteja assustado, mas a sensação é a de estar assustado. A mesma ânsia no estômago, o mesmo desassossego, os bocejos. Não paro de engolir em seco.
Noutras alturas é mais como estar ligeiramente ébrio ou ter sofrido uma pancada na cabeça. Há uma espécie de pano invisível entre mim e o mundo. Sinto dificuldade em compreender o que me dizem. Ou talvez dificuldade em desejar compreender.
 
É tudo tão desinteressante. E no entanto, quero ter pessoas à minha volta. Temo os momentos em que a casa fica vazia. Se ao menos falassem uns com os outros e não comigo.
Há momentos em que, ah!, tão inesperadamente!, algo dentro de mim tenta convencer-me de que, afinal, não sinto assim tanto, não tanto como isso. O amor não é tudo na vida de um homem. Eu era feliz antes de ter conhecido H. Sou uma dessas pessoas que têm muito “a que se agarrar”. Estas coisas acabam por passar. Vá lá, não pode ser assim tão mau. Envergonha-nos darmos ouvidos a esta voz mas, por um momento, parece estar a sair-se bem. E depois é a súbita punhalada do ferro em brasa da memória e todo esse “bom senso” se desfaz em nada como uma formiga na boca de um forno.
 
No ressalto passamos às lágrimas e ao patético. O sentimentalismo das lágrimas. Quase lhes prefiro os momentos de agonia. Pelo menos esses são límpidos e honestos. Mas o banho de autocorniseração, esse lamaçal, o repugnante prazer, pegajoso e adocicado, de lhe ceder — desgosta—me. E, mesmo quando a ele me abandono, sei que só pode levar-me a deturpar a imagem da própria H. Dê eu mão livre a essa disposição e em poucos minutos terei trocado a mulher real por uma mera boneca sobre a qual choramingar. Graças a Deus, a memória que dela tenho é ainda demasiado forte (mas será sempre demasiado forte?) para me permitir chegar a tal ponto.
Porque H. não era nada assim. O seu espírito era flexível, rápido e enérgico como um leopardo. Paixão, ternura ou dor, nada conseguia desarmá-lo Farejasse ele a mínima baforada de hipocrisia ou pieguice, logo saltava e nos deitava por terra sem nos dar tempo sequer a perceber
o que tinha acontecido.
 
Quantas das minhas bolhas de autocomiseração não fez ela rebentar?! Bem depressa aprendi a deixar-me de baboseiras ao falar com ela, a não ser pelo puro prazer — e aí volta a punhalada do ferro em brasa — de a ver apanhar-me em falta e rir-se de mim, Nunca fui tão pouco tolo como enquanto apaixonado de H.
 
E também nunca ninguém me falou da indolência da dor. Exceto no meu trabalho, onde o mecanismo parece continuar a mover-se praticamente corno de costume, abomino o mínimo esforço. Não apenas escrever mas até ler uma carta já é demais. Até barbear-me. Que importa agora se o meu queixo está áspero ou macio? Diz-se que o homem infeliz quer distrações, algo que o faça esquecer-se de si próprio. Talvez, mas só na medida em que um homem, completamente derreado, poderá precisar de mais um cobertor numa noite gelada. Vai preferir ficar para ali a tiritar que levantar-se para o ir buscar. É fácil entender por que motivo os solitários se tornam desleixados e, finalmente, sujos e nojentos.
 
C. S. Lewis
trad. Carlos Grifo Babo
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Henrik Nordbrandt – Versos na tarde – 24/05/2018

Pragmático
Henrik Nordbrandt

As coisas que existiam antes de tu morreres
e as coisas que surgiram depois:

Ás primeiras pertencem, antes do mais,
as tuas roupas, as jóias e as fotografias
e o nome da mulher que te deu o nome
e também morreu jovem…
Mas também um par de receitas, o arranjo
de um certo canto na sala,
uma camisa que me passaste a ferro
e que guardo cuidadosamente
debaixo da minha resma de camisas,
Algumas peças de música, e o cão
sarnento que por aí anda
Com um sorriso estúpido, como se ainda aqui estivesses.

Às últimas pertencem a minha caneta,
um perfume conhecido
na pele de uma mulher que mal conheço
e as novas lâmpadas que pus no candeeiro do quarto
que iluminam o que leio acerca de ti
em todos os livros que leio.

As primeiras recordam-me que exististe,
as últimas que já não existes.
Que sejam quase indistinguíveis
é o mais difícil de suportar.

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Alberto Dines: Entre o cosmo sangrento e a alma pura

O jornalismo pátrio hoje é basicamente reativo. Da política à cultura, passando pela economia. E o recurso mais efetivo faz-se fora do jornalismo – com pesquisas apressadas, metodologicamente levianas, concebidas e realizadas por profissionais que obedecem a uma ética diametralmente oposta à dos jornalistasAlberto Dines,Blog do Mesquita

Estou ligado ao Observatório da Imprensa desde outubro de 1996 quando seus idealizadores aceitaram meu convite, em nome da empresa, e ele estreou como parte do conteúdo do UOL, seis meses depois de surgir na internet. Inovador, nasceu cem por cento online, sem se entregar ao suporte papel. Foi pioneiro numa realidade que começava a ser chacoalhada pela disrupção nas comunicações. Ou pior, chacoalhada pela disrupção no próprio jornalismo.

Em duas décadas, vi-o crescer no UOL e ser abatido no UOL, onde eu mesmo fui um dos abatedores. Vi-o ressurgir no concorrente iG e também ser abatido no iG. Vi-o crescer em sua vida fora dos grandes portais e se multiplicar nas redes sociais.

