Na última quarta-feira (21), o Fomc (comitê de política monetária do Fed) decidiu manter inalterada a taxa de juros dos EUA em seu atual patamar, entre 0,25% e 0,50% ao ano.

“Eu apoiei fortemente a ida de Yellen à presidência do Fed. Eu acho que ela está trabalhando em um ambiente bem difícil. Ela tem se mostrado aberta ao fato de que há limites na política monetária”, disse Stiglitz. “O que nós precisamos é de uma política fiscal, mas isso não está muito próximo.”

De acordo com ele, Yellen “é a primeira presidente entre praticamente todos os que passaram pelo banco central americano a apontar que o que o Fed faz gera desiqualdade, desigualdade de oportunidades”. O Nobelde economia se referiu às políticas do Fed, especialmente o QE (quantitative easing —programa de recompra de ativos).

“Quando você reduz a taxa de juros a zero ou próximo de zero, isso prejudica os aposentados. Quem fica com a riqueza? A riqueza fica com as pessoas no topo da pirâmide. Então, o QE, apesar de não ter sido intencional, acabou ampliando a desigualdade”, afirmou.

“O grande debate é há os defensores da elevação dos juros, e a Yellen, como membro do conselho de política monetária, está tentando lidar com os políticos nesse cenário desafiador. Por outro lado, eu acredito que, agora, há muitas pessoas no conselho preocupadas com o desemprego nos EUA. E a Yellen é uma dessas pessoas.”

Sobre o que esperar para os próximos meses, Stiglitz acredita que o mercado de trabalho é o que mais preocupa. “Quando eu olho para a economia americana, eu vejo que o risco de inflação permanece muito, muito remoto e a persistência do desemprego permanece muito real”.

“Muitas pessoas veem a taxa de desemprego dos EUA abaixo de 4% e se perguntam: não é uma boa taxa? A resposta é que o mercado de trabalho continua muito fraco. Uma prova disso é a baixa participação da força de trabalho. Tem muitas pessoas que deixaram de procurar emprego ou que foram forçadas a aceitar trabalhos de meio período”, completou.

Efeito

A decisão do Fomc de manter os juros inalterados nos EUA não foi surpresa para o mercado. “O Fed está na seguinte situação: ele tem que subir os juros, mas não pode fazer isso de maneira rápida. Por isso, cria volatilidade de vez em quando para ‘ajustar’ as carteiras bancárias”, afirmou André Perfeito, economista-chefe daGradual Investimentos.

“É parecido com o dilema de um general que no campo de batalha tem de recuar seu exército: ele precisa fazer isso não tão rápido que pareça covardia, nem tão devagar que pareça provocação”, continuou o economista.

Segundo Perfeito, “há bons motivos para desconfiar que os juros já cumpriram o papel nesse mundo sem futuro, onde a liquidez empoça fartamente nos balanços bancários”.

“Se de um lado a atividade bancária tradicional perdeu sentido uma vez que não tem para quem emprestar (…), por outro subir os juros pode ser um desastre justamente para os bancos tradicionais que estão com suas tesourarias lotadas de títulos. Ou seja, elevar os juros implica que o preço dos títulos irá cair e, assim, teremos mais perdas patrimoniais nos balanços bancários”, concluiu o economista.

Câmbio

A possível elevação dos juros nos EUA é monitorada de perto nos países emergentes, porque a expectativa é de que um aumento da taxa pressione a cotação do dólar para cima.

Uma alta dos juros deixaria o rendimento dos títulos do Tesouro americano mais atraentes, o que provocaria uma migração de recursos hoje alocados nos emergentes de volta para os Estados Unidos.

Com menos oferta de dólar nos emergentes, a cotação da moeda americana subiria em relação às divisas locais. No Brasil, alguns especialistas acreditam que o cenário político interno pesaria mais sobre o câmbio do que a política monetária americana.

Roberto Indech, analista da corretora Rico, é um deles. “Caso medidas de ajuste fiscal como a PEC que limita os gastos do governo e a reforma da previdência sejam colocadas em votação no curto prazo, há a perspectiva para uma melhora na economia, o que valorizaria o real”, disse.
Anderson Figo, de EXAME.com