Também o vi crescer no rádio, quando abrigado na Rádio Cultura onde acabou igualmente abatido. Vi-o crescer tanto na TV Cultura quanto na TV Brasil. Vejo-o agora na perspectiva de uma história incomparável, de um trabalho único na complexa arquitetura da crítica da mídia – sem nunca ter-se rendido ao nobre pacto entre o cosmo sangrento e a alma pura.

Sui generis, o Observatório é “o” veículo de crítica. É o lugar da resistência da análise do jornalismo realizada a despeito do suporte. Daquele jornalismo que pretende vencer a disrupção e se manter independente, abrangente, crítico, investigativo – capaz de mediar os fatos com credibilidade junto ao seu público. Daquele jornalismo eleito sistematicamente pelos leitores, ouvintes, telespectadores ou internautas que o consomem minuto a minuto, diariamente ou semanalmente, ao escolhê-lo como sua fonte de informação.

Mais importante em tudo isso é que o Observatório tem uma alma. E a sua alma tem um nome: Alberto Dines.

O seu corpo tem inúmeros nomes, muitos dos quais estarão aqui neste mesmo Observatório para situá-lo no tempo e no espaço da observação midiática. No entanto, o Observatório não existe sem o Dines, sem sua presença inconfundível, sem a sua essência tão bem desenhada no discurso intransigente de Dines.

Conheci o Dines, pessoalmente, numa sexta-feira nervosa, 25 de abril de 1980, quando fui ao Rio conversar com ele sobre o Leia Livros, um book review que eu secretariava e para o qual ele vinha colaborando com gosto. O mensário era de propriedade do editor Caio Graco Prado, da Brasiliense, e do Cláudio Abramo, um dos mais competentes jornalistas que o Brasil já viu.

Dines trabalhava na sucursal da Folha de S.Paulo no Rio, da qual já fora o chefe, e passava por um momento de litígio com o jornal. Morava com sua mulher, Norma Couri, no condomínio Povoado das Canoas, em São Conrado, num casa afastada da cidade, acolhedora, repleta de livros e totalmente envolvida pela densa flora da Floresta da Tijuca com seus pássaros e seus macacos.

Ele estava preocupado naquele dia e expressou isso quando me pegou em frente ao hotel. A rigor, eram duas as preocupações. Uma delas (a outra você verá mais adiante) se devia à rocambolesca falha da operação de resgate dos 53 reféns norte-americanos no Irã. Um avião Hércules C-130 da força aérea se chocara com um helicóptero, ambos da força aérea americana, no deserto, e assim abortara a tentativa de resgate dos reféns. Um fracasso do governo Jimmy Carter. Tinha passado o dia acompanhando os desdobramentos – que acabaram levando à não reeleição de Carter. Qualquer conflito no Oriente Médio era para ele uma fonte enorme de angústia.

Sionista, Dines repetiu isso várias vezes. Em 2001 ele registrou: “Além de sionista, sou também um palestinista – desde meados dos anos 40 defendo a criação de dois estados na antiga Palestina, um árabe e outro judeu autônomos, laicos e democráticos.” Foi além. “Também sou tibetista (pela libertação do Tibete do jugo chinês), curdista (pela criação de um Estado Curdo com pedaços da Turquia, Irã e Iraque), libanista (contra a ocupação militar síria no Líbano) e um convicto cubista (contra o cerco americano a Cuba). Militei como timorista (pela libertação de Timor Leste do jugo indonésio) e como bengalista, pois cobri a guerra de libertação do Bangladesh (então Paquistão Oriental) torcendo a favor.” Esse é o Dines.

Jantamos e falamos muito. Ou melhor, eu ouvi muito. Acho que bebemos um vinho, não me recordo bem, mas me lembro estar diante de um mito. Eu havia lido na faculdade o seu livro O papel do Jornal, um estudo seminal sobre a liberdade de imprensa, a transparência e o jornalismo de interesse público, escrito depois de uma temporada dele na Universidade Columbia, em Nova York, logo após ter sido demitido do Jornal do Brasil – o jornal que ele ajudou a se transformar em referência de mais de uma geração de jornalistas.

Eu fora também leitor assíduo de sua coluna dominical de crítica da mídia na Folha, intitulada “Jornal dos Jornais”. Eu não sabia, vim a saber muito tempo depois (com a ajuda do Luiz Egypto, outro baluarte deste Observatório), qual tinha sido a reação do “seu” Frias (Octávio Frias de Oliveira, Publisher da Folha) ao saber que o Dines queria escrever uma coluna de crítica da mídia.

Os argumentos de Dines eram pungentes:

“Nós estamos com a imprensa sob censura. Já que vamos fazer uma revolução, temos que começar a falar sobre a imprensa! Isso é importantíssimo! O processo começa com a própria imprensa.”

”Dines, não te mete nisso! Você vai ganhar inimigos. Eles vão te matar. Essa gente é vingativa, não te mete nessa coisa“ – foi a desalentadora reação de Frias.

Apesar de tudo, Dines conquistou espaço na sexta página da edição dominical da Folha e lá ficou de julho de 1975 até setembro de 1977.

Foi um sucesso. Mas não durou.

O Jornal da Cesta

Luiz Egypto esclarece os motivos da destituição da coluna. Conta que em 17 de setembro de 1977, Cláudio Abramo foi afastado da direção de Redação da Folha. O cronista Lourenço Diaféria tinha sido enquadrado na Lei de Segurança Nacional porque escrevera, e a Folha publicara, uma crônica sobre um sargento que morreu no zoológico de Brasília ao pular num poço de ariranhas para salvar a vida de um menino. “Prefiro esse sargento ao duque de Caxias. O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. (…) O povo está cansado de espadas e cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal” – escreveu o cronista.

Enfim, Diaféria foi preso e o jornal passou a publicar a sua coluna em branco. Os militares se irritaram e o general Hugo Abreu, então chefe da Casa Militar do governo Geisel, telefonou ao Frias e pediu a cabeça de Cláudio Abramo, que foi alijado da redação. Não havia mais espaço para contestações.

Alberto Dines teve interrompida então a publicação do seu “Jornal dos Jornais”. Também parara de escrever a coluna política, do Rio de Janeiro, na segunda página. Mas continuou na sucursal do Rio onde fui encontrá-lo em 1980 no auge de uma outra crise que nada tinha a ver com o Oriente Médio, ou seja, havia uma segunda preocupação quando o conheci naquela aflita sexta-feira no Rio de Janeiro.

Dines havia retomado seu artigo na segunda página da Folha em 1978. Retirara-se da chefia da sucursal depois da greve dos jornalistas de São Paulo, em maio de 1979, mas mantivera-se como articulista na página dois e assinava com as iniciais, AD.

No entanto, no começo de 1980 alguns de seus artigos começaram a ser recusados. A ditadura continuava em pleno vigor e os nervos seguiam à flor da pele. No auge de uma greve dos metalúrgicos do ABC paulista, no mesmo abril de 1980, Dines escreveu o artigo “São Paulo e os dois Paulos” (referência a Paulo Maluf e d. Paulo Evaristo Arns, cardeal de São Paulo). Não foi publicado. Egypto relata: em seguida escreveu outro, sobre o mesmo tema, com outro título. Não saiu. Insistiu no assunto pela terceira vez; também não saiu. Decidiu então publicar no Pasquim.

O próprio Dines explicou: “Eu era muito ligado ao pessoal do Pasquim, que sempre me perguntava se eu não queria escrever para eles, e tive uma ideia: (…) criei, naquela hora, uma seção, que depois eu continuei, chamada ‘Jornal da Cesta’, com uma frasezinha que atribuí a Shakespeare, porque no Pasquim você podia fazer isso, dizendo: ‘A história da imprensa não se faz só com o que sai publicado, mas com o que vai para a cesta’. Botamos o artigo, paginado como se fosse a página 2 da Folha, escrito embaixo: AD.” O “Jornal da Cesta” virou coluna no Pasquim. Acabou demitido da Folha.

Tudo isso para dizer que seu desejo pela crítica da mídia era incontornável.

Dines fez muitíssimas coisas entre o começo dos anos 1980 e o início do Observatório, em 1996. Voltou à Folha, saiu da Folha, escreveu livros, entre os quais a irrepreensível biografia de Stefan Zweig, dirigiu a revista Exame, da Abril, em Portugal, pesquisou na Torre do Tombo, escreveu em outros jornais, manteve coluna sindicalizada, deu palestras, deu e dá aulas. É um ser humano multicêntrico.

Ninguém se dedicou ao Observatório como ele, onde se espalha muito além do verdadeiro predecessor histórico do ombudsman da Folha que foi. Quando assumi a função de ombudsman, em 1989, a primeira pessoa a qual consultei para saber o que fazer foi o Dines. Antes, reli todos os textos de “O Jornal dos Jornais”.

Na primeira semana no cargo (setembro de 1989) recebi, via correio, um bilhete manuscrito do Dines. No bilhete, a rigor uma pequena carta, ele cumprimentava o jornal pela iniciativa e me dava um conselho inesquecível, daqueles que só pessoas que gostam de você conseguem expressar com clareza: “Não cometa o erro de deixar-se envolver pela ira sagrada ou pela missão salvacionista. Isto custou-me uma dúzia de ferrenhos inimigos sem que eu tivesse conseguido quebrar o bezerro de ouro”.

Sábio conselho. Só que não, como se diz hoje nas redes. Dines exercia nele o estilo faça o que eu mando e não faça o que eu faço. Pois não é que o Dines continuou e continua desrespeitando sistematicamente este conselho com sua ira sagrada e sua eterna missão salvacionista?

Salve o Observatório! Salve o Dines!

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Caio Túlio Costa é jornalista.

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A Farsa do Voto

O objetivo deste texto é discutir a relação entre a democracia representativa burguesa, voto nulo e transformação social.

A-Farsa-do-Voto

Primeiramente discutiremos a questão do voto – já que este é, na sua expressão jurídica, o elemento central da democracia burguesa – e a possibilidade deste ser um meio de proporcionar mudanças na sociedade; analisaremos que mudanças são estas que podem ser provocadas através do voto; posteriormente expressaremos o que entendemos por transformação social, e finalizaremos com a análise da relação entre democracia representativa burguesa, voto nulo e transformação social.

O voto como meio de expressão da democracia burguesa surge com a emergência do capitalismo enquanto modo de produção dominante. A necessidade do capitalismo em criar mecanismos para amortecer as lutas de classes entre burguesia e proletariado leva a burguesia a buscar no estado o auxílio para esta tarefa. O estado no capitalismo, por sua vez, assume um caráter burguês, capitalista, sendo compreendido aqui como “uma relação de dominação de classe (no qual a burguesia domina as demais classes sociais) mediada pela burocracia para manter e reproduzir as relações de produção capitalistas”. Aqueles indivíduos que integram o estado capitalista formam uma classe, a burocracia estatal, cujo objetivo principal é auxiliar a burguesia no amortecimento das lutas de classes; criar as condições para a reprodução ampliada do capital e impedir que a luta entre classes exploradas e burguesia se torne uma luta aberta e direta. O controle e o dirigismo tornam-se a sua ação fundamental.

Em troca os capitalistas cedem parte de seus lucros para a burocracia estatal em forma de impostos. Nesse sentido, os rendimentos daqueles que estão no poder do estado, advém da exploração que o capitalista exerce sobre os trabalhadores. A relação de exploração existente no modo de produção capitalista provoca o descontentamento do proletariado, classe explorada pela burguesia. Esse descontentamento extrapola o chão das fábricas e passa a ser expresso em todas as partes da sociedade, associando-se ao descontentamento de outras classes exploradas, ocorrendo assim, uma generalização do descontentamento social.

Diante desta situação de descontentamento, as classes exploradas iniciam o processo de auto-organização, é quando criam organizações que expressam seus próprios interesses. Ao surgirem, essas organizações se deparam com as instituições burguesas e assim, passam a estabelecer novas lutas.

a-farsa-da-eleicao

O estado se impõe diante destas organizações e cria a ideia de representação política, a qual só poderá ocorrer através do próprio estado. Um conjunto de leis é criado para controlar estas organizações e legitimar a ação estatal e a partir daí qualquer organização que pretenda uma participação nas decisões sociais devem se submeter às leis do Estado. Surgem os partidos políticos. Estes, por sua vez, “são organizações burocráticas que visam à conquista do Estado e buscam legitimar esta luta pelo poder através da ideologia da representação e expressam interesses de uma ou outra classe ou fração de classe existente”. Inicia-se assim o processo de divulgação ampliada da ideia da representação política. Com isso, o estado impõe suas leis e a partir daí a participação popular é resumida à escolha deste ou daquele representante que integrado a um partido político o representará nas decisões sociais.

Os partidos políticos são autorizados pelo estado para dirigir a sociedade e representar os seus interesses. O estado, portanto, controla as organizações criadas pelas classes exploradas e cria suas próprias organizações impondo-as à toda a sociedade como sendo as organizações que expressam o interesse de todos. Os interesses estatais passam a prevalecer e logo a ideia de representação política pelo partido se torna dominante. O estado, por sua vez, para ocultar o caráter estatal dos partidos políticos permite a participação popular na escolha dos representantes e o faz através do sufrágio universal.

Através do voto, a burocracia estatal legitima a ideia de que as contradições inerentes à sociedade devem ser resolvidas por quem lhe integra e não por outras organizações que não sejam aquelas autorizadas pelo estado. Os partidos políticos se tornam os responsáveis principais pela manutenção da ordem e o faz criando novas instituições. Com isso, grandes organizações partidárias vão se formando e se tornando cada vez mais distantes dos interesses das classes exploradas.

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Os integrantes de partidos se tornam poderosos quando assumem o poder e vão se distanciando cada vez mais do povo. Durante uma determinada eleição, fazem o discurso que vão representar os interesses de todos, mas quando assumem o poder, tudo o que disseram é deixado de lado, e passam a representar a si mesmos, aos seus interesses e aos interesses da classe dominante. O mesmo discurso volta a aparecer nas eleições seguintes já que dependerá da vitória para continuar desfrutando dos privilégios que o poder lhe proporciona.

Assim, os representantes de partidos políticos tornam-se autônomos em relação às classes exploradas e ao invés de ser o seu representante, passam a ser o seu dominante, controlando-as e decidindo a partir de suas próprias concepções sobre a vida de todos. Como coloca Tragtenberg:

Na prática, o líder partidário ordena e responde aos interesses do grupo dirigente minoritário e não aos da base. Como profissional do partido o líder preocupa-se mais com seu trabalho do que com suas promessas. O fato de ser dirigente leva-o a afastar-se da vida quotidiana da maioria das pessoas, o que o torna “diferente”. Torna-se geralmente conservador, levando uma vida privada e esenvolvendo interesses da minoria dirigente. Esses líderes partidários, isolados nos escritórios, são facilmente corruptíveis pelos interesses das classes dominantes (Tragtenberg, 1986, p. 70).

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O voto representa a chave para abrir a porta do estado e o meio para um partido se tornar o seu legítimo dirigente. O objetivo principal dos integrantes de partidos passa então a ser alcançar o poder do estado e isso se torna possível através das eleições. Por isso o voto passa a ser desejado por aqueles que integram partidos políticos. Estes estabelecem uma luta cotidiana entre si e criam estratégias para conseguir o maior número de votos possível, cuja maioria dos votos lhe garante a ascensão ao poder do estado. A corrida dos representantes de partidos para conseguir voto se dá de várias formas (compra de votos, ameaças a eleitores etc) mas a principal é através de propagandas políticas que são em sua maioria financiadas e autorizadas pelo estado, o qual busca criar meios de tornar a sua divulgação ampliada. Para isso criou leis para controlar e possibilitar o uso dos meios de comunicação para a propaganda política. Ocorre que alguns partidos que disputam uma determinada eleição são financeiramente mais poderosos do que outros, o que lhe dá a chance de vencer a eleição já que conseguirá ampliar sua divulgação, além da possibilidade da compra de votos, questão comum que perpassa a corrupção partidária em períodos eleitorais. Os partidos, com poder financeiro menor, criam conchavos com capitalistas que financiam suas eleições. Alguns conseguem ser eleitos e acabam ficando presos aos seus financiadores, os quais passam a interferir, de forma indireta, através do partido eleito, nas decisões do estado.

Os partidos que são derrotados numa eleição, como forma de participar do poder estatal, acabam fazendo concessões e se aliando aos partidos eleitos. Fora dos períodos eleitorais as disputas partidárias se restringem em sua maior parte aos bastidores das rinhas de partidos políticos (nas diversas expressões do parlamento). Situação que se altera quando um ou outro integrante de partido é atacado por adversários tornando público o seu envolvimento com a corrupção partidária. Em períodos eleitorais as trocas de ofensas se tornam públicas e constantes. Alguns partidos chegam a publicar questões pessoais de integrantes de partidos adversários em relação a envolvimento a corrupções etc, um meio de desqualificar o adversário, e atrair os seus eleitores.

O voto é, portanto, a expressão da democracia representativa burguesa e o meio através do qual ocorre a reprodução/legitimação do estado e de suas instituições. A participação popular na democracia representativa burguesa se limita à ação dos eleitores nas seções de votação, e apenas nos períodos eleitorais. Ao votar em um determinado partido o eleitor transfere para este o poder de decisão
nas questões referentes à sociedade. Quer queira, quer não, o voto acaba sendo uma forma de legitimação do poder do estado, logo, dos interesses da burguesia pela manutenção e reprodução do capitalismo.

Em relação às mudanças que podem ocorrer através do voto, na democracia representativa burguesa, resumem-se a mudanças no interior do próprio capitalismo. Como colocamos anteriormente, a razão de ser dos partidos é o estado, e no capitalismo, o estado está de mãos dadas com a burguesia. Portanto, se alguma mudança ocorrer através da ação de algum partido, estas mudanças são na verdade adequações ou re-organização da sociedade de forma que atenda aos interesses do capital, logo, que reproduza os interesses da burguesia. Ou seja, são reformas que não alteram a essência da relação de produção capitalista.

Contudo, algumas mudanças no modo de vida das classes dominadas podem ser percebidas, como por exemplo, uma aparente melhora em suas condições de vida, como melhorias no saneamento básico de alguns bairros de periferia etc. O estado propõe ainda ações para atender às necessidades imediatas da população empobrecida, como doações de agasalhos, alimentos, casas; construção e reformas em escolas, hospitais; abrigos para dependentes químicos; programas para a população campesina entre outras. Enfim, várias ações são realizadas em direção às classes exploradas, porém, trata-se de ações cujo interesse real é garantir votos para as eleições futuras, o que conflui com a manutenção do estado, logo, da reprodução das relações de exploração capitalistas.

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Diante destas questões, é que surge a ilusão de que algum partido ou o próprio estado algum dia irão fazer alguma coisa para resolver os problemas que afligem a vida das pessoas que integram as classes exploradas. A ideia de que algum dia aparecerá um salvador que irá resolver os problemas sociais (pobreza, fome, violência etc.) se torna o motor que leva as pessoas às urnas depositar o voto num determinado candidato e à crença na democracia burguesa. Contudo, essa ilusão acaba se desfazendo com o tempo. Muitas pessoas que acompanham a história dos partidos políticos vão percebendo que em toda a sua história nenhum partido atendeu de fato aos interesses das classes exploradas. E isso ocorre porque os seus interesses divergem dos interesses das classes exploradas. Segundo Proudhon:

“A burocracia pretende governar em nome das massas trabalhadoras e faz grandes esforços para criar tal ilusão; diz ter fins que correspondem às exigências e necessidades das massas, mas, de outra parte, é legítimo falar de burocracia quando o grupo de governantes em questão tem, também, os seus próprios interesses particulares, que só podem ser assegurados se, na prática, ele se desvia, constantemente, dos princípios e dos programas publicamente enunciados (Proudhon Apud Motta, 1981, p. 35).”

Portanto, o voto dirigido a algum partido político não provoca nenhuma mudança fundamental nas relações de produção capitalista. A sociedade fundada na relação de exploração continua existindo e o resultado de uma eleição apenas altera o partido que irá dirigir o estado. Na democracia representativa burguesa, as classes exploradas não participam das decisões sociais já que isso passa a ser tarefa do partido. Contudo, a ideologia da representação oculta a expressão real dos partidos, cuja tarefa é encontrar os meios para representar da melhor maneira possível os interesses do estado, logo, da burguesia.

Percebemos, portanto, que a ideia divulgada pelo estado de que representa os interesses de “toda” a sociedade é falsa. Na realidade, além de representar os interesses da burguesia, cria interesses próprios que no final concorda com a essência da sociedade burguesa, ou seja, com a luta de classes que se fundamenta numa relação de exploração e isso se dá porque seus rendimentos provêm da exploração que a burguesia exerce sobre os trabalhadores que lhes são repassados através de impostos.

Concluímos esta primeira parte colocando que a ideia da democracia representativa burguesa é uma ideologia que oculta o seu lado burguês e através da ideia da representação política mantém as classes
dominadas com mãos e pés atados, dificultando e colocando empecilhos para que estes possam criar suas próprias organizações.

O exemplo clássico da oposição entre o interesse do estado e os interesses das classes exploradas é a Comuna de Paris de 1871. Naquela experiência, a classe trabalhadora conseguiu avançar sobre o capital e mostraram na prática a forma de organização que representa realmente os seus próprios interesses, que se deu através das comunas. Mas o estado logo se ergueu em sua frente, e pôs fim às organizações dos trabalhadores, integrando-os novamente às relações de produção capitalista. Já a ligação histórica e clara do partido com os interesses do estado pode ser observada de forma clara desde a Revolução Russa de 1917. Durante o processo de radicalização das lutas operárias na Rússia, o partido bolchevique assume o poder dando um golpe de estado em outubro de 1917, alegando representar os interesses dos trabalhadores e afirmava ter instalado “a ditadura do proletariado”. Ocorre que ao contrário do que expressavam, haviam instalado a ditadura do próprio partido, por meio do estado, sobre a classe trabalhadora. Os meios de produção passam a ser propriedade do estado e toda organização social, distribuição da produção a ser controlada por seus dirigentes, por isso, ser denominado de capitalismo de estado (Makhaiski 1981; Viana 2008; Pannekoek 2007, Tragtenberg 1988). Como colocara Tragtemberg a respeito da relação do partido bolchevista com as classes exploradas na Rússia:

No real, o proletariado russo perdera o controle das fábricas, dirigidas por delegados do estado, a insurreição camponesa autogestionária da Ucrânia, que derrotara os generais Denikin e Wrangel, foi contida pelo Exército Vermelho, e a insurreição de Kronstadt, que definia um programa de objetivos socialistas e libertários, foi selvagemente reprimida pelo bolchevismo (Tragtemberg, 1988, p. 92).

Os Conselhos de Operários – organizações criadas pelos próprios trabalhadores para representarem a si
mesmos – que se formaram na Rússia, foram desmantelados pelo estado o qual conseguiu instituir novamente a paz para o capitalismo, quando os trabalhadores são, à base da ditadura do partido bolchevique, integrados novamente à lógica capitalista. A partir daí a ideologia da representação burguesa se abala. Movimentos operários que tomavam a experiência dos Conselhos Operários como referência para se auto-organizarem, foram aparecendo em vários países. A máscara do estado e dos partidos políticos são arrancadas, e passam a ser vistos como inimigos da classe trabalhadora e não mais como aqueles que representam os seus interesses.

Diante desta situação é que inicia-se a política do voto nulo. Organizações políticas que buscam romper com a ordem estabelecida pelo capitalismo criam esta forma de manifestação como meio de protestar contra a democracia representativa burguesa. Essa é uma forma de expressão política encontrada pelas classes exploradas que perpassa pelo processo da democracia burguesa, pelo processo eleitoral, porém busca neste processo a deslegitimação do poder do estado. Assim, como uma forma de garantir a expressão dentro da lógica do estado capitalista, o voto nulo possibilita àqueles cujos interesses são contrários aos interesses de integrantes de partidos políticos, do estado e do capitalismo, de expressarem o seu descontentamento com a sociedade atual.

Por outro lado, o voto nulo pode ser também uma expressão do descontentamento pessoal ou de determinado grupo, ou ainda expressão de pessoas que com o tempo superaram a ilusão nos partidos e votam nulo por não ver outra opção, outro partido que possa confiar. Agora, numa perspectiva política desejada pelas classes exploradas, o voto nulo vai além da concordância com as determinações legais impostas pelo estado. Não se trata de cancelar uma eleição ou de substituir os representantes que concorrem entre si por outros. Independente de sua procedência, se é de direita, de esquerda ou de centro, todos os partidos, enquanto organizações burocráticas, estão integrados à lógica do estado. Neste caso, trata-se de denunciar e tornar explícito o descontentamento histórico contra a exploração existente na sociedade capitalista assim como da ligação do estado e de partidos com esta exploração. Para aprofundar um pouco mais neste assunto, discutiremos brevemente a questão da transformação social.

a-farsa-eleitoral

A transformação social tornou-se o principal objetivo das classes exploradas. Uma mudança radical da sociedade torna possível a instituição de uma organização social que represente de fato os seus interesses.

Não é qualquer tipo de organização que serve ao proletariado. Os partidos e sindicatos são a prova
disto. Sempre que os trabalhadores manifestam qualquer forma de organização que saia do estrito controle destas instituições, elas fazem todo o possível para voltar à normalidade e continuar sendo dirigente dos trabalhadores (Maia, 2010, p. 102-103).

Portanto, quando se fala em mudança radical, isso quer dizer que deve-se cortar o mal pela raiz. Nesse sentido, a transformação social almejada pela classe operária está relacionada com o modo de se produzir no capitalismo. Colocamos no início do texto que o modo de produção capitalista é uma relação de exploração. A exploração ocorre quando de um lado o proletariado produz mais-valor e de outro a burguesia se apropria deste mais-valor, de parte do trabalho realizado pela classe trabalhadora. O mais-valor torna-se assim o coração, o sangue e as pernas que sustentam o capitalismo. Quando a produção de mais-valor é interrompida ou abalada o capitalismo é colocado em xeque e suas forças começam a ruir, entrando em crise.

A interrupção da produção de mais-valor se dá a partir do momento que os produtores se apropriarem dos meios de produção e passam a utilizá-los para o bem de toda a sociedade, ou seja, produzindo e se
apropriando da produção e realizando a sua distribuição. É quando percebem a força que possuem diante do capital. Quando isso ocorreu em experiências passadas de sua luta, criaram organizações que possibilitaram a distribuição da produção para toda a sociedade, iniciando assim o processo de luta contra todas as formas capitalistas de organização (propriedade privada dos meios de produção, mercado, estado etc.). Este processo colocou em xeque o próprio modo de produção capitalista, consequentemente, o estado, os partidos políticos, enfim, a sociedade capitalista. E foi o que proporcionou às classes exploradas enxergarem a possibilidade de sua libertação e de toda humanidade, tornando em seu principal objetivo na luta contra o capital, a instituição da autogestão social.

Uma transformação social, portanto, como expressão dos interesses das classes exploradas, perpassa pelo modo de produção capitalista. Trata-se do fim do modo de produção capitalista e a instituição de um modo de produção não capitalista, um modo de produção gerido pelos próprios produtores. Essa transformação social será obra dos próprios trabalhadores, e não é tarefa de partido nem do estado. Com o fim do capitalismo e instituição da sociedade gerida pelos trabalhadores, todas as instituições criadas pelo capitalismo tenderão a desaparecer.

Não é possível prever as questões específicas provenientes da transformação social, mas, no essencial, é possível visualizar algumas formas que assumirá a nova sociedade. Uma vez que a sociedade na sua totalidade esteja nas mãos da classe trabalhadora, a democracia representativa burguesa será substituída pela autogestão social, e ao invés da representação política acontecer pelos partidos políticos, estes
serão substituídos pelos conselhos de trabalhadores. O período eleitoral em que todos param para votar, dará lugar às reuniões cotidianas, nos locais de trabalho, de moradia, diversão etc., onde os “delegados”, os próprios trabalhadores, serão escolhidos diretamente, e aos invés de permanecerem na situação de representante por longos períodos, como ocorre na democracia burguesa com os partidos no poder do estado, estes poderão ser substituídos a qualquer momento. Esta decisão caberá aos trabalhadores nas assembleias. O estado como manutenção da sociedade de classes, dará lugar aos conselhos de operários, expressão de uma sociedade sem classes. Os Conselhos Operários constituirão, assim, na “forma de autogoverno que substituirá, no futuro, as formas de governo do velho mundo”.

A partir das questões colocadas até então, podemos finalizar essa discussão relacionando democracia representativa burguesa, voto nulo e transformação social. Como colocamos anteriormente, a democracia representativa burguesa surge com a burguesia, logo, é expressão dos interesses da própria burguesia. O voto nulo é uma alternativa criada pelas classes exploradas para deslegitimar o poder estatal, sendo por um lado uma forma de manutenção e ao mesmo tempo de sua negação. A manutenção ocorre quando aquele que foi votar errou no momento de votar, neste caso o voto é anulado, ou que votou nulo apenas por ter problemas pessoais com determinado candidato ou partido político. Nestes casos, o eleitor não almeja conscientemente uma transformação social no sentido de colocar fim à democracia burguesa, nem mesmo almeja o fim do estado e dos partidos políticos. Tanto é que alguns votam nulo em uma eleição e votam em determinado partido em outra.

O voto nulo passa a ser uma negação da democracia burguesa quando este é relacionado a uma proposta política de negação da própria democracia burguesa. Neste caso, o indivíduo utiliza os meios estabelecidos de participação na sociedade, o processo eleitoral, para demonstrar o seu descontentamento com este processo. Com isso acaba constrangendo determinadas pessoas a conhecerem o projeto político de transformação social das classes exploradas, e assim, abrindo a possibilidade de engrossar as fileiras de pessoas descontentes que conscientemente buscam por uma nova sociedade, fortalecendo, desta forma, a luta por uma mudança radical na sociedade junto à classe operária.

Enfim, democracia representativa burguesa e transformação social se localizam em sentidos opostos. A democracia representativa burguesa representa um instrumento do estado para a manutenção na sociedade capitalista, dos interesses burgueses, enquanto a transformação social almejada pela classe trabalhadora representa o fim do capitalismo e o início de uma nova sociedade, a sociedade autogerida, pautada pela autogestão social. Quando se vota em algum partido político realiza-se a concordância com a manutenção da luta de classes, da exploração que a burguesia exerce sobre a classe trabalhadora e de todo descontentamento proveniente daí. Já o voto nulo vai em direção oposta, objetivando a transformação social, o fim da luta de classes, a libertação humana de todos os seus grilhões, o fim da democracia burguesa representativa.

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Só a regulação pode impor limites ao Facebook

Se depender de Mark Zuckerberg, ele vai botar terno e gravata e pedir desculpas. Privacidade é um direito fundamental e não pode ser negociada.    

Brüssel EU-Parlament | Mark Zuckerberg, Facebook-CEO (Getty Images/AFP/J. Thys)

É hora da regulação política, defende a jornalista Barbara Wesel.

O que se viu deu vontade de jogar gritando o computador pela janela. O Parlamento Europeu demonstrou constrangedora fraqueza durante a audiência do chefe do Facebook, Mark Zuckerberg. Em vez de perguntas precisas e difíceis sobre proteção de dados, influência em eleições, fake newsbullying e evasão fiscal, o que se viu foi um desfile de vaidades.

A maioria dos deputados se comportava como pavões na passarela e gastou o pouco tempo disponível para falar asneiras em vez de fazer perguntas. Desse jeito não se pode esperar nada quando os europeus resolvem questionar atores internacionais. Essa audiência foi uma chance desperdiçada e um motivo para sentir vergonha alheia.

Pedir desculpas se tornou fácil para o criador do Facebook. Ao longo da última década, a rede social construiu um monopólio da troca de informações privadas. E toda vez que a coisa fica séria, quando abusos se tornam públicos, Zuckerberg veste terno e gravata e diz: “Desculpem, foi sem querer. Vamos melhorar.” Nessa hora, ele faz cara de inocente e gosta de falar sobre os primórdios do Facebook em sua moradia estudantil.

Só que esse homem já é, há muito tempo, multimilionário e sabe exatamente o que faz. Seu modelo de negócios é a venda de dados privados. E mesmo que ele prometa que vai eliminar os abusos: os lucros do Facebook dependem da venda de propaganda cada vez mais invasiva e direcionada. E esta depende do uso cada vez maior de dados de usuários ingênuos ou imprudentes. Nos Estados Unidos já se fala na utilização, sem aprovação explícita do usuário, de reconhecimento facial. As opções são ilimitadas.

Se, diante disso, o Parlamento Europeu permite a Zuckerberg escolher as perguntas mais fáceis de responder, deixa ele sair barato dessa história. “Bloqueamos 200 apps”, disse o chefe do Facebook quando questionado sobre o escândalo da Cambridge Analytica. E é claro que ele não tem como garantir que casos como esse não se repitam.

Quando as perguntas são mais difíceis, como a da interconexão entre os usuários do Whatsapp e do Facebook, Zuckerberg simplesmente fala de outra coisa. Por exemplo da pesquisa sobre bem-estar social que sua empresa encomendou.

Uma série de funcionários dos primórdios deixou o Facebook nas últimas semanas. Ou escreveram livros sobre como combater o vício destrutivo da presença contínua nas redes sociais.

Desde que se ficou sabendo que a China trabalha num sistema totalitário de controle social e emocional de seus cidadãos pela internet, até mesmo o último dos idealistas deve ter compreendido que redes sociais permitem uma vigilância dos indivíduos que nem Orwell poderia visualizar em seus piores pesadelos.

Com sua declaração “privacidade é algo defasado, coisa do passado”, Zuckerberg queria mudar sentimentos e hábitos de milhões de pessoas. E, em parte, ele conseguiu. Agora, porém, vem o contragolpe, pois apenas alguns anos mais tarde ficou claro que, bem ao contrário, a privacidade é um dos direitos humanos mais valiosos e importantes. E não podemos simplesmente entregá-la a empresários como o chefe do Facebook.

Aqui o poder do mercado deve acabar, e a regulação política, começar. Zuckerberg argumenta que não se deve regular demais para não limitar novas ideias. Aonde isso leva, nós já sabemos, pois deixamos a corda frouxa para que ele pudesse seguir seus interesses comerciais sem qualquer escrúpulo. Essa objeção já não convence mais ninguém. Pelo contrário, ela cria desconfiança.

A norma de proteção de dados que entra em vigor na União Europeia esta semana é um passo inicial importante, mas precisamos de mais regras para impor limites às empresas de internet. Quando Zuckerberg diz que sua empresa paga os impostos devidos, ele infelizmente tem razão. Os países europeus o ajudaram a evitar o pagamento de impostos da forma mais descarada. Isso tem de acabar, e só leis europeias podem fazer algo contra isso.

Mas se trata de muito mais do que isso. É altamente complicado regulamentar redes sociais. Porém, elas já mostraram há muito tempo seu potencial de destruição social e político e que danos elas podem causar em democracias. Os tempos de faroeste para Facebook e companhia acabaram, mesmo que Zuckerberg peça repetidamente desculpas. Chegou a hora de trabalhar na redescoberta e proteção da privacidade.

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Abuso de antibióticos em animais ameaça milhões de pessoas

Uso irresponsável de antimicrobianos está criando superbactérias resistentes a todos os fármacos

Granja de porcos em Toledo.

Granja de porcos em Toledo. SAMUEL SÁNCHEZ 

“Morrerão 10 milhões de pessoas a cada ano”, adverte William Hall. “Os riscos são muito grandes para ignorá-los”, sentencia. Hall é um dos autores de um relatório sobre a resistência a antibióticosque pôs em alerta as autoridades europeias. O documento, elaborado para o Governo britânico, afirma que se não forem tomadas medidas urgentes em 2050 morrerão mais pessoas vítimas de superbactérias – mutantes e imunes a qualquer fármaco conhecido – que de câncer (8,2 milhões de mortes) ou de acidentes de trânsito (1,2 milhão).

A origem do problema não está nos micróbios, mas nas pessoas: médicos, veterinários, farmacêuticos, criadores de gado, pacientes. O uso indiscriminado e irresponsável de antibióticos está propiciando o surgimento de cepas de bactérias multirresistentes como a Klebsiella pneumoniae, “com uma letalidade superior a 50%, similar à do último surto de ebola, mas sem gerar atenção midiática”, segundo a médica Pilar Ramón, assessora da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Existem bactérias multirresistentes com uma letalidade superior a 50%, similar à do ebola

A farmacologista Belén Crespo, diretora da Agência Espanhola de Medicamentos e Produtos Sanitários, destacou na sexta-feira um acordo alcançado com o setor nacional de suínos para “a redução voluntária” do uso de colistina, um antibiótico de importância crítica para a saúde humana. Os criadores utilizam o fármaco em larga escala para prevenir infecções e promover o crescimento dos porcos.

A colistina também é usada em humanos como tratamento de última linha contra micróbios multirresistentes, como Klebsiella pneumoniaeAcinetobacter baumannii e Pseudomonas aeruginosa, responsáveis por infecções com alta mortalidade. Entretanto, começam a aparecer resistências à colistina, favorecidas por sua utilização na criação de animais, conforme denunciou a OMS, que pediu a proibição de seu uso como profilaxia. Neste ano, uma mulher nos Estados Unidos foi a primeira pessoa a sofrer uma infecção urinária com uma variedade da bactéria Escherichia coli resistente ao tratamento com colistina.

O uso irresponsável de antibióticos para animais não se reduz ao gado, como observou o veterinário Salvador Cervantes, membro do Grupo de Estudo de Medicina Felina na Espanha. Cervantes denunciou “um excesso de prescrição de antibióticos” nas clínicas de pequenos animais, por ignorância, para cumprir os objetivos comerciais dos gerentes, para satisfazer os donos ou “por pressão dos laboratórios, que também existe”.

“Nosso posicionamento é que os veterinários devem receitar o mínimo possível de antibióticos, a fim de evitar seu uso inapropriado, e na medida necessária para garantir aos animais um tratamento eficaz”, declarou em um comunicado Félix Hernáez, diretor-geral para o sul da Europa da Zoetis, a primeira empresa de saúde animal do mundo, com ganhos anuais de 4,8 bilhões de dólares. A indústria apoia o site Vetresponsable, para promover o “uso responsável dos medicamentos veterinários”.

A assessora da OMS Pilar Ramón também fez um apelo para “resistir às pressões e incentivos da indústria farmacêutica para prescrever antibióticos quando não são indicados”, sobretudo através de “campanhas agressivas de introdução de novos produtos” em países em desenvolvimento. Ramón expôs “os três p de pressão sobre os profissionais da saúde: pais, pacientes e pharma”

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Arte – Grafites

